Paulo Anselmo Ziani Suarez

Biodiesel no Brasil: Produção Científica e Geração de Tecnologia


Paulo Suarez - 29 mar 2007 - 20:18 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Resolvi retomar a discussão sobre Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) na área de biodiesel no Brasil após obter resultados inquietantes numa pesquisa na base de dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Por reconhecer que CT&I são essenciais para as suas economias, as principais nações desenvolvidas investem em pesquisa importantes parcelas do seu PIB, tanto recursos públicos quanto privados, e diversos países emergentes, como China e Coréia, vêm seguindo com sucesso esta receita. No Brasil, há algumas décadas o governo tenta fortalecer a CT&I com a criação de agências de fomento e aportes de montantes crescentes de recursos, podendo-se perceber uma evolução significativa na ciência brasileira nos últimos anos. Segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), a quantidade de trabalhos científicos publicados por pesquisadores brasileiros deu um salto de 1.891 em 1981 para 13.328 em 2004, ou de 0,44% para 1,8% da produção mundial (veja o site http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/2042.html). No entanto, pesquisa que realizei no U.S. Patent and Trademark Office (USPTO, http://www.uspto.gov/patft/index.html) mostrou que o numero de patentes concedidas pelo órgão para autores brasileiros cresceu apenas de 24 em 1981 para 67 em 2004, ou de 0,03% para 0,08% do total. Essa modesta produção tecnológica se deve a baixa interação entre as universidades e o setor industrial. O fato de ser o governo o principal agente de financiamento à pesquisa, com uma ausência quase total do setor produtivo, parece ter desenvolvido a nossa ciência dissociada dos gargalos tecnológicos nacionais.

Como já salientei nesta coluna, o governo, via MCT, tem aportado importantes recursos para a pesquisa dentro da Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel, que engloba pesquisadores de universidades, Embrapa e do setor produtivo. No entanto, apesar desse esforço governamental, esta realidade da ciência brasileira parece estar se repetindo na área do biodiesel. Numa pesquisa na base científica SCOPUS (www.scopus.com) com a palavra-chave “Biodiesel” encontrei 1796 artigos científicos e 675 patentes internacionais. Refinando esta pesquisa com o país dos autores, descobri que a nossa relação de artigo publicado/patente depositada foi de 36/6, enquanto que a dos Estados Unidos foi de 299/267, a da Franca 21/22, a da Alemanha 69/148 e a da Itália 34/22.  A nossa produção de artigos comparada aos demais países, exceto Estados Unidos, é bastante similar, mostrando que nossos pesquisadores são competitivos em relação aos seus pares do primeiro mundo. No entanto, o baixo número de patentes evidencia a nossa dificuldade em traduzir ciência em tecnologia. Mais preocupante ainda foi a pesquisa que realizei no INPI, com a palavra-chave “biodiesel”, quando constatei que dos 26 registros de patente, apenas 12 eram de pesquisadores brasileiros.

Parece que não estamos usando a nossa capacidade de produzir conhecimento científico para desenvolver tecnologia, o que é extremamente preocupante, pois poderemos, mais uma vez, ficar dependentes tecnologicamente. Lembrando que os principais fornecedores nacionais de plantas de biodiesel usam processos licenciados da Europa e Estados Unidos, cheguei à conclusão que essa dependência pode já estar se concretizando. Felizmente existem exemplos louváveis onde o investimento do setor produtivo em grupos de pesquisa teve como resultado o desenvolvimento de uma tecnologia nacional adequada para a empresa. Para ilustrar, gostaria de citar a parceria entre a Agropalma e o grupo do Prof. Donato Aranda da UFRJ, que resultou no desenvolvimento de um processo inovador para produzir biodiesel a partir de matéria-prima de baixo valor agregado. Essa tecnologia, patenteada no Brasil e no mundo, ilustra bem como a interação entre o setor produtivo e a universidade pode gerar soluções tecnológicas criativas para o nosso desenvolvimento industrial.

Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro químico, colunista BiodieselBR.com, com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos. Saiba mais sobre o autor.

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