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[BiodieselBR 2013] As incertezas da exportação de biodiesel

BiodieselBR2013 JoseBerges_121113O vice-presidente sênior da Evonik, José Berges, falou sobre o cenário internacional e as perspectivas da indústria de biodiesel.
BiodieselBR.com 8 min de leitura
O vice-presidente sênior da Evonik, José Berges, falou sobre o cenário internacional e as perspectivas da indústria de biodiesel.

BiodieselBR2013 JoseBerges_121113Embora abordasse temas já comentados por palestrantes que vieram antes, a fala de José Berges, vice-presidente sênior da Evonik, foi uma das mais interessantes da Conferência BiodieselBR deste ano. Tanto pela a convicção do palestrante quanto pela descontração e senso de humor.

A companhia que – no ano passado faturou €13.6 bilhões – tem se esforçado para ampliar sua presença na América do Sul. Tanto que dois dias antes do evento, inaugurou uma nova planta de catalisadores na Argentina.

O vice-presidente da Evonik iniciou sua fala pelo maior mercado de biodiesel – a Europa – onde, segundo ele, as coisas não tem andado assim tão bem. “Existe um nervosismo brutal. Pela primeira vez, o consumo de biodiesel está recuando”, constatou.

Ele mencionou que as grandes decisões da União Europeia que estão impactando diretamente no setor como a taxação das importações argentinas e indonésias de biodiesel. Berges estima que esses tributos passem a vigorar de forma definitiva a partir de 1º de dezembro. “Claramente, uma decisão muito política”, analisou.

Limitação
Segundo ele há muito mais por trás da decisão da UE do que as dúvidas sobre a lisura das práticas comerciais argentinas. Hoje é patente que países-membros do bloco europeu não vão atingir as metas estabelecidas pela diretriz para energias renováveis. Berges também vê nesse fato simples as raízes das crescentes críticas contra o uso de biocombustível de 1ª geração e sobre o conceito de mudança indireta no uso do solo (ILUC, na sigla em inglês).

A nova proposta da Europa para o uso de energias renováveis no setor de transporte estabelece um percentual de 6% para os biocombustíveis de 1ª geração – categoria na qual se enquadra o biodiesel. “Essa foi a proposta aprovada pelo Parlamento europeu, o que não significa grande coisa”, ressaltou. “Europa é complicada. Você tem o Parlamento Europeu, a Comissão Europeia e o Conselho”, brincou ressaltando que o caso está longe de estar encerrado.

De acordo com o palestrante por causa da eleição para o Parlamento europeu que deve acontecer entre março e abril do ano que vem, não deverá haver uma solução definitiva a respeito do assunto antes do primeiro semestre de 2014. Ele destacou o forte lobby dos produtores europeus de biodiesel, que acabou com as exportações do produto norte-americano para os países-membros – e deve por um ponto final também nas exportações argentinas e indonésias. “É a triste realidade, mas eu, como europeu, preciso falar”, lamentou o protecionismo.

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Garras de fora
A mudança nos ventos na Europa tem feito o Sudeste asiático despertar para a questão do biodiesel. “O pessoal lá se mexeu muito rápido”, constatou Berges em referência a adoção de maiores teores de biodiesel na mistura ao diesel por países como Indonésia, Tailândia e Malásia.

Tomando como exemplo a Indonésia, ele mostrou que outros fatores contribuíram para que o governo do país decidisse pela progressão da mistura. “Primeiro, eles queriam reduzir as importações combustíveis fósseis. Segundo, o óleo de palma despencou, e eles têm o maior interesse em estabilizar os preços. Terceiro, queriam manter a indústria de biodiesel. Então, introduziram o B10 de ontem para hoje”, contextualizou emendando com a informação de que a Pertamina, estatal petrolífera indonésia, entrou com licitação pública pedindo uma quantidade de 6 bilhões de litros de biodiesel para serem entregues nos próximos dois anos. “Eles souberam reagir”, avaliou.

Primeiro a esbarrar na muralha protecionista erguida pelos produtores europeus, os EUA também foram citados como exemplo por Berges. “Há alguns anos, quando se falava em aumentar o uso de biodiesel no país, havia uma preocupação enorme com disponibilização de matéria-prima (...) E apareceu uma alternativa ótima, que é o óleo de milho (...) dá para fazer um ótimo biodiesel”, afirmou. Salientou que os produtores brasileiros também precisam olhar para a questão da diversificação. Segundo o palestrante, o potencial norte-americano de produção para esse tipo de óleo deve facilitar “tremendamente” a discussão em torno da criação de novos marcos regulatórios no país.

Embora ainda não oficialmente divulgado, os EUA não devem fechar o ano registrando aumento de produção, que não deve passar de 1,2 bilhão de galões de biodiesel. “Há uma oposição muito forte da indústria petroquímica a esse biocombustível”, sinalizou. O lado bom, de acordo com Berges, é que a mistura de etanol está chegando a um limite que o consumidor está disposto a aceitar. “O E10 [gasolina com 10% de etanol] será o máximo. O biodiesel pode entrar para fechar esse gap que vai existir e ter produções além do que é mandatório”, vaticinou. 

Em contrapartida, o crédito fiscal (de US$ 1 por galão produzido), que expira no final do ano, não deve ser renovado, segundo ele. “Hoje, para entrar no mercado norte-americano, há duas portas de entrada: ou se usa esse crédito, que torna [o biodiesel] competitivo com o diesel, ou gerando RINs, créditos ambientais”, pontuou. “Entretanto, conseguir os RINs é um pesadelo administrativo. Foi uma política feita para manter os importadores fora do país. Conheço apenas uma companhia que conseguiu fornecer gerando RINs”, revelou referindo-se à notoriamente complexa legislação norte-americana para o setor de combustíveis renováveis.

Boa imagem
“Eu vou também fazer uma coisa bem anormal: vou falar bem do governo”, disse arrancando risos da plateia. “A gente acha que o Brasil tem tudo para continuar essa história de sucesso do biodiesel. Primeiro, porque tem a política mais consistente em relação a esse produto. Além disso, faz uma coisa que não existe em nenhum lugar do mundo: a política de biodiesel está arraigada num tripé, fazendo parte da política de energia, da agricultura e social”, observou.

Outro fator que, na visão do executivo da Evonik, contribuiu para uma trajetória bem-sucedida do biodiesel no país deve ao fato de a indústria ter se atentado a questões importantes para a sustentabilidade do negócio. “A indústria aqui foi muito mais inteligente ao levar a sério as preocupações do cliente com a qualidade”, disse, comparando-nos com os produtores europeus que, segundo ele, cultivaram um péssimo relacionamento com os clientes. “Tanto parte do governo como da indústria foi feito um ótimo trabalho. (...) Isso, para mim, é a base, de maneira que eu confio que o setor vai continuar crescendo”, afirmou.

Hermanos
A inconstância acerca do teor de mistura obrigatória foi o primeiro fator a ser comentado por Berges ao traçar o contexto do biodiesel na Argentina. “Estive na Argentina há poucos dias e alguém me questionou se eu sabia qual era a mistura. E eu perguntei ‘você está se referindo a sexta-feira, a hoje, ou a semana que vem?’”, disse com senso de humor. “Qualquer coisa entre B7 e B10 pode acontecer por parte do governo. Depende se chove, se faz calor, se o barco da Venezuela atrasou.” 

Ele fez a distinção entre o fato de existir no país uma obrigatoriedade em relação a um teor de mistura e efetivamente se conseguir cumpri-la. Segundo o palestrante, isso ocorre porque o produtor não quer fornecer biodiesel, pois está “possesso” com o governo. “Ele entregou o produto durante três meses e ainda não sabe o valor que vai receber. Isso cria uma situação pouco sustentável”, considerou. Na Argentina é o governo quem define os preços pagos pelo biodiesel no mercado interno e não tem sido muito ortodoxo no cumprimento dos prazos.

O vice-presidente da Evonik observou ainda que a “Argentina depende muito da Europa”, numa referência ao fato de o país ter centrado sua política de biodiesel no mercado externo. Entretanto, alegou ainda não estar certo de que as taxas impostas pela União Europeia vão reduzir as exportações argentinas de biodiesel. “Acredito que a Argentina vai entrar com uma ação na Organização Mundial do Comércio.”

Em casa
Berges acredita que o protecionismo europeu irá perdurar. “Os produtores [europeus] estão fazendo uma grande pressão”, admitiu. E disse que o Brasil pode extrair uma importante lição desse episódio envolvendo a UE e a Argentina. “Isso que acontece quando você tem uma indústria baseada na exportação”, salientou em referência aos altos riscos que um setor fica exposto.

Por isso, no seu entendimento, é mais sustentável para o Brasil aumentar a mistura que exportar. “Vocês vão se ‘bater’ lá fora com um mundo que não os quer”, alertou. Segundo o palestrante, existem chances para o Brasil no mercado externo, mas são limitadas por diversos fatores entre os quais o lobby dos produtores, tanto europeus quanto norte-americanos. Além disso, o cenário global não é muito interessante, já que produção de biodiesel, pela primeira vez na história, está recuando.

Outra questão a ser ponderada, de acordo com Berges, é a competitividade do Brasil em quesitos como logística, custo do metanol, política de incentivo fiscal à exportação e matéria-prima. “O custo do óleo de palma produzido pela Indonésia é imbatível”, afirmou destacando que este país e a Argentina também possuem custos logísticos bastante favoráveis.

“A história de sucesso mais sustentável é sempre baseada no cuidadoso desenvolvimento da mistura obrigatória local”, concluiu frisando as palavras “cuidadoso” e “desenvolvimento”. Para reforçar esse entendimento, encerrou a apresentação mostrando dois slides: um slide com dizeres “Exportar é bom”, tendo abaixo a imagem do jogador brasileiro Neymar vestido com o uniforme do Barcelona, seu atual time; e outro emendando com a frase “Mas a Copa se ganha em casa”, ilustrada com uma foto oficial da seleção brasileira.

Em tempo: torcedor do Barcelona, Berges diz ter “adorado” a exportação do craque brasileiro.

Cátia Franco – BiodieselBr.com
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