A Petrobras está abrindo uma nova frente de pesquisa na área de biocombustíveis. Em abril deste ano será inaugurada a primeira planta piloto da companhia para produção de álcool a partir do bagaço de cana, o chamado biotenol de lignocelulose. A estatal não pretende ingressar na produção do combustível. A idéia é desenvolver a tecnologia, ainda sem aplicação comercial no mundo, para promover parcerias com investidores da área sucroalcooleira. O projeto integra o programa de estudos da área de Gás, Energia e Desenvolvimento Sustentável, que receberá R$ 210 milhões de investimentos este ano — o total de recursos destinados às linhas de pesquisa da empresa em 2007 é de R$ 1,4 bilhão. A planta terá capacidade de processar 20 kg de bagaço de cana. Se os testes forem bem-sucedidos, uma nova planta, de maior capacidade, está prevista para 2009/2010. A fase seguinte será uma planta industrial, sem data de inauguração.
Atualmente, a companhia mais avançada nas pesquisas para produção de etanol a partir do bagaço de cana no mundo é a canadense Iogen, que detém uma planta protótipo — etapa anterior à planta industrial — com capacidade de 30 toneladas. O depósito do pedido de patente foi feito este ano no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi).
Ainda não foi definido qual será o modelo de parceria para o uso comercial da tecnologia. De acordo com o assistente da diretoria de Abastecimento da Petrobras, Francisco Pais, é possível que a estatal negocie a transferência de tecnologia aos parceiros, elevando a produção de álcool e, conseqüentemente, o mercado de exportação do combustível, segmento em que a companhia pretende expandir atividades. A empresa prevê exportar 3,5 milhões de metros cúbicos de álcool em 2011.
Ainda que resistente ao ingresso na produção de álcool, a Petrobras entende que o domínio sobre a tecnologia para produção de biocombustíveis a partir de resíduos será um diferencial competitivo no futuro. Daí a decisão de investir nessa linha de pesquisa. “A importância dos biocombustíveis é crescente, especialmente por questões ambientais. Mas a área para o plantio é limitada. Por isso, as empresas que dominarem a tecnologia de produção por meio de resíduos, como o bagaço de cana, sairão à frente”, avalia Ricardo Castello Branco, gerente-geral de Pesquisa e Desenvolvimento de Gás, Energia e Desenvolvimento Sustentável do Centro de Pesquisa (Cenpes) da Petrobras.
Outra vantagem apontada por Branco está na área socioambiental. Um dos argumentos contrários à obtenção de álcool da cana ou do milho é que a atividade compete com a produção de alimentos. “Se obtivermos o álcool com os resíduos, acabamos com esse problema”, diz.
Apesar das vantagens, a tecnologia tem algumas limitações. A primeira é o custo. Comparada ao método tradicional, a técnica é cerca de três vezes mais cara. À medida em que for aprimorada e popularizada, porém, esta barreira será vencida. Nos cálculos de Castello Branco, dificilmente o álcool do bagaço será mais barato que o álcool do caldo de cana, mas será possível torná-lo mais competitivo que a gasolina.
A tecnologia do bioetanol de lignocelulose segue a mesma lógica que a do álcool obtido do caldo da cana: ambas envolvem o processo de fermentação. Assim como o caldo, o bagaço também é fermentado. A diferença está no pré-tratamento do bagaço e no processo de sacarificação, que é a transformação da celulose em açúcar. O bagaço é colocado em um reator ao qual são adicionadas enzimas produzidas por microorganismos que funcionam como catalisadores biológicos. Essas enzimas quebram a celulose contida no bagaço, produzindo açúcar e, deste, se obtém o álcool. Segundo Branco, para cada tonelada de bagaço obtêm-se 200 litros de álcool. “Estamos aprimorando o processo e esperamos logo chegar a 250 litros por tonelada”, diz. A empresa canadense Iogen produz 340 litros de álcool a partir de uma tonelada de fibra.
Além do biotenol, o Cenpes avança nos estudos do H-Bio, diesel obtido do óleo vegetal. Diferentemente do biodiesel, em que a mistura do óleo e do petróleo ocorre depois de o petróleo ser refinado, o H-bio resulta da mistura dentro da refinaria. Por isso, tem todas as características do diesel tradicional. Nos testes já feitos, o óleo de soja demonstrou maior potencial. A Petrobras estima que já este ano sejam consumidos 256 mil metros cúbicos de óleo vegetal para produção de H-Bio, gerando um volume de diesel igual a 16% do total importado e economia de US$ 145 milhões. Em 2008, a companhia estima que a economia de divisas alcance US$ 240 milhões, com o aumento da produção nacional do combustível.
Danielle Nogueira
Atualmente, a companhia mais avançada nas pesquisas para produção de etanol a partir do bagaço de cana no mundo é a canadense Iogen, que detém uma planta protótipo — etapa anterior à planta industrial — com capacidade de 30 toneladas. O depósito do pedido de patente foi feito este ano no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi).
Ainda não foi definido qual será o modelo de parceria para o uso comercial da tecnologia. De acordo com o assistente da diretoria de Abastecimento da Petrobras, Francisco Pais, é possível que a estatal negocie a transferência de tecnologia aos parceiros, elevando a produção de álcool e, conseqüentemente, o mercado de exportação do combustível, segmento em que a companhia pretende expandir atividades. A empresa prevê exportar 3,5 milhões de metros cúbicos de álcool em 2011.
Ainda que resistente ao ingresso na produção de álcool, a Petrobras entende que o domínio sobre a tecnologia para produção de biocombustíveis a partir de resíduos será um diferencial competitivo no futuro. Daí a decisão de investir nessa linha de pesquisa. “A importância dos biocombustíveis é crescente, especialmente por questões ambientais. Mas a área para o plantio é limitada. Por isso, as empresas que dominarem a tecnologia de produção por meio de resíduos, como o bagaço de cana, sairão à frente”, avalia Ricardo Castello Branco, gerente-geral de Pesquisa e Desenvolvimento de Gás, Energia e Desenvolvimento Sustentável do Centro de Pesquisa (Cenpes) da Petrobras.
Outra vantagem apontada por Branco está na área socioambiental. Um dos argumentos contrários à obtenção de álcool da cana ou do milho é que a atividade compete com a produção de alimentos. “Se obtivermos o álcool com os resíduos, acabamos com esse problema”, diz.
Apesar das vantagens, a tecnologia tem algumas limitações. A primeira é o custo. Comparada ao método tradicional, a técnica é cerca de três vezes mais cara. À medida em que for aprimorada e popularizada, porém, esta barreira será vencida. Nos cálculos de Castello Branco, dificilmente o álcool do bagaço será mais barato que o álcool do caldo de cana, mas será possível torná-lo mais competitivo que a gasolina.
A tecnologia do bioetanol de lignocelulose segue a mesma lógica que a do álcool obtido do caldo da cana: ambas envolvem o processo de fermentação. Assim como o caldo, o bagaço também é fermentado. A diferença está no pré-tratamento do bagaço e no processo de sacarificação, que é a transformação da celulose em açúcar. O bagaço é colocado em um reator ao qual são adicionadas enzimas produzidas por microorganismos que funcionam como catalisadores biológicos. Essas enzimas quebram a celulose contida no bagaço, produzindo açúcar e, deste, se obtém o álcool. Segundo Branco, para cada tonelada de bagaço obtêm-se 200 litros de álcool. “Estamos aprimorando o processo e esperamos logo chegar a 250 litros por tonelada”, diz. A empresa canadense Iogen produz 340 litros de álcool a partir de uma tonelada de fibra.
Além do biotenol, o Cenpes avança nos estudos do H-Bio, diesel obtido do óleo vegetal. Diferentemente do biodiesel, em que a mistura do óleo e do petróleo ocorre depois de o petróleo ser refinado, o H-bio resulta da mistura dentro da refinaria. Por isso, tem todas as características do diesel tradicional. Nos testes já feitos, o óleo de soja demonstrou maior potencial. A Petrobras estima que já este ano sejam consumidos 256 mil metros cúbicos de óleo vegetal para produção de H-Bio, gerando um volume de diesel igual a 16% do total importado e economia de US$ 145 milhões. Em 2008, a companhia estima que a economia de divisas alcance US$ 240 milhões, com o aumento da produção nacional do combustível.
Danielle Nogueira