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[Opinião] Crise em Moscou pressiona mercado global de diesel


CNN Brasil - 25 ago 2026 - 09:35

As filas nos postos de Moscou expõem uma contradição do mercado de energia: produzir petróleo não significa necessariamente ter combustível. A escassez na capital russa aparece sobretudo na gasolina, mas sua consequência internacional mais importante está no diesel.

O problema está menos nos poços do que nas refinarias. Ataques ucranianos, paralisações operacionais e maior demanda reduziram a capacidade russa de transformar petróleo em derivados. Moscou respondeu restringindo exportações e preservando combustível para o mercado interno.

Dados da Kpler citados pela Reuters mostram a dimensão do problema. A Rússia, segundo maior exportador mundial de diesel depois dos Estados Unidos, embarcou em média 817 mil barris por dia de diesel e gasóleo em 2025. O volume caiu para cerca de 400 mil em junho e 234 mil nos dez primeiros dias de julho.

O governo prorrogou restrições às exportações até 31 de janeiro de 2027, embora produtores diretos possam voltar a exportar diesel, combustível marítimo e gasóleos a partir de setembro. Mais do que um bloqueio integral, o mercado enfrenta incerteza sobre quanto produto russo estará disponível.

A Europa sente os efeitos mesmo sem importar diretamente derivados russos por via marítima desde 2023. Quando Brasil, Turquia e outros compradores recebem menos diesel da Rússia, precisam disputar cargas dos Estados Unidos, Índia e outros centros de refino que também abastecem os europeus.

Essa competição ocorre em um mercado já pressionado pelo Oriente Médio e por problemas em refinarias. Em 30 de julho, segundo a Reuters, o prêmio do gasóleo europeu de baixo teor de enxofre sobre o petróleo atingiu o recorde de US$ 74,66 por barril.

A Reuters estimou também que os preços europeus do diesel acumulavam alta superior a 70% desde fevereiro. A Rússia não explica sozinha essa valorização, mas funciona como multiplicador: cada barril que deixa de ser exportado aumenta a disputa pelas demais cargas disponíveis.

Para o Brasil, a relação é ainda mais direta. O país depende de importações para complementar sua oferta e encontrou na Rússia, após 2022, um fornecedor particularmente competitivo.

Dados anuais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, em 2025, o Brasil importou 17,09 bilhões de litros de diesel. Desse total, 8,04 bilhões vieram da Rússia, aproximadamente 47% das compras externas.

O diferencial russo estava também no preço. Quando essas cargas perdem disponibilidade, importadores brasileiros precisam recorrer mais aos Estados Unidos e à Ásia, justamente quando compradores europeus fazem o mesmo movimento.

Em 10 de agosto, segundo a Reuters, o futuro americano do diesel com ultrabaixo teor de enxofre avançou 7,4%, para US$ 4,19 por galão. Na mesma sessão, as margens europeias de refino subiram quase 10%.

O Brasil dispõe de algum amortecimento. A Petrobras reduziu em 85,2% suas importações de diesel no segundo trimestre e produziu recorde de 3,903 bilhões de litros em julho. Isso diminui a exposição imediata ao mercado externo.

Mas não elimina o risco. O país ainda depende de importações para equilibrar oferta e consumo. Câmbio, tributos, biodiesel e política comercial da Petrobras podem reduzir ou retardar o repasse, mas não isolam o mercado brasileiro.

As filas em Moscou são apenas a parte visível do problema. A Rússia continua tendo petróleo, mas perdeu parte da capacidade de transformá-lo em combustível. Quando um dos principais exportadores mundiais retém diesel, a oferta global diminui e outros países passam a disputar cargas mais caras. Europa e Brasil já sentem essa pressão.

* Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em clima e meio ambiente


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