


Demorou um pouco para que a Petrobras encontrasse seu lugar dentro da intrincado cadeia da comercialização do biodiesel. Mas o esforço foi compensado. Hoje, a estatal parece mais confiante em relação seu papel e suas contribuições conforme destacou o gerente de comercialização de biodiesel da estatal, Sandro Barreto, em sua palestra na 10ª edição da Conferência BiodieselBR, realizada no início deste mês.
“Quatro anos atrás, o mercado tinha uma visão bastante diferenciada da gente. Ouvi diversas vezes – até com certa razão – que tínhamos uma postura fechada e que, talvez, não agregássemos o suficiente”, recordou. “A gente estava aprendendo”, justificou ressaltando que o pensamento da estatal em relação ao mercado de biodiesel evoluiu bastante de lá para cá.
O gerente da Petrobras comparou a atuação da estatal a de uma bolsa. “O nosso objetivo é criar um ambiente que propicie para que as negociações sejam feitas de forma segura e transparente”, definiu.
Barreto observou que a Petrobras – como qualquer empresa – está em busca de margens e que isso inclui sua participação no negócio de biodiesel. “A gente sempre defendeu que existisse uma margem. Ela cobre custos e gera rentabilidade a partir dos serviços que gente presta”, expôs Barreto afirmando que “é essa rentabilidade que garante a qualidade dos serviços”. “Eu posso defender internamente, em qualquer instância da Petrobras, que o biodiesel é também um negócio. Somos agentes do mercado”, posicionou.
Melhorias
Barreto citou algumas soluções desenvolvidas pela Petrobras que ajudaram a tornar a vida de usinas e distribuidoras mais fácil. Mencionou, por exemplo, que seria impensável imaginar o mercado de biodiesel sem o CC-Caminhão – software desenvolvido pela estatal que organizada o processo agendamento das retiradas de biodiesel.
“É regredir a um momento onde se havia fretes mais caros, os motoristas ficavam horas e horas aguardando um carregamento e havia uma incerteza muito grande. Hoje, você consegue ter previsibilidade de entrega, e seus clientes, sabem se vão conseguir retirar ou se vão ter que recorrer ao estoque regulador”, comparou.
Medida de execução mais simples, a padronização dos contratos de venda de biodiesel ajudou a evitar problemas relevantes, segundo o gerente da Petrobras. “Se cada um [dos produtores] negociasse individualmente com a contraparte, certamente haveria uma volatilidade de condições comerciais. Poderia até ter um preço semelhante, mas condições comerciais, não. E se há condições comerciais diferentes, os custos também serão”, comenta.
Sandro também anunciou que a Petrobras havia cumprido um compromisso assumido na Conferência BiodieselBR 2012 de baixar a margem cobrada durante os leilões dos – então – R$ 60 por m³ para os atuais R$ 20 por m³. “Tudo o que foi prometido em 2012 foi feito. E conforme prometido, a margem chegou ao patamar que a gente esperava”, comemorou o gerente da Petrobras comentando que a atual margem representa aproximadamente 1% do preço do biodiesel. “Valor justo pelo serviço prestado”, avaliou.
De acordo com Barreto, se a Petrobras tivesse deixado tudo como estava na época em que a margem do adquirente foi implementada – R$ 80 de margem por m³ -- o custo extra para o setor teria sido de R$ 235 milhões. “Isso é custo direto, pois a minha margem é aplicada direto no preço da usina. Então, esse ganho aqui é uma redução de custo na venda do biodiesel”, constatou.
Multas
O palestrante apresentou também dados interessantes compilados pela Petrobras acerca das multas que a estatal é responsável por cobrar de usinas e distribuidoras inadimplentes. De acordo com Barreto, a Petrobras aplicou às distribuidoras 128 multas que somaram R$ 3,44 milhões. Desse total de penalidades aplicadas, 118 foram pagas às usinas, 7 encontram-se em cobrança e apenas 3 não foram pagas. “São referentes a dois distribuidores que perderam suas licenças de operação”, justificou o gerente da estatal em relação as essas últimas.
Em contrapartida, as distribuidoras solicitaram à Petrobras a aplicação de apenas duas multas. “As usinas são perfeitas nas entregas? Não, eu diria que há um equilíbrio de falhas”, atestou. “O porquê das distribuidoras não cobrarem multas das usinas, eu não sei. Mas é um número interessante”, observou.
Barreto constatou ainda que, antes da implementação da penalidade, o percentual de retiradas nunca chegava a 90%. “Hoje, a gente tem percentuais que nunca baixam de 90% e que, nos últimos leilões, foram acima de 95%. É você ter 95% de entrega do volume contratado no leilão. Isso é uma eficiência de retirada muito boa”, ressaltou.
Para o gerente da Petrobras esse resultado é efeito direto do endurecimento das regras. Segundo ele, o distribuidor, para não acabara multado prefere contratar tancagem, estocar o biodiesel não usado e fazer uma compra menor no leilão seguinte.
Opções
Barreto apresentou também para o público da conferência um balanço sobre os Leilões de Opções – solução concebida pela Petrobras para resolver o problema dos estoques físicos que era obrigada manter e, ao mesmo tempo, assegurar que o mercado tenha onde se socorrer caso necessite de volumes adicionais.
Ainda de acordo com o gerente da Petrobras, os leilões de opções também tiveram sucesso em criar uma nova fonte de receita para as usinas. Desde sua criação no primeiro bimestre de 2013 até o L38, foram pagos às usinas que tiveram lotes arrematados nos leilões de opções mais R$ 13,7 milhões em prêmios. “Sendo que elas entregaram, em média, 30% do volume contratado. O resto da opção virou pó”, salientou.
Pendente
Assim como muitos palestrantes, o gerente da Petrobras externou sua preocupação quanto à oferta restrita de biodiesel no último certame. O problema, do ponto de vista da Petrobras, é que o trabalho da estatal não se encerra com o final dos leilões regulares e com as entregas para as distribuidoras. “[Para a gente] é o mercado e mais o estoque regulador”, resumiu.
“Quando olho a oferta do leilão, olho também o estoque. Porque na hora em que só tiver volume para a distribuição [sem sobras para o leilão de opções], significa que vou ter que contratar biodiesel físico. E o primeiro reflexo disso será que a margem do biodiesel vai aumentar”, alertou.
De acordo com o gerente da estatal, o problema do L39 – para a Petrobras – não está definitivamente resolvido. “Ainda estou resolvendo o problema do estoque regulador”, disse em referência ao desafio de equacionar a demanda das distribuidoras pequenas, que não fizeram aquisições no último certame, mas estão procurando a Petrobras para comprar biodiesel.
Cátia Franco – BiodieselBR.com