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Desafio é produzir mais alimentos e biocombustíveis

O país é apontado como um dos únicos com capacidade para crescer na produção de alimentos e de energia sem afetar o abastecimento nacional.
Valor Econômico 6 min de leitura
Principal rota de investimentos na área de agroenergia, o Brasil agora tem de provar que o avanço dos biocombustíveis em seu território não afetará, ou mesmo reduzirá, a expansão agrícola para a produção de alimentos.  O país é apontado como um dos únicos com capacidade para crescer na produção de alimentos e de energia sem afetar o abastecimento nacional.  E mais: um dos poucos com real capacidade para exportar biocombustíveis e grãos.

Estudo recém-concluído do Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial (Pensa), vinculado à Fundação Instituto de Administração (FIA/USP), mostra que há no mundo 1,862 bilhão de hectares de terras aráveis distribuídas em países como Brasil, EUA, Rússia, Índia, China, além da União Européia.  Deste total, 917,7 milhões não são aproveitados para produção agrícola.  Esse levantamento é baseado em dados da FAO, braço da ONU para alimentação e agricultura.

Nos 14 países de maior área agrícola no mundo, 49% das terras agricultáveis ainda estão disponíveis para plantio.  Segundo Marcos Fava Neto, coordenador do Pensa, o problema é que nas regiões onde os planos de expansão do plantio para atender ao setor de biocombustíveis são mais ousados não há área em amplitude suficiente.

Este não é o caso do Brasil.  Para os próximos cinco anos, o setor sucroalcooleiro investirá US$ 17 bilhões na construção de quase 80 usinas, de um total de cerca de 170 projetos.  Os aportes tendem a superar a marca dos US$ 20 bilhões no curto prazo por conta da crescente demanda no mercado internacional.  Grupos estrangeiros estão olhando o etanol como investimento e migram para o Brasil com planos ambiciosos.

A expectativa é de que até 2012, a produção de cana-de-açúcar salte dos atuais 470 milhões de toneladas, da safra 2007/08, para cerca de 700 milhões de toneladas.  A área plantada deverá atingir cerca de 10 milhões de hectares, segundo a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica).  A produção de álcool do Brasil poderá passar dos atuais 20 bilhões para 30 bilhões de litros no período.  As exportações brasileiras alcançariam algo em torno de 6 bilhões a 7 bilhões de litros em relação aos atuais 3,5 bilhões de litros.

No segmento de biodiesel, os investimentos em usinas estão estimados em torno de US$ 2 bilhões, sendo que os aportes de empresas estrangeiras no país superam US$ 300 milhões.  Segundo o Ministério de Minas e Energia, 19 usinas se encontram em operação no país, produzindo 664 milhões litros por ano.  Há outros 46 projetos em fase de construção ou de estudo, que totalizam uma capacidade produtiva 2,374 bilhões de litros.

No país, a mistura de 2% de biodiesel ao diesel se tornará obrigatória em 2008, gerando um consumo compulsório de 840 milhões de litros por ano.  O governo estuda antecipar o uso não obrigatório de misturas superiores a esse índice para ampliar o consumo de biodiesel e negocia com governos de outros países a regularização de normas técnicas para a exportação do produto.  O mercado é incipiente e deverá passar por ajustes que possibilitem o livre comércio entre usinas e distribuidoras - antes de 2008, o comércio só é feito por leilões promovidos pela Petrobras.

Já no setor sucroalcooleiro, houve muitos obstáculos até o que o álcool se consagrasse como combustível viável.  Criado em 1975, o etanol entrou em declínio nos anos 90 com problemas de desabastecimento.  A partir dos anos 2000, o cenário melhorou.  Quatro anos depois da consolidação das vendas dos carros flex-fuel, o setor trabalha para expandir os negócios, com investimentos em novas usinas e tenta provar que a produção do etanol não vai tirar espaço das outras culturas.

Com uma área plantada com cana de 6,5 milhões de hectares, os canaviais podem quintuplicar sem afetar outras culturas.  Hoje a área de soja é de 20 milhões de hectares.  As áreas de pastagens são quatro vezes maior.  Roberto Rodrigues, co-presidente da Comissão Internacional do Etanol (CIE), diz que o setor tem condições de avançar, sem tirar o espaço dos grãos, apenas ocupando áreas de pastagens.

Segundo Fava Neves, do Pensa, poucos países podem produzir grãos e cana suficientes para atender aos mercados de alimentos e de energia.  O Brasil é um deles, desde que planeje sua expansão.

Nos EUA, a meta é elevar o consumo de biocombustíveis, até 2012, dos atuais 4,7 bilhões de galões (17,8 bilhões de litros) para 35 bilhões, ou 132 bilhões de litros.  Segundo Marcos Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), os EUA precisarão ampliar a área plantada com milho em 145% (46,11 milhões de hectares adicionais) para garantir esse volume.  Segundo ele, o país tem restrições climáticas para essa ampliação.

Levantamento da RC Consultores indica que a demanda extra de etanol pelos principais países consumidores de combustíveis fósseis deve chegar a 44,3 bilhões de litros por ano em cinco anos - 7,4 bilhões de litros na UE, 4,5 bilhões na China e 30 bilhões nos EUA.  Hoje, o consumo global é de 55 bilhões de litros por ano.  Brasil e Estados Unidos produzem juntos cerca de 40 bilhões de litros.  Os planos da Comissão Internacional do Etanol (CIE) são de estimular a produção de álcool nas Américas, que seria de mais de 100 bilhões de litros nos próximos dez anos.

Na União Européia, a meta é adotar uma mistura de 5,75% de etanol na gasolina a partir de 2010, e o mesmo percentual para a mistura de biodiesel no diesel.  Em 2020, os índices serão elevados para 10%.  Para atender a essas demandas obrigatórias, o bloco terá que reservar, em 2010, 22,7% de sua área agricultável para produzir grãos destinados a biocombustíveis.  Em 2020, a área para agroenergia terá de ocupar 38,4% das lavouras européias para atender à demanda doméstica.  Atualmente, a UE cultiva 102,9 milhões de hectares e tem 16,3 milhões de hectares disponíveis, ou 15,8% da área total agricultável - suficiente para atender à primeira fase de expansão, mas não a segunda.

Mônica Scaramuzzo e Cibelle Bouças
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