Com a alta dos preços do petróleo, a França, grande importadora deste combustível, busca fontes de energia alternativas; para tanto, ela se inspira no exemplo do Brasil, mas existem obstáculos.
O ministro da economia, das finanças e da indústria, Thierry Breton, e o ministro da agricultura, Dominique Bussereau, instalaram na quarta-feira (7/6) em Paris um grupo de trabalho batizado de "Flex fuel 2010", que será presidido pelo ex-piloto de Fórmula 1 Alain Prost.
Este grupo de trabalho, que reúne agricultores, representantes do setor petroleiro, montadoras e representantes dos consumidores, terá por missão de preparar, dentro dos três próximos meses, um plano de desenvolvimento dos bioetanóis na França.
Em 15 de maio, o primeiro-ministro, Dominique de Villepin havia manifestado a vontade de que antes do final desta década "uma verdadeira liberdade de escolha" seja oferecida aos franceses em matéria de veículos que consomem energia com alto teor de biocombustíveis. Nesse sentido, ele queria que um calendário "ambicioso e realista" seja estabelecido antes deste verão.
Esta iniciativa do governo francês constitui uma resposta aos importantes aumentos dos preços dos produtos petroleiros dos quais o automóvel e o caminhão permanecem totalmente dependentes - eles utilizam, numa proporção de 98%, combustíveis fósseis. Ela se inspira no exemplo do Brasil, o primeiro produtor mundial de etanol, onde os três quartos dos veículos vendidos podem andar tanto com gasolina ou com etanol (álcool), alternadamente.
O governo francês segue também o exemplo dado pelo presidente americano que havia declarado, em 31 de janeiro, no seu discurso sobre o estado da União, que os Estados Unidos, que são o segundo produtor mundial de etanol, deveriam aumentar sua utilização, de maneira a não mais estarem "drogados" com o petróleo do Oriente Médio.
O que é chamado de biocombustíveis? Trata-se de combustíveis utilizáveis nos motores de explosão, mas provenientes da transformação de açúcares ou de óleos de origem vegetal. Dois tipos de combustível derivam destas duas fontes: os açúcares ou amidos (cana-de-açúcar, beterraba, trigo) transformados em álcool (etanol) são destinados aos motores a gasolina, enquanto os óleos (colza, girassol, palma) são adequados para os motores movidos a todo tipo de diesels (biodiesel).
Esses combustíveis conhecidos como "bio" não são nenhuma novidade: de 1920 a 1960, o etanol andou servindo de complemento para a gasolina comumente utilizada. As suas virtudes são numerosas. Eles são produzidos no território nacional e criam empregos na agricultura. A sua principal vantagem é de emitir menos gás de efeito estufa e, de maneira mais específica, menos partículas, componentes aromáticos e gás carbônico do que os combustíveis fósseis - 60% de CO2 a menos para o biodiesel, - 70% para o etanol.
Será que os objetivos do governo podem ser alcançados? A União Européia havia fixado, em 2003, objetivos indicativos de consumo de biocombustíveis: 2% do consumo total de combustíveis em 2005, e depois 5,75% em 2010 e 7% em 2015. O governo Villepin decidiu, em setembro de 2005, antecipar os 5,75% para 2008 e alcançar a meta de 7% já em 2010.
A produção de biocombustíveis não representará dificuldade alguma para o setor agrícola, que pode dedicar as superfícies necessárias para os vegetais que entram na sua composição, recorrendo principalmente aos pousios. Em contrapartida, a França está partindo praticamente do zero: o etanol e o biodiesel franceses representam menos de 2% do consumo total de combustíveis, enquanto as usinas de transformação ainda se encontram em fase de construção ou em projeto.
Os representantes do setor petroleiro, por sua vez, prefeririam apostar no desenvolvimento do setor do biodiesel, em razão de sua carência de capacidade de refino em matéria de óleo diesel. Até agora, eles se mostravam reticentes a aumentar as proporções de biocombustíveis na gasolina (5 %, 15%, 30% e, sobretudo, o famoso E85 que incorpora 85% de etanol) ou no óleo diesel.
Serão os biocombustíveis rentáveis? Exceto no Brasil, onde as subvenções desapareceram por completo, a resposta é não. Em todo lugar no mundo, os Estados são obrigados a suprimir na sua totalidade ou em parte os impostos sobre os combustíveis, a conceder créditos sobre os impostos para a compra de carros adaptados ou a ajudar a financiar usinas de transformação dos vegetais de modo a colocar o biocombustível ao alcance de todos os bolsos.
Em 2005, este "renúncia fiscal" custou 200 milhões de euros (R$ 575,62
milhões) ao orçamento do Estado francês. O balanço para os consumidores não é dos mais positivos: quando os automobilistas suecos pagam 0,80 centavo de euro (R$ 2,30) o litro de mistura E85, em vez de 1,30 euros (R$ 3,74) para a gasolina, ainda assim eles estão consumindo 30% a 40% de combustível a mais.
Contudo, a explosão dos preços do barril de petróleo bruto vem melhorando a competitividade das fontes de energia "verdes". Assim, está evolução é constatada no livro "Os Bio-combustíveis" (IFP Publications, editora Technip): "A 400 euros [R$ 1.151,23] a tonelada de óleo, o biodiesel torna-se competitivo com um óleo diesel produzido a partir de um petróleo bruto a US$ 60-65 [R$ 134,95 a R$ 146,20] o barril". Diante disso, os agricultores franceses que haviam se mostrado a priori favoráveis aos biocombustíveis descobrem que eles serão submetidos a uma lógica industrial e a flutuações de preços que os deixam preocupados.
O balanço ambiental dos biocombustíveis chega a ser benéfico? Eles emitem menos desses gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento do clima. Mas tudo depende da maneira com a qual eles foram produzidos, pois a sua fabricação consome, ela também, energias fósseis.
Além do mais, os adubos utilizados para otimizar o cultivo dos grãos ou das beterrabas podem liberar importantes quantidades de óxido de nitrogênio, o qual é trezentas vezes mais nocivo do que o gás carbônico.
As duas categorias de biocombustíveis as mais protetoras do meio-ambiente são a cana-de-açúcar, cujo caule pode ser queimado para a operação de destilação, e a linho-celulose (madeira, palha, erva), cujo desenvolvimento foi privilegiado pela administração Bush.
Europa: 491.040 toneladas de etanol e 1,9 milhão de toneladas de biodiesel teriam sido produzidas até o final de 2004 nos 25 países da União Européia. A fabricação de etanol está concentrada em 5 países (França, Espanha, Polônia, Alemanha, Suécia), e a de biodiesel em 3 países (França, Alemanha, Itália).
Estados Unidos: A produção de etanol era avaliada em 10,2 milhões de m3 em 2003, contra 6,21 milhões de m3 em 2001. As capacidades instaladas de produção de biodiesel aproximam-se de 200.000 toneladas por ano.
Brasil: Em 2005, 14 milhões de m3 de etanol teriam sido produzidos neste país. Em 2010, as previsões são de uma produção de cerca de 18,5 milhões de m3. Em contrapartida, a produção de biodiesel está apenas engatinhando.
Alain Faujas
O ministro da economia, das finanças e da indústria, Thierry Breton, e o ministro da agricultura, Dominique Bussereau, instalaram na quarta-feira (7/6) em Paris um grupo de trabalho batizado de "Flex fuel 2010", que será presidido pelo ex-piloto de Fórmula 1 Alain Prost.
Este grupo de trabalho, que reúne agricultores, representantes do setor petroleiro, montadoras e representantes dos consumidores, terá por missão de preparar, dentro dos três próximos meses, um plano de desenvolvimento dos bioetanóis na França.
Em 15 de maio, o primeiro-ministro, Dominique de Villepin havia manifestado a vontade de que antes do final desta década "uma verdadeira liberdade de escolha" seja oferecida aos franceses em matéria de veículos que consomem energia com alto teor de biocombustíveis. Nesse sentido, ele queria que um calendário "ambicioso e realista" seja estabelecido antes deste verão.
Esta iniciativa do governo francês constitui uma resposta aos importantes aumentos dos preços dos produtos petroleiros dos quais o automóvel e o caminhão permanecem totalmente dependentes - eles utilizam, numa proporção de 98%, combustíveis fósseis. Ela se inspira no exemplo do Brasil, o primeiro produtor mundial de etanol, onde os três quartos dos veículos vendidos podem andar tanto com gasolina ou com etanol (álcool), alternadamente.
O governo francês segue também o exemplo dado pelo presidente americano que havia declarado, em 31 de janeiro, no seu discurso sobre o estado da União, que os Estados Unidos, que são o segundo produtor mundial de etanol, deveriam aumentar sua utilização, de maneira a não mais estarem "drogados" com o petróleo do Oriente Médio.
O que é chamado de biocombustíveis? Trata-se de combustíveis utilizáveis nos motores de explosão, mas provenientes da transformação de açúcares ou de óleos de origem vegetal. Dois tipos de combustível derivam destas duas fontes: os açúcares ou amidos (cana-de-açúcar, beterraba, trigo) transformados em álcool (etanol) são destinados aos motores a gasolina, enquanto os óleos (colza, girassol, palma) são adequados para os motores movidos a todo tipo de diesels (biodiesel).
Esses combustíveis conhecidos como "bio" não são nenhuma novidade: de 1920 a 1960, o etanol andou servindo de complemento para a gasolina comumente utilizada. As suas virtudes são numerosas. Eles são produzidos no território nacional e criam empregos na agricultura. A sua principal vantagem é de emitir menos gás de efeito estufa e, de maneira mais específica, menos partículas, componentes aromáticos e gás carbônico do que os combustíveis fósseis - 60% de CO2 a menos para o biodiesel, - 70% para o etanol.
Será que os objetivos do governo podem ser alcançados? A União Européia havia fixado, em 2003, objetivos indicativos de consumo de biocombustíveis: 2% do consumo total de combustíveis em 2005, e depois 5,75% em 2010 e 7% em 2015. O governo Villepin decidiu, em setembro de 2005, antecipar os 5,75% para 2008 e alcançar a meta de 7% já em 2010.
A produção de biocombustíveis não representará dificuldade alguma para o setor agrícola, que pode dedicar as superfícies necessárias para os vegetais que entram na sua composição, recorrendo principalmente aos pousios. Em contrapartida, a França está partindo praticamente do zero: o etanol e o biodiesel franceses representam menos de 2% do consumo total de combustíveis, enquanto as usinas de transformação ainda se encontram em fase de construção ou em projeto.
Os representantes do setor petroleiro, por sua vez, prefeririam apostar no desenvolvimento do setor do biodiesel, em razão de sua carência de capacidade de refino em matéria de óleo diesel. Até agora, eles se mostravam reticentes a aumentar as proporções de biocombustíveis na gasolina (5 %, 15%, 30% e, sobretudo, o famoso E85 que incorpora 85% de etanol) ou no óleo diesel.
Serão os biocombustíveis rentáveis? Exceto no Brasil, onde as subvenções desapareceram por completo, a resposta é não. Em todo lugar no mundo, os Estados são obrigados a suprimir na sua totalidade ou em parte os impostos sobre os combustíveis, a conceder créditos sobre os impostos para a compra de carros adaptados ou a ajudar a financiar usinas de transformação dos vegetais de modo a colocar o biocombustível ao alcance de todos os bolsos.
Em 2005, este "renúncia fiscal" custou 200 milhões de euros (R$ 575,62
milhões) ao orçamento do Estado francês. O balanço para os consumidores não é dos mais positivos: quando os automobilistas suecos pagam 0,80 centavo de euro (R$ 2,30) o litro de mistura E85, em vez de 1,30 euros (R$ 3,74) para a gasolina, ainda assim eles estão consumindo 30% a 40% de combustível a mais.
Contudo, a explosão dos preços do barril de petróleo bruto vem melhorando a competitividade das fontes de energia "verdes". Assim, está evolução é constatada no livro "Os Bio-combustíveis" (IFP Publications, editora Technip): "A 400 euros [R$ 1.151,23] a tonelada de óleo, o biodiesel torna-se competitivo com um óleo diesel produzido a partir de um petróleo bruto a US$ 60-65 [R$ 134,95 a R$ 146,20] o barril". Diante disso, os agricultores franceses que haviam se mostrado a priori favoráveis aos biocombustíveis descobrem que eles serão submetidos a uma lógica industrial e a flutuações de preços que os deixam preocupados.
O balanço ambiental dos biocombustíveis chega a ser benéfico? Eles emitem menos desses gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento do clima. Mas tudo depende da maneira com a qual eles foram produzidos, pois a sua fabricação consome, ela também, energias fósseis.
Além do mais, os adubos utilizados para otimizar o cultivo dos grãos ou das beterrabas podem liberar importantes quantidades de óxido de nitrogênio, o qual é trezentas vezes mais nocivo do que o gás carbônico.
As duas categorias de biocombustíveis as mais protetoras do meio-ambiente são a cana-de-açúcar, cujo caule pode ser queimado para a operação de destilação, e a linho-celulose (madeira, palha, erva), cujo desenvolvimento foi privilegiado pela administração Bush.
Números
Mundo: A produção mundial de etanol teria sido de 425 milhões de hectolitros em 2005, contra 380 milhões de hectolitros em 2003.Europa: 491.040 toneladas de etanol e 1,9 milhão de toneladas de biodiesel teriam sido produzidas até o final de 2004 nos 25 países da União Européia. A fabricação de etanol está concentrada em 5 países (França, Espanha, Polônia, Alemanha, Suécia), e a de biodiesel em 3 países (França, Alemanha, Itália).
Estados Unidos: A produção de etanol era avaliada em 10,2 milhões de m3 em 2003, contra 6,21 milhões de m3 em 2001. As capacidades instaladas de produção de biodiesel aproximam-se de 200.000 toneladas por ano.
Brasil: Em 2005, 14 milhões de m3 de etanol teriam sido produzidos neste país. Em 2010, as previsões são de uma produção de cerca de 18,5 milhões de m3. Em contrapartida, a produção de biodiesel está apenas engatinhando.
Alain Faujas