Univaldo Vedana

Sustentabilidade da matéria-prima do biodiesel


Univaldo Vedana - 02 jul 2008 - 13:51 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:06

Sustentabilidade econômica, social e ambiental. Esses três pilares de sustentação da matéria-prima usada para fazer biodiesel obrigatoriamente deverão andar juntos.

Embora o capitalismo possa esmagar o social e o ambiental visando apenas o lucro, as pressões vindas de todos os cantos apontam para a necessidade de se produzir biocombustível com cunho social e todo o respeito ao meio ambiente. Os países desenvolvidos e prováveis compradores de nossos biocombustíveis estão acenando com novas legislações e enquadramentos sociais e ambientais.

É sabido por todos que boa parte dessas novas leis são muito mais barreiras comerciais para proteger seu mercado interno e seus produtos sem competitividade, do que a preocupação social ou ambiental.

Vejamos a importância de cada um deles:
Econômica – O lucro é o fermento que faz a atividade crescer e se sustentar. A organização das cadeias produtivas não está apenas no campo. Plantar e colher com uma produtividade razoável é um bom começo, mas há a necessidade de organização de todos os segmentos que envolvem o pré-plantio que vão além das sementes, como os insumos, os defensivos, as máquinas, ou seja, toda uma rede de serviços permanente inclusive com técnicos agrícolas ou agrônomos. E há também o pós-colheita, onde toda a logística de transporte, armazenagem e extração de óleo deve estar muito bem organizada, de preferência sem intermediários.

Apenas distribuir gratuitamente sementes de girassol, como alguns vêm fazendo, é um bom começo, apesar não ser a matéria-prima mais viável economicamente. Em uma região onde esta cultura não faz parte da tradição dos agricultores familiares o risco da produção cessar quando não for mais entregue sementes gratuitamente é grande. 

Social – Proporcionar aumento de renda ou mais empregos tanto no campo como nas cidades é o objetivo a ser perseguido. Na agricultura familiar deve ser dada prioridade para as plantas perenes com alto teor de óleo, como as palmeiras e o pinhão-manso. Essas plantas em sua maioria aceitam consórcios com culturas alimentícias e produzem mais óleos por hectare. Além disso, podem ser plantadas em áreas onde a agricultura mecanizada é impraticável.

Outro ponto que deve ser dado especial atenção, e que por diversas vezes alertei, é a criação de incentivos para que as cidades recolham o óleo de cozinha usado e o transformem em biodiesel. Esse processo, além de evitar que o óleo de cozinha contamine o solo e a água, promove um aumento de renda para os catadores de recicláveis.

Ambiental – A preservação de ecossistemas, da flora e da fauna deve ser o ponto de partida para qualquer projeto de produção agroenergética. E preservar o que ainda existe talvez não seja o bastante. Em muitas regiões há a necessidade de se recuperar áreas que o mau uso e a falta de conhecimento provocaram degradações, mas que felizmente ainda podem ser recuperadas com a utilização de técnicas e manejos apropriados. Plantas da região, nativas e perenes devem ser pesquisadas com prioridade para a produção de óleos.

Um projeto de produção de matéria-prima que se preocupar com esses três aspectos, dificilmente terá problemas.

Univaldo Vedana é analista do setor de biodiesel.