Doutor em Ciências Físicas pela USP, da qual foi reitor, José
Goldemberg foi presidente da Companhia Energética de São Paulo e da
SBPC, secretário de Ciência e Tecnologia de São Paulo e do Meio
Ambiente da Presidência da República. Também foi professor da
Universidade de Paris, Universidade de Princeton e ocupante da ´Cátedra
Joaquim Nabuco´ da Universidade de Stanford. Membro da Academia
Internacional do Meio Ambiente em Genebra, é consultor do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnuma). Autor de trabalhos e
livros sobre Física Nuclear, Energia e Meio Ambiente, ele fala, nesta
entrevista, sobre o potencial energético brasileiro
O aquecimento global, agravado pela utilização de combustíveis fósseis, gerou grandes expectativas em relação ao Brasil, por seu potencial de produção de energias renováveis. Como o senhor avalia este cenário?
O Brasil é um paradigma mundial na produção de energia renovável, tanto por hidrelétricas quanto pela biomassa, principalmente devido ao etanol de cana. Uma parte considerável de nossa demanda energética é suprida por essas fontes. Exportamos o etanol e podemos exportar ainda mais. Mas o Brasil não será o celeiro energético do mundo. É preciso que outros países aumentem seus esforços para desenvolver as tecnologias de energia renovável para substituir a energia de origem fóssil e prevenir maiores mudanças no clima, devido ao efeito estufa.
Na sua opinião, não há um excesso de aspirações em relação à nossa biomassa, considerando os custos ambientais por área plantada, efeitos das monoculturas e a necessidade de produção de alimentos?
Todos esses requisitos são fundamentais para assegurar a sustentabilidade da biomassa energética. Felizmente a cana-de-açúcar é bastante intensiva energeticamente, requerendo relativamente pouca área para suprir muita energia. Em São Paulo se produzem quase dois terços da cana do País e esses critérios de sustentabilidade vêm sendo respeitados. As boas práticas estão sendo disseminadas, graças à pressão dos mercados consumidores, nacionais e internacionais. O biodiesel, que está em fase pré-comercial de larga escala, precisa seguir o mesmo caminho, não induzindo desmatamentos diretos ou indiretos e não reduzindo a disponibilidade de alimentos.
É comum a presença de estrangeiros, sobretudo alemães, em terras brasileiras estudando nossos potenciais renováveis. Por qual motivo o Brasil ainda não aproveita tanto quanto países como a Alemanha e o Japão os potenciais eólico, solar e das ondas?
O aproveitamento dessas fontes é bastante intensivo em tecnologia, requerendo vultosos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Nesse ponto é difícil competir com alemães e japoneses, que dispõem de muito capital e tradição industrial. Além disso, os potenciais energéticos renováveis nesses países de clima temperado é bem mais limitado, direcionando as pesquisas para as fontes disponíveis. O Brasil aproveita bem o potencial solar através da fotossíntese de biomassa.
Levando em conta não apenas a escassez, mas os impactos do consumo energético, em que se deve investir mais no Brasil? Na redução do consumo ou pesquisa de alternativas? Ou as duas coisas?
Deve-se investir em ambos. A redução do consumo traz ganhos de curto prazo e a pesquisa traz benefícios a longo prazo. Em ambos estamos bastante incipientes.
Quais são as pesquisas nacionais mais promissoras para o mercado energético do seu ponto de vista?
A hidrólise de celulose é bastante promissora. Permitirá o aproveitamento de outras formas de biomassa, como a lenha, resíduos vegetais e até lixo urbano para a produção de combustíveis líquidos.
Existe alguma fonte importante a ser explorada ainda não considerada como tal no Brasil?
Não, mas isto não significa que sejam todas prioritárias. Até agora o uso de biomassa especialmente etanol de cana é a fonte com maior desenvolvimento no Brasil.
Por outro lado, existe, na sua opinião, investimento significativo de esforços em produção de energia que não tem dado (ou não tem perspectiva de dar) retorno equivalente?
Em geral o retorno vem somente a longo prazo. Foi o que aconteceu com o álcool, é o que acontece com as hidrelétricas. Além disso, não podemos pensar apenas em fluxo de caixa, uma vez que o preço do petróleo e gás natural tem sido crescente e que os problemas ambientais como o efeito estufa e a poluição local estão sendo levados cada vez mais a sério.
Em seu último livro, ´A Vingança de Gaia´, o pesquisador James Lovelock surpreende muitos dos seus seguidores sugerindo a energia nuclear como saída menos nefasta para o Planeta. Qual é a sua posição a respeito?
Na minha opinião Lovelock se rendeu à energia nuclear acreditando que essa opção é segura e emite muito menos carbono para a atmosfera. A primeira assertiva não considera que a proliferação nuclear é um perigo real e que não se sabe ainda o que fazer com os resíduos radioativos dos quais já existem mais de 70 mil toneladas só nos Estados Unidos. A segunda é uma meia-verdade, pois há emissões de carbono no ciclo de preparação do combustível nuclear, descomissionamento de minas e reatores, gerenciamento dos resíduos no longo prazo. É uma conta que passamos às próximas gerações.
Como o senhor avalia o andamento do Programa Nuclear Brasileiro e a retomada da construção de Angra 3, considerando as contradições do próprio Governo, tendo em vista a posição contrária da ministra Marina Silva?
O término de Angra 3 envolve um problema econômico pois exige quase 2 bilhões de dólares. Existem investimentos mais atraentes e obras hidroelétricas mais prioritárias.
Que cenário o senhor desenharia para a relação produção / consumo / impactos da energia no próximo século?
As gerações que virão terão necessariamente padrões completamente diferentes dos nossos, queiram ou não, devido ao esgotamento das reservas de petróleo e gás. A consciência dos problemas ambientais vem crescendo em todas as classes sociais e, com ela, virá a cobrança. Precisamos pensar menos no curtíssimo prazo e deixar para eles melhores condições de sobreviver e prosperar de forma sustentável.
MARISTELA CRISPIM
Repórter
O aquecimento global, agravado pela utilização de combustíveis fósseis, gerou grandes expectativas em relação ao Brasil, por seu potencial de produção de energias renováveis. Como o senhor avalia este cenário?
O Brasil é um paradigma mundial na produção de energia renovável, tanto por hidrelétricas quanto pela biomassa, principalmente devido ao etanol de cana. Uma parte considerável de nossa demanda energética é suprida por essas fontes. Exportamos o etanol e podemos exportar ainda mais. Mas o Brasil não será o celeiro energético do mundo. É preciso que outros países aumentem seus esforços para desenvolver as tecnologias de energia renovável para substituir a energia de origem fóssil e prevenir maiores mudanças no clima, devido ao efeito estufa.
Na sua opinião, não há um excesso de aspirações em relação à nossa biomassa, considerando os custos ambientais por área plantada, efeitos das monoculturas e a necessidade de produção de alimentos?
Todos esses requisitos são fundamentais para assegurar a sustentabilidade da biomassa energética. Felizmente a cana-de-açúcar é bastante intensiva energeticamente, requerendo relativamente pouca área para suprir muita energia. Em São Paulo se produzem quase dois terços da cana do País e esses critérios de sustentabilidade vêm sendo respeitados. As boas práticas estão sendo disseminadas, graças à pressão dos mercados consumidores, nacionais e internacionais. O biodiesel, que está em fase pré-comercial de larga escala, precisa seguir o mesmo caminho, não induzindo desmatamentos diretos ou indiretos e não reduzindo a disponibilidade de alimentos.
É comum a presença de estrangeiros, sobretudo alemães, em terras brasileiras estudando nossos potenciais renováveis. Por qual motivo o Brasil ainda não aproveita tanto quanto países como a Alemanha e o Japão os potenciais eólico, solar e das ondas?
O aproveitamento dessas fontes é bastante intensivo em tecnologia, requerendo vultosos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Nesse ponto é difícil competir com alemães e japoneses, que dispõem de muito capital e tradição industrial. Além disso, os potenciais energéticos renováveis nesses países de clima temperado é bem mais limitado, direcionando as pesquisas para as fontes disponíveis. O Brasil aproveita bem o potencial solar através da fotossíntese de biomassa.
Levando em conta não apenas a escassez, mas os impactos do consumo energético, em que se deve investir mais no Brasil? Na redução do consumo ou pesquisa de alternativas? Ou as duas coisas?
Deve-se investir em ambos. A redução do consumo traz ganhos de curto prazo e a pesquisa traz benefícios a longo prazo. Em ambos estamos bastante incipientes.
Quais são as pesquisas nacionais mais promissoras para o mercado energético do seu ponto de vista?
A hidrólise de celulose é bastante promissora. Permitirá o aproveitamento de outras formas de biomassa, como a lenha, resíduos vegetais e até lixo urbano para a produção de combustíveis líquidos.
Existe alguma fonte importante a ser explorada ainda não considerada como tal no Brasil?
Não, mas isto não significa que sejam todas prioritárias. Até agora o uso de biomassa especialmente etanol de cana é a fonte com maior desenvolvimento no Brasil.
Por outro lado, existe, na sua opinião, investimento significativo de esforços em produção de energia que não tem dado (ou não tem perspectiva de dar) retorno equivalente?
Em geral o retorno vem somente a longo prazo. Foi o que aconteceu com o álcool, é o que acontece com as hidrelétricas. Além disso, não podemos pensar apenas em fluxo de caixa, uma vez que o preço do petróleo e gás natural tem sido crescente e que os problemas ambientais como o efeito estufa e a poluição local estão sendo levados cada vez mais a sério.
Em seu último livro, ´A Vingança de Gaia´, o pesquisador James Lovelock surpreende muitos dos seus seguidores sugerindo a energia nuclear como saída menos nefasta para o Planeta. Qual é a sua posição a respeito?
Na minha opinião Lovelock se rendeu à energia nuclear acreditando que essa opção é segura e emite muito menos carbono para a atmosfera. A primeira assertiva não considera que a proliferação nuclear é um perigo real e que não se sabe ainda o que fazer com os resíduos radioativos dos quais já existem mais de 70 mil toneladas só nos Estados Unidos. A segunda é uma meia-verdade, pois há emissões de carbono no ciclo de preparação do combustível nuclear, descomissionamento de minas e reatores, gerenciamento dos resíduos no longo prazo. É uma conta que passamos às próximas gerações.
Como o senhor avalia o andamento do Programa Nuclear Brasileiro e a retomada da construção de Angra 3, considerando as contradições do próprio Governo, tendo em vista a posição contrária da ministra Marina Silva?
O término de Angra 3 envolve um problema econômico pois exige quase 2 bilhões de dólares. Existem investimentos mais atraentes e obras hidroelétricas mais prioritárias.
Que cenário o senhor desenharia para a relação produção / consumo / impactos da energia no próximo século?
As gerações que virão terão necessariamente padrões completamente diferentes dos nossos, queiram ou não, devido ao esgotamento das reservas de petróleo e gás. A consciência dos problemas ambientais vem crescendo em todas as classes sociais e, com ela, virá a cobrança. Precisamos pensar menos no curtíssimo prazo e deixar para eles melhores condições de sobreviver e prosperar de forma sustentável.
MARISTELA CRISPIM
Repórter