Leilões de biodiesel

A opinião de distribuidoras e usinas após o 26º leilão de biodiesel


BiodieselBR.com - 21 jun 2012 - 11:30
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Ao que tudo indica tanto usinas quanto distribuidoras saíram razoavelmente satisfeitas do 26º Leilão de Biodiesel, o primeiro a ser realizado depois das recentes mudanças no sistema de comercialização. Ao menos essa é a impressão que prevalece de uma série de conversas que BiodieselBR teve com profissionais ligados à cadeia do biodiesel nesses últimos dias.

Encerrada na última sexta-feira (14), o leilão arrematou 769 milhões de litros de biodiesel que serão usados para garantir a mistura obrigatória ao longo do terceiro trimestre do ano. O processo movimentou a respeitável quantia de R$ 1,96 bilhão.

Entre as usinas há a percepção de que os valores pagos pelo biodiesel foram adequados. Nas palavras do presidente da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio), Erasmo Battistella, o preço médio praticado – de R$ 2,551 por litro – traz rentabilidade para os produtores. Embora ele opine que a margem é apertada devido às altas recentes no preço do óleo de soja, principal matéria-prima do setor. Naturalmente, nem todo mundo saiu contente. O diretor da Cesbra, Carlos Omar Polastri, resaltou que a tonelada de óleo de soja está custando R$ 2.800. Contudo a comparação de preços deve ser com o litro de óleo sem o ICMS. Assim é preciso converter essas toneladas em litros e descontar 12% de ICMS, o que faz com que o preço do litro de óleo custe para a usina R$ 2,27.

Apesar de a sistemática nivelar o preço por cima, as usinas disseram que o modelo teve sucesso em estimular a competição. Houve até quem ressaltasse que usinas de grande porte que ofereceram seu biodiesel por preços considerados pouco atrativos — e acima do nivelamento — acabaram ficando com seu produto encalhado.

Já as distribuidoras não estranharam que a disputa tenha puxado os preços para cima. Segundo Ricardo Gullo Chernicharo, supervisor de trading da Alesat, o processo dentro dos releilões sempre foi desse jeito. “O processo sempre foi esse. A usina que entra com preços baixos e têm demanda, o preço sobe até equalizar com os preços das demais usinas que tenham uma logística similar”, comentou.

Entre as reclamações está a demora entre a 1ª etapa, na qual as usinas fazem suas ofertas, e as etapas 2 e 3, nas quais as distribuidoras arrematam os volumes. Muitos dos usineiros consultados acharam que, devido às variações no preço da soja e no câmbio, o período de nove dias entre uma fase e outra expõem as usinas a riscos desnecessários. “Essa história de eu ficar dez dias descoberto no mercado de commodities é meio como fazer roleta russa”, reclamou Adilton Sachetti da Cooperbio.

Entre as distribuidoras, além da reclamação de que o processo todo ficou maçante, há também a percepção de que o biodiesel continua caro. Mas aparentemente há boa vontade da parte delas em relação ao produto.

Falta ainda saber a avaliação do governo que, afinal, foi o arquiteto das mudanças. Mas em meio a semana de início do processo oficial da Rio+20, foi impossível conseguir falar com os representantes da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel (CEIB) e do Ministério de Minas e Energia.

Opiniões

Francisco Flores, gerente administrativo da Fiagril
Vendas: 45 milhões de litros (100% do volume ofertado)
Preço médio: R$ 2.431,72
“Achei que o resultado foi bom, pois vendemos todo o volume que planejamos. Na minha opinião, o modelo é favorável. Se o biodiesel da empresa é disputado por várias distribuidoras, ele sai. Claro que para que isso aconteça é preciso considerar a localização da usina, qualidade e preço. A demora entre a oferta das usinas e a resposta se a venda vai ser fechada ou não coloca as usinas em risco. Nesse tempo o preço da matéria-prima pode subir e a usina ficar com prejuízo.”

Ricardo Gullo Chernicharo, supervisor de trading da Alesat
“Acredito que o leilão foi bom. Ele não foi excludente, se você analisar bem, vai ver que produtores que traçaram uma estratégia adequada conseguiram vender sua produção. Mesmo produtores menores. Acho que um avanço para o sistema seria as usinas terem a opção de baixar seus preços depois da 1ª etapa deixando a disputa mais próxima de uma negociação de balcão.

Durante a disputa das distribuidoras, os preços tendem a ficar equalizados dentro de uma mesma região em função da logística. A disputa sempre foi assim. Claro que o ideal seria que o biodiesel tivesse um preço mais perto do diesel de petróleo, mas não dá para fazer milagre. Comparando com o diesel, óbvio que o biodiesel ainda é caro, mas essa é uma comparação ruim porque o diesel de petróleo tem subsídios e, além disso, estamos vivendo um momento em que a soja teve uma elevação muito forte.”

Carlos Omar Polastri, diretor executivo da Cesbra
Vendas: 7,5 milhões de litros (100% do volume ofertado)
Preço médio: R$ 2.705,00
“Foi muito favorável, pois valorizou parâmetros que tinham menor importância no modelo anterior, tais como qualidade, logística e compromisso na entrega. O modelo ainda precisa de ajustes, mas creio que estamos muito próximo do ideal. Ele estimulou a competição entre as usinas. Vimos grandes empresas terem seus volumes preteridos em detrimento de outras que tinham atrativos importantes, e outras terem dificuldades única e exclusivamente em razão do preço elevado. Os “prêmios” pagos pelas distribuidoras são uma prática natural do mercado de valorizar quem tem algo a mais para oferecer. O modelo é trabalhoso, porém simples de entender. Quem tem mais a oferecer é melhor remunerado pelas distribuidoras, obviamente que isso se dá dentro de um limite de demanda da região. No passado este prêmio ficava integralmente para Petrobras, o que não era justo.”

Erasmo Battistella, presidente da Aprobio
“Acredito que esse leilão tenha sido mais equilibrado e, numa avaliação mais setorial, tenha devolvido aos produtores uma rentabilidade, ainda que mínima. Acredito que o preço até poderia ter sido um pouco melhor para os produtores para compensar o aumento do dólar e da soja. O que vemos como uma necessidade de mudança muito importante é que o leilão de oferta seja junto com o de compra. Assim, evitaremos a variação cambial e de preços de matérias-primas entre um certame e outro.
Percebemos claramente que cada usina e distribuidora buscaram maximizar seus pontos positivos. As usinas mostraram vantagens de logística, qualidade, CFPP e posições, enquanto as distribuidoras conseguiram escolher os fornecedores de sua confiança ou que melhor se encaixam na sua modalidade de logística. Como há liberdade para as distribuidoras escolherem qual a melhor usina fornecedora, elas entram num leilão onde agregam valor a um produto diferenciado. Essa é uma prática normal, como em qualquer outro mercado.”

Adilton Sachetti, presidente da Cooperbio
Vendas: 25 milhões de litros (100% do volume ofertado)
Preço médio: R$ 2.401,13
O leilão foi mais justo porque fomos nós que determinamos nossos preços dentro de nossas premissas e custos. No formato anterior havia um estímulo para você se matar, aceitando margens mínimas e até negativas para não ficar parado um trimestre. Isso já chegou a acontecer conosco, não pudemos vender nada porque o preço do leilão ficou abaixo de nossa margem de corte. Dessa vez conseguimos vender tudo colocando um lote para cobrir nossos custos fixos e os outros arbitrando margens melhores. O grande problema é essa história de ficar 10 dias descoberto entre minha oferta e as compras das distribuidoras. É insano ficar com isso em aberto, e espero que no próximo leilão a gente já consiga fazer tudo em um dia só.

A disputa funcionou bem. Se você olhar para os preços de partida das usinas, estes eram bastante distintos entre si, o que demostra os custos das usinas. Claro que o desenho da competição acabou jogando os valores para cima. Os preços também não foram uniformes. Por exemplo, a gente ficou abaixo do preço médio nacional. Alguns estados tiveram margens melhores em função da logística. Mas isso é normal, cada um tem suas vantagens e precisa usá-las.”

Sergio Di Bonaventura, vice-presidente da Araguassú
Não participou do leilão
“Sem dúvida os preços melhoraram, mas a incerteza dos volumes vendidos ainda é um problema, porque qualquer modelo de comercialização no qual você não sabe o volume que irá vender compromete um planejamento de longo prazo. Mesmo assim eu acredito que estamos perto do modelo final de comercialização no qual as usinas negociarão diretamente com as distribuidoras, ficando para a ANP a responsabilidade de controlar qualidade e volumes adquiridos. Em resumo, estamos na direção correta, mas ainda não chegamos ao destino final.”

Leandro Martins, presidente da Cooperfeliz
Vendas: 600 mil litros (100% do volume vendido)
Preço médio: R$ 2.401,13
“Achei a maneira com o leilão foi realizado interessante, mas só vamos saber melhor as consequências desse modelo mais a frente, quando tivermos os dados de entregas do biodiesel vendido. Mas digamos que os preços pagos conseguem saldar parte do prejuízo deixado pelo 25º leilão. Acredito que o resultado foi justo, mas é preciso fazer uma ressalva. Logo após o término das compras, a Petrobras entrou comprando biodiesel com preços maiores do que a média e sem pulverização. Precisamos analisar quais foram os critérios utilizados. Até mesmo para que as usinas possam levar em conta as necessidades da Petrobras em suas estratégias de venda.

Acho que o leilão proporcionou uma competição saudável dentro do setor. O que o governo precisa deixar claro é se o biodiesel é só mais uma fonte de energia ou se ele também é um programa social. Bancar o Selo Social hoje custa caro e ficamos sem saber se vamos vender no leilão. Da forma como está caminhando, o setor vai ficar nas mãos das grandes usinas verticalizadas e nós já conhecemos o desfecho dessa história. Tem que haver uma segurança mínima para que possamos trabalhar o social e consegui saldar os investimentos.”

Luiz Carlos Ferreira de Paula, gestor administrativo da Taurus Distribuidora
“Foi satisfatório, sim. Mas achei o processo muito maçante, ele começou às 8h e foi terminar quase às 19h. Também tivemos problemas no simulado que fizemos na Petronect, o sistema travou duas vezes, o que nos levou a entrar em contato com a Petrobras. No dia do leilão o funcionamento foi satisfatório. O modelo novo tem uma vantagem sobre a versão antiga. Como a oferta era por regiões, se a oferta alocada para determinada região fosse menor do que a demanda de uma distribuidora, ela tinha que arrematar o saldo em outras regiões, deixando a logística da operação mais cara.

No nosso caso, o biodiesel ficou bem mais caro do que no leilão anterior. Mas entendo que como agora as usinas têm um compromisso ainda maior com a qualidade, acho natural que os preços sejam maiores.”

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com
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