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O sonho de mover o mundo com algas marinhas


Valor Econômico - 07 jun 2011 - 06:11 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:16

O empresário argentino Jorge Kaloustian faz o estereótipo do cientista maluco: fala pelos cotovelos, tem uma pequena mostra de suas descobertas na mesa de trabalho e alimenta projetos grandiosos. A atual obsessão dele, após dez anos de pesquisas, é viabilizar um investimento de US$ 60 milhões para produzir 200 mil toneladas por ano de biodiesel à base de algas marinhas. Kaloustian está à procura de sócios. “Tenho não menos de dez ofertas interessantes”, jura.

Sua empresa, a Oil Fox, emprega um batalhão de biólogos e engenheiros. Ela tem uma planta industrial em San Nicolás, na Província de Buenos Aires, inaugurada em agosto de 2010 e que já tem essa capacidade instalada — mas, por enquanto, apenas 5% do total de biodiesel é feito com algas. O restante vem da soja e o custo de elaboração alcança US$ 1.050 por tonelada.

Com as algas marinhas, o empresário argentino garante ser possível produzir o mesmo volume por US$ 200, o que deixaria margens de lucro insuperáveis. Ele já investiu US$ 10 milhões, em capital próprio, para construir 60 piscinas artificiais onde as algas são cultivadas e na estrutura de apoio à produção do biocombustível. Sua meta é chegar a 500 piscinas até o fim do ano.

“Em 50 hectares de reservatórios com algas, vamos produzir o mesmo volume de biodiesel que poderíamos ter com 200 mil hectares de soja”, entusiasma-se Kaloustian, munido de comparações, na sede da Oil Fox, no centro de Buenos Aires. “O problema não é a viabilidade técnica, mas os custos”, diz o empresário.

Para crescerem, as algas precisam de três insumos: muito dióxido de carbono (gastam-se US$ 4,8 mil por tonelada de alga), luz abundante de dia e de noite (são necessários 9 megawatts médios para abastecer o projeto da Oil Fox em San Nicolás) e nutrientes caros. Kaloustian diz ter resolvido esses três problemas: fez acordo com uma central térmica movida a carvão para capturar CO2 gratuitamente, por meio de um duto com cinco quilômetros de extensão, em troca dos créditos de carbono; instalou uma miniusina a biogás, que usa dejetos de animais como fonte, para garantir energia elétrica própria; e ainda aproveita o processo de biodigestão da usina para obter os fertilizantes usados na alimentação das algas.

Cada piscina artificial, com capacidade para 500 mil litros de água, é coberta por um plástico especial, com cristais microscópicos que refratam a luz e estimulam o crescimento das algas. São 500 quilos por dia de rendimento e o ciclo biológico delas se renova integralmente a cada 24 horas. “Posso dizer que tenho 365 colheitas por ano”, diz ele.

Há pouco mais de dez anos, Kaloustian desistiu de outras fontes alternativas, como côco e pinhão manso. Primeiro, concentrou-se no uso das algas marinhas para elaborar suplementos alimentares ricos em proteínas. Até hoje os suplementos de sua marca são vendidos nas farmácias argentinas, mas agora ele sonha mesmo em mover o mundo com o biodiesel das algas.

Nos últimos meses, Kaloustian viajou por lugares como a China, a Califórnia e o Ceará — todos reúnem as condições adequadas para a produção em larga escala. Parece coisa de cientista doido, mas é bom levá-lo a sério, nem que seja por via das dúvidas: a Exxon Mobil já anunciou um investimento de US$ 600 milhões, em cinco anos, no desenvolvimento de biocombustível à base das mesmas algas.