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Discussão sobre biorrefinarias reúne instituições e pesquisadores


Embrapa Agroenergia - 03 out 2011 - 15:22 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:17

O conceito ainda em evolução, o estado da arte e a visão de futuro para o desenvolvimento de biorrefinarias estiveram em discussão durante dois dias em um dos primeiros eventos voltado para o tema, o I Simpósio Nacional de Biorrefinarias: cenários e perspectivas (I SNBr), que aconteceu em 29 e 30 de setembro, em Brasília (DF). O evento foi uma realização da Embrapa Agroenergia, com apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), da Associação Brasileira de Química (ABQ) e da Sociedade Ibero-Americana para o Desenvolvimento das Biorrefinarias (SIADEB) e patrocínio das empresas Braskem, Pentagro, Sinc do Brasil e Thermo – Nova Analítica. Os objetivos do evento foram fazer um diagnóstico do contexto atual, no Brasil e no mundo, das biorrefinarias e avaliar as rotas tecnológicas e os produtos mais promissores para a viabilização desse tipo de instalação industrial.

Tema de relevante interesse mundial, no que diz respeito à criação de uma matriz energética renovável e sustentável, as possibilidades de viabilizar da melhor forma as biorrefinarias é um ponto crucial nessa discussão. “Queremos contribuir e construir juntos uma agenda sólida, junto com as instituições de pesquisa e a iniciativa privada, com foco em soluções”, destacou o chefe geral da Embrapa Agroenergia, Manoel Teixeira Souza Jr., que abriu o evento. Além de pesquisa e inovação, para a viabilidade dessa realidade no país, o apoio governamental também é peça-chave. Sobre isso, o subchefe adjunto da Secretaria de Acompanhamento de Ações Governamentais da Casa Civil da Presidência da República e coordenador da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel, Rodrigo Rodrigues, falou da prioridade, na política energética do governo federal, para ampliação das fontes renováveis de energia, embora, segundo ele, a matriz do país hoje seja 45% renovável.

Já com plataformas de biocombustíveis de primeira geração, com destaque para o etanol de cana-de-açúcar, o Brasil manifesta seu interesse em investir agora em biocombustíveis de segunda geração, como o etanol de lignocelulósicos, assim como já investem hoje também Estados Unidos e diversos países da Europa. O questionamento levantado pelo palestrante Francisco Gírio, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia e presidente da Sociedade Ibero-Americana para o Desenvolvimento das Biorrefinarias, foi justamente sobre como fazer essa transição, de primeira para segunda geração. Gírio, que apresentou o cenário das biorrefinarias na Europa, disse que a União Européia segue um plano para, até 2020, investir 9 bilhões de euros no funcionamento de unidades demonstrativas de segunda geração. A meta da Europa é duplicar o índice atual de 5% de consumo de biocombustíveis, para 10%, entre 2015 e 2020.



Nos Estados Unidos, o investimento nos sistemas de biorrefinarias valoriza a integração de toda a cadeia produtiva, da matéria-prima no campo aos produtos finais que chegam ao consumidor, foi de 1 bilhão de dólares até 2010. A meta do país é colocar as biorrefinarias de segunda geração em funcionamento até 2012. Os dados e o cenário dos EUA foram expostos na palestra da pesquisadora Helena Chum, do National Renewable Energy Laboratory (NREL). Para a pesquisadora, “a maioria dos fracassos nas biorrefinarias vem da falta de integração das cadeias produtivas e de seus membros”, daí a importância do investimento e da eficiente integração entre os elos dessa cadeia.

Alternativas que podem gerar bons resultados na construção de soluções viáveis para as biorrefinarias também foram apontadas ao se analisar o estado da arte do tema no Brasil. Para o gerente de suporte técnico da Petrobrás Biocombustíveis, André Bello, começar por plataformas já consolidadas, como é o caso das usinas de cana-de-açúcar, é o caminho mais seguro para as biorrefinarias. Além disso, segundo o palestrante, é preciso considerar alguns fatores para um investimento desses, como a economia de escala, a economia de escopo, diversificação e diferenciação da produção e complexidade da iniciativa.

Outro ponto que vem somar para o desenvolvimento e o futuro das biorrefinarias é a chamada “química verde”, conceito que vem ganhando força em todo o mundo, a partir da adoção e geração de produtos químicos que causam menores impactos ao meio ambiente, emitem menos CO2 e são menos tóxicos. “Hoje já é possível praticar uma química verde que agrega valor aos nossos produtos com preços competitivos”, disse Ronaldo do Nascimento, gerente de P&D da Rhodia Poliamidas e Especialidades, acrescentando que há mercado para os produtos da química verde, pois “o cliente está disposto a pagar por esses produtos”, ressaltou.

Além de Nascimento, o tema da química verde foi abordado também nas palestras do especialista polonês Rafal Bogel-Tukasik, sobre a importância da química verde para as biorrefinarias, e na apresentação de James Clark, professor do departamento de Química da University of York e vencedor do Enviroment Prize 2011 da Royal Society of Chemistry (RSC), sobre produtos químicos verdes com potencial econômico.

Outro tema discutido no evento foi o aproveitamento máximo do potencial das usinas de cana-de-açúcar, uma das rotas tecnológicas para biorrefinarias. Segundo Paulo Coutinho, gerente de P&D da Braskem, a complexidade da cadeia produtiva deve ser levada em consideração no processo produtivo. O palestrante também chamou a atenção que definir tecnologias e produtos “vencedores”, ainda não é possível. “Há que ter como ponto de vista o mercado, valores agregados, as diferentes composições envolvidas na sinergia e na logística, para se ter noção das perspectivas de futuro. Sabe-se que competência nas mais diversas rotas tecnológicas é necessária e que os biocombustíveis trazem mais segurança energética e desenvolvimento rural, mas são apenas um pedaço da solução para mitigar as conseqüências do efeito estufa”.

Seguindo essa discussão, o gerente de tecnologia da British Petroleum (BP) Brasil, Wesley Ambrósio, disse acreditar que há moléculas campeãs, como o etanol celulósico, porque existe mercado. “As tecnologias podem ser integradas às usinas de cana-de-açúcar para produzir biodiesel e outros produtos a partir do açúcar. O primeiro desafio para isso é melhorar o rendimento da cadeia produtiva para ter maior rentabilidade e melhorar a conversão do açúcar. Há ainda o desafio da escala logística e talvez o maior deles, o gargalo mais importante, que é a existência de pessoas qualificadas para desenvolver e operacionalizar os resultados da ciência”.

Trazendo um pouco da experiência do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) no desenvolvimento de biorrefinarias, o gerente de P&D do CTC, Jaime Fingueruti, afirmou que a usina de cana, é a base para que outras sejam estabelecidas. “Há uma série de tendências nas quais temos de nos encaixar e a biorrefinaria deve ser o fruto dessas tendências. A população mundial vai se estabilizar em cerca de 9 a 10 bilhões de pessoas em 2100, demandando aumento de cinco a seis vezes na atual produção de commodities e de três vezes e meio na produção de energia. Sabemos que o Brasil cada vez mais é eficiente na produção de energia e que tem água e terra e muitas possibilidades tecnológicas, inclusive sustentáveis, mas não basta apenas nós fazermos a nossa parte. O impacto no jeito de produzir é global e todos os países devem fazer seu dever de casa. A biomassa que melhor se encaixa na ecologia mundial é a de cana-de-açúcar e novas tecnologias devem ser desenvolvidas para aumentar sua sustentabilidade”.

Na visão do diretor da Vinema Biorrefinarias do Sul, Vilson Machado, que falou sobre a utilização de grãos como matéria-prima de biorrefinarias, como arroz, trigo, sorgo, milho, aveia e cevada, o arroz é o produto mais viável neste momento para produzir etanol na região Sul do Brasil. “Essa produção não  abalará a cadeia de produção de alimentos”, ressaltou Machado.

Em termos de recursos para pesquisa e inovação,  gerente do Departamento de Indústrias Químicas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) salientou que o BNDES em conjunto com a FINEP, lançaram o Plano de Apoio à Inovação dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (PAISS), que está em andamento e que contemplará empresas e instituições de pesquisa com cerca de R$ 1 bilhão para aplicação em bioetanol de 2ª geração, novos produtos de cana-de-açúcar e tecnologias, equipamentos, processos e catalisadores para gaseificação de cana-de-açúcar e seus resíduos.

Para trazer a visão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Coordenador-geral de Tecnologias Setoriais, Adriano Duarte Filho, falou sobre diversos processos e soluções em fase de implementação, como a Rede de Bioetanol, a Plataforma de Desenvolvimento em Gaseificação e estratégias de parcerias público-privadas. Para ele, há desafios a ser enfrentados como: aumento de produção e produtividade de biomassa, mitigação de problemas ambientais, diversificação de novos produtos e mercados, sustentabilidade, economia de mercado, definição de linhas de pesquisa e incentivos em parcerias público-privadas, competitividade, visibilidade, oportunidades de inovação tecnológica, etc. “Há oportunidades que envolvem tecnologia para redução de perdas na produção e também para desenvolvimento de novas soluções a médio e longo prazos”, completou.

Alfred Szwarc, coordenador de emissões e tecnologias da ÚNICA, falou sobre a visão de futuro da indústria de cana-de-açúcar. Ele acredita que a empresa do setor sucroenergético, para melhor comparar e selecionar rotas tecnológicas e avaliar riscos e investimentos deve levar em consideração seu perfil para definir as melhores opções. “Há várias oportunidades para futuro. É necessário ver até onde é possível chegar, ampliando a gama de produtos. O futuro indica amplas oportunidades que passam pela busca de novos caminhos, com sabedoria. Para isso, há que se ter acompanhamento permanente, análise crítica da evolução tecnológica, desenvolvimento de ferramentas e informações para tomada de decisão e políticas públicas para incentivar a adoção de tecnologias avançadas”.

Avaliando o evento, Szwarc disse ser uma iniciativa estruturada e organizada para discutir as biorrefinarias, algo que está mudando o panorama industrial de diversas empresas. “Hoje temos como entender melhor o conceito de biorrefinarias, que, no passado, foi desenvolvido na prática. A integração de produtos verdes com combustíveis renováveis é uma simbiose que vem atender uma expectativa de conhecer e para onde estamos rumando. As perspectivas são muito promissoras”.

Sílvio Vaz, coordenador do I Simpósio Nacional de Biorrefinarias, estima que o evento possibilitou um passo adiante na discussão do assunto, tendo mostrado opiniões convergentes de diferentes setores da indústria e do governo e apontado demandas claras de pesquisa e desenvolvimento a ser trabalhadas pela Embrapa e outras instituições. “Foi muito importante promover a visão de conjunto das várias vertentes envolvidas no tema, assim como é de máxima importância ter essa visão integrada para analisa-lo e propor novas soluções para as biorrefinarias no Brasil”, concluiu.   

Flávia Raquel Bessa Ferreira e Cristiane Vasconcelos de Mesquita