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Soja

Venda antecipada de soja no Brasil avança após alta de preços


Globo Rural - 10 set 2026 - 08:50

Além de gerar receio sobre seus eventuais impactos na produtividade da safra 2026/27 de soja, o El Niño também já afeta as vendas antecipadas da oleaginosa no Brasil. Com os preços nos maiores patamares do ano no país, a comercialização até avançou. Porém, segundo analistas, poderia estar mais acelerada, não fosse a postura cautelosa dos produtores, que preferem esperar para ver qual será o impacto real do fenômeno na safra.

De acordo com Luiz Fernando Roque, coordenador de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets, os sojicultores já negociaram 23% da safra que será plantada este mês. O percentual está abaixo da média dos últimos cinco anos, de 29%, mas supera os 21% registrados nessa mesma época de 2025.

Ele afirma que o ritmo de comercialização avançou em decorrência da alta expressiva das cotações da oleaginosa no mercado interno. Esse movimento de valorização começou em julho e se mantém até o momento, com o Indicador Cepea/Esalq base porto de Paranaguá fechando a R$ 160,12 ontem, o maior nível em três anos.

A alta expressiva, no entanto, não foi suficiente para motivar uma postura agressiva nas negociações da soja, uma vez que impera entre os produtores receio com os impactos do El Niño.

“Em anos como este [com a presença do El Niño], parte dos produtores tende a especular um pouco mais antes de avançar nas negociações. Para os agricultores do Centro-Norte, por exemplo, onde se espera chuvas abaixo da média, é natural eles se retraírem das negociações por conta da incerteza com a sua própria produção”, afirma Luiz Fernando Roque.

Em sua avaliação, a partir do início do plantio da soja no país e se as previsões para o clima indicarem novos riscos para as lavouras, o ritmo de comercialização pode desacelerar.

Ale Delara, diretor da Delara Agronegócios, também destaca o aumento de preços da soja no país em agosto. Em Sinop, por exemplo, a saca registrou alta de R$ 15 na comparação com o mesmo mês do ano passado, atualmente cotada a R$ 119 . Pelos cálculos de sua consultoria, as negociações antecipadas da soja da safra 2026/27 estão em 31,3%, acima dos 22,8% registrados um ano atrás.

“Algumas consultorias estão recomendando ao produtor segurar o ímpeto de comercialização. Com os preços bons, eles querem aproveitar para avançar com as vendas. No entanto, como o risco para a safra com o El Niño é alto, fica a dúvida de avançar em 50% da comercialização da safra agora e deixar de aproveitar preços melhores lá na frente”, observa.

Delara afirma ainda que existe o receio de se antecipar grandes volumes de venda de soja e, no caso de uma quebra da safra, o produtor ficar sujeito a washouts — cláusula que prevê indenização se o contrato de venda de grãos não for cumprido.

Francisco Queiroz, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, explica que o bom momento de preços para a soja se dá em razão de uma demanda interna e externa firme, prêmios positivos e dólar em patamar elevado. A combinação desses fatores movimentou as negociações da soja.

“O produtor aproveitou essas oportunidades de alta para a soja e avançou nas negociações da safra nova, que chegaram a 20% da produção esperada, igualando a média dos últimos cinco anos, uma vez que essas vendas estavam atrasadas”, ressalta o analista do Itaú BBA.

Com base em relatos de produtores, Queiroz diz que há expectativa de novas altas nos preços da soja. Essa valorização pode acontecer a depender dos desdobramentos do El Niño no restante da safra 2026/27.

“Não dá para generalizar, mas há muitos produtores que têm essa expectativa de que o El Niño vá eventualmente trazer impactos negativos para as safras da América do Sul e fazer o preço subir ainda mais”, afirma o analista. Ele acrescenta que a questão climática está interferindo na tomada de decisão de venda pelo produtor, “tanto pela perspectiva de mudança no preço, quanto por uma questão de uma menor produtividade”.

Paulo Santos – Globo Rural