Motores

The Economist: produzindo seu próprio biodiesel


BiodieselBR.com - 05 dez 2011 - 06:59 - Última atualização em: 27 fev 2012 - 13:45

Os motores diesel têm fama de não serem enjoados com o tipo de material que passa por seus cilindros. O projeto original de Rudolf Diesel, por sinal, era que rodassem com pó de carvão. Mas talvez até mesmo ele ficasse espantado com a receita bolada por Peter Ferlow. Morando em um subúrbio de Vancouver, cidade no extremo oeste do Canadá, Ferlow é um dos líderes de um grupo cada vez maior de entusiastas que fabrica o próprio combustível para seus carros. O motor a diesel de seu carro funciona com óleo coletado da cozinha de um bar local.

A receita começa pela filtragem das migalhas de pão com uma tela de malha metálica. Depois disso o óleo é aquecido e acrescenta-se hidróxido de sódio e metanol. O hidróxido de sódio (conhecido na indústria como “lixívia” ou “soda cáustica”) quebra as moléculas de óleo em ácidos graxos e glicerina. O metanol reage com os ácidos graxos para formar ésteres. Filtra-se a glicerina. O restante é lavado com água para remover impurezas e soda cáustica em excesso. Drena-se a água. Com um aerador de aquário, injeta-se ar no material para separar os últimos vestígios de umidade. O resultado são 175 litros do melhor biodiesel feito em casa, suficientes para que Ferlow rode 1.200 quilômetros com sua picape. O custo, calcula ele, é de meros 45 dólares canadenses (cerca de R$ 80) mais duas horas de trabalho. O óleo sai de graça – os donos restaurantes ficam contentes em ver-se livres do material sem ter de arcar com os custos de descarte.

Isso pode mudar. De acordo com Miles Phillips, chefe da Cowichan Energy Alternatives Society, sediada na cidade de Duncan, na mesma província canadense, a demanda local por combustível de “óleo vegetariano” já está superando a oferta. Além do mais, o biodiesel feito com óleo de restaurante pode dar um bom lucro na venda. No outro extremo da América do Norte, a Baltimore Biodiesel Co-op, em Maryland (EUA), afirma que há motoristas conscienciosos dispostos a pagar até 30% mais que o preço do diesel de petróleo comum para abastecer seus carros com biodiesel. A cooperativa anunciou que suas vendas aumentaram em 20% este ano. Presume-se que em algum momento os donos de restaurantes também vão querer sua fatia na brincadeira. Mas, por ora, eles parecem satisfeitos em colaborar sem receber nada em troca. A cooperativa conta com um produtor industrial – conhecido na região como “pega-banha” – que percorre os restaurantes da região com um caminhão e coleta o material de graça. E, a partir no ano que vem, planeja comprar biodiesel também de produtores caseiros.

Alguns desses produtores, como é o caso de Ferlow, dão uma de Professor Pardal e criam suas próprias engenhocas para produzir o equivalente para o motor de uma pinga de alambique. Outros recorrem a reatores vendidos em lojas. Uma empresa britânica, a Oilybits, vende por £395 (cerca de R$ 1.100) um aparelho capaz de fabricar bateladas de 120 litros de biodiesel. E o proprietário da firma, Adrian Henson, é modesto o suficiente para admitir que várias outras empresas disponibilizam produtos semelhantes. O processo não é particularmente perigoso. Os ésteres de biodiesel não são tão voláteis a ponto de formarem um vapor explosivo (motivo pelo qual só podem ser usados em motores a diesel, e não a gasolina), e, ainda que o metanol e o hidróxido de sódio requeiram cuidado no manuseio (por si os compostos já não são agradáveis, mas se reagirem um com o outro podem ser verdadeiramente nocivos), até o momento nenhum órgão de saúde e segurança dos países onde o biodiesel caseiro está virando febre chegaram a intervir na questão. Mesmo os fiscais tributários fazem vista grossa. Na Inglaterra, tentou-se estabelecer uma multa para quem não recolhesse imposto sobre o combustível feito em casa, mas agora é permitido manufaturar até 2.500 litros por ano.

O filtro da lei
Mas, caso as autoridades viessem mesmo a proibir a esterificação caseira, haveria outro caminho para os entusiastas que quisessem declarar independência das companhias de petróleo. A vantagem dos ésteres é que eles são um substituto direto do diesel de petróleo. Com algumas modificações, porém, muitos motores a diesel também podem rodar com óleo vegetal não esterificado.

Normalmente, os óleos vegetais não refinados não funcionam em motores a diesel porque são mais viscosos que o óleo diesel convencional, causando o entupimento do sistema de distribuição de combustível. Mas basta aquecê-los e o problema desaparece – pelo menos em motores mais velhos (motores modernos, que usam sistemas de injeção com tecnologia de ponta, “CRDI”, são menos permissivos).

Portanto, uma forma comum de se converter um veículo para rodar com óleo vegetal não processado é provê-lo de dois tanques. Um pequeno, com diesel de petróleo, mantém o motor funcionando até que o radiador esquente. Então a água é desviada do radiador para dentro de tubos que atravessam um tanque maior, abastecido com óleo vegetal. Assim que o conteúdo deste tanque estiver aquecido e fluido, o motorista poderá acionar um interruptor para que o motor passe a queimar óleo vegetal.

No ano passado, John Shepley, cooperado da Baltimore Biodiesel, adaptou sua caminhonete de 12 anos para rodar dessa forma. Ele gastou US$ 1.500. Porém, à medida que mais gente faz o mesmo, as conversões estão ficando mais baratas. O kit de conversão da Oilybits custa uns US$ 315.

À Grécia com graxa e graça
Uma vez feita a adaptação, o mundo estará a seus pés. Em agosto de 2008, por exemplo, oito equipes iniciaram um rally de automóveis saindo de Londres. A intenção era atravessar a Europa rodando apenas com óleo recolhido de restaurantes. Todos os carros chegaram ao destino final, Atenas, sem ter de comprar combustível.

Mesmo agora, três anos depois, conseguir descartes de óleo de cozinha de graça ainda é fácil, segundo Andy Pag, organizador do rally. Ele dirigiu mais de 30 mil quilômetros com óleo vegetal, em países tão longínquos quanto a Mauritânia, sem jamais pagar pelo material. Há obstáculos, é claro. No lugar da tela usada por Ferlow, Pag carrega uma centrífuga (movida a energia solar, naturalmente) para cima e para baixo. Antes de abastecer, ele coloca o óleo angariado na centrífuga. As partículas de comida e água são repelidas e viram uma graxa cremosa, que ele retira com um pano. Pag demora mais ou menos meia hora para purificar o equivalente a um tanque de combustível desse jeito. A maior dificuldade, segundo ele, é manter as roupas limpas.

Isso, no entanto, é um preço pequeno a se pagar pela satisfação virtuosa e cálida que se consegue da conversão de lixo em poder motor. É barato, ambientalmente amigável e, segundo Ferlow, até mesmo os gases do escapamento ficam com um cheirinho mais doce.

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Fonte: The Economist
Tradução e adaptação BiodieselBR.com