BiodieselBR.com 27 out 2021 - 10:53 - Última atualização em: 27 out 2021 - 16:24

O Grupo Potencial fez uma aposta e tanto no setor biodiesel. Pouco mais de um ano atrás, a empresa mais do que dobrou a capacidade produtiva de sua usina em Lapa (PR) atingindo a superlativa marca de 900 mil m³ por ano. O movimento é parte de uma estratégia que pretende colocar o grupo, que teve origem no ramo de distribuição de combustíveis, entre as grandes do mercado de energia do Brasil.

Para falar sobre os planos da empresa, BiodieselBR.com conversou com o diretor do Grupo Potencial, Carlos Eduardo Hammerschmidt.

BiodieselBR.com – A usina de biodiesel da Potencial em Lapa (PR) se tornou a maior do Brasil no ano passado. Qual é a história desse projeto?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – A ideia de ampliar para que nos tornássemos a maior planta de biodiesel já estava em nossos planos. Até porque, no nosso mercado, escala é fundamental. A gente vem do setor de distribuição de combustíveis onde as margens são sempre muito pequenas. Em 30 anos de mercado, aprendemos que escala faz a diferença. Em 2012, quando entramos no segmento de biodiesel, o mercado passava por uma crise e conseguimos sobreviver porque estávamos preparados para essa situação. A gente sempre dá o passo de acordo com o planejamento. E nosso planejamento já previa que, quanto mais volume a gente tiver dentro de casa, maior nossa capacidade de reduzir outros gargalos para sobreviver.

BiodieselBR.com – O setor tem vivido um período bastante atribulado em sua história. Como a Potencial está vendo este momento do mercado?

Carlos Eduardo Hammerschmidt  Está havendo uma falta de atenção para a para o setor de biodiesel no Brasil, a diminuição da mistura vem causando um efeito em cascata no agronegócio como um todo, tomar decisões sem estudo da cadeia é um erro gravíssimo.
Somos considerados pouco relevantes para a economia brasileira mesmo sendo um setor que gera mais de 1,5 milhão de empregos diretos e indiretos.
A diminuição no percentual de mistura não fez diminuir a inflação nem o preço dos combustíveis. Até porque o corte da mistura pressiona outras cadeias. A indústria de rações e de proteínas animais, por exemplo, estão sofrendo com a queda do esmagamento de soja no mercado interno. Com menos farelo, a ração fica mais cara; com a ração mais cara o frango passa a custar mais.

BiodieselBR.com – Os cortes afetam as perspectivas de novos investimentos da Potencial?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – Certamente estamos repensando em alguns projetos relacionados ao biodiesel. Mas não em outros segmentos de energias renováveis. Se o biodiesel não estiver correspondendo, vamos buscar outros projetos. A gente sabe que o mercado de energia está passando por um momento de transição e a Potencial quer se posicionar não mais como uma empresa de combustíveis, mas como um Grupo de Energia.

BiodieselBR.com – O cronograma de aumentos da mistura não garante o mercado?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – O percentual de mistura não está sendo reajustado conforme lei prevista na Resolução 16 de 2018 pelo Conselho Nacional de Política Energética ( CNPE ), que autoriza a ANP elevar o percentual de mistura até 15 %, que deveria ocorrer até 2023.
Existe um lobby muito grande de várias entidades para não haver aumento da mistura, nesse quesito estamos perdendo a oportunidade de cumprir as nossas metas ambientais, oportunidades de mais geração de emprego e de renda para a população brasileira.
Vamos ver o que virá pela frente no COP26. O Brasil vem importando 10 % da quantidade de Diesel comercializado no mercado interno, estamos gerando empregos e rendas para outros países.

BiodieselBR.com – No evento de inauguração da ampliação da usina de Lapa, o presidente do Grupo Potencial, Arnoldo Hammerschmidt, sinalizou interesse em outros biocombustíveis. Qual o nível de maturidade dessa ideia?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – Como disse acima, a Potencial quer ser uma empresa de energia. Estamos no mercado de Biodiesel, temos desejo de entrar no etanol e outras energias renováveis que podem aparecer pela frente. O mais adiantado destes projetos é uma planta para a extração de óleo de soja, até por que faz parte do nosso negócio de Biodiesel, somente não queremos dar o passo maior do que a perna.
Hoje comercializamos etanol, energia que já faz parte dos nossos produtos, mas ao invés de sermos somente distribuidores, desejamos ser produtores de energia limpa e sustentável.

BiodieselBR.com – O plano é que empresa continue atuando de forma concentrada em Lapa ou a ideia é pulveriza a presença por outros estados brasileiros?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – A Lapa foi nosso ponto de partida para a diversificação de produtos do grupo potencial. Somos um país continental, temos que estar próximo matéria prima e cada estado tem suas políticas de incentivos diferentes, então, como todo empresário, estamos em busca de oportunidades.

BiodieselBR.com – Existe alguma vantagem em manter todas as operações concentradas num único local?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – Aumentar sua produção em um único complexo permite diminuir custos fixos e variáveis. Se você tiver plantas em locais diferentes você necessitará de investimento maior em infraestrutura, e provavelmente afetará seu custo de operação, mas isso não exclui a necessidade de investirmos em outras plantas em outros lugares.

BiodieselBR.com – Ter uma capacidade concentrada também não cria desafios? O abastecimento de matérias-primas não é um problema?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – Os Desafios existem, mas como todos os nossos projetos, esse na LAPA foi bem planejado.

BiodieselBR.com – Vocês possuem cronograma para iniciar o projeto da extratora de óleo de soja?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – Temos sim. Queremos iniciar em 2022 e queremos estar com a unidade pronta em 2023. Sabemos que não é um investimento pequeno, ainda mais com o preço atual do dólar e da soja. Você precisa manter capital para 5 ou 6 meses de produção. Vai ser um novo negócio que vamos agregar ao Grupo Potencial como fizemos com a glicerina. Hoje, nós temos um share de 12% da glicerina refinada no Brasil. Nossa planta refina 50 mil toneladas ao ano.

BiodieselBR.com – Falando em glicerina, como está a tecnologia de glicerólise que vocês implantaram?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – É algo que só podemos fazer porque temos o refino da glicerina. No processo de glicerólise, a gente aproveita todos os nossos subprodutos para fazer um óleo sintético que, depois, transformamos em biodiesel.

BiodieselBR.com – Com o fim dos leilões serão abertas novas possibilidades de relacionamento entre fabricantes e distribuidoras. Como estão vendo a mudança?

Carlos Eduardo Hammerschmidt – Sempre tivemos um bom relacionamento com as distribuidoras, e isso vai nos ajudar muito na relação entre produtor e distribuidor.

BiodieselBR.com – Qual seria a preocupação como produtor?

Carlos Eduardo Hammerschmidt Precisamos ter um mercado com regras. Estamos há mais de 30 anos brigando sem parar e não conseguimos resolver o problema da tributação no mercado de etanol. Segundo estimativa da Fundação Getúlio Vargas a sonegação, no etanol hidratado, gira em torno de R$ 10 bilhões por ano, às vezes me parece que isso não faz falta nos cofres públicos, e nós somos os contribuintes que pagamos essa conta. No leilão as usinas precisam cumprir várias exigências e estar em dia com o Fisco. O leilão garante segurança tributária para o produtor e para o distribuidor. Quando o mercado estiver aberto podemos ter problemas de ordem tributária. Será que isso não vai atrair empresas que pretendem trabalhar de forma irregular no mercado de Biodiesel? Como uma empresa compete com quem trabalha de forma irregular? Na Potencial Petróleo a gente vende um bilhão de litros por ano, desse total 97% são gasolina e diesel e só 3% são etanol hidratado. Isso não é Natural.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com