Luiz Pereira Ramos

Painel sobre as Rotas Tecnológicas Para a Produção de Biocombustíveis


Luiz Pereira Ramos - 18 abr 2007 - 20:15 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Durante o evento de Agroenergia da Embrapa, realizado sob a competente coordenação do Dr. Décio Gazzoni na cidade de Londrina em dezembro próximo passado, tivemos a honra de coordenar uma seção técnica cujo tema era “Rotas Tecnológicas para a Produção de Biocombustíveis”. Ao organizar este painel, nossa intenção foi a de fornecer uma leitura sobre o estado da arte destas atividades de pesquisa e desenvolvimento no Brasil e, para isto, convidamos cinco palestrantes cujas contribuições encontram-se comentadas abaixo. Vale ressaltar que as rotas tecnológicas inseridas no programa correspondem às de viabilidade mais imediata em nosso país e que os convites foram encaminhados para pesquisadores e/ou empresas cujas realizações têm sido amplamente reconhecidas pela comunidade.

A primeira palestra, assinada pelo Cenpes/Petrobras, reapresentou de forma abrangente e bastante realística a situação do HBio, cujo potencial foi discutido em vários aspectos, tanto econômicos quanto energéticos e sócio-ambientais. Foi esclarecido que o HBio é uma forma de diesel cujas propriedades combustíveis são superiores ao diesel convencional mas que, como tal, deverá sofrer aditivação com biodiesel para atender às decisões do marco regulatório. Também foi discutido que o processo de hidrotratamento do diesel exige boa qualidade no óleo vegetal que é incorporado ao processo, com cujos teores máximos de fósforo não podem ser superiores a 20 ou 30 ppm. Aspectos relacionados à logística também foram abordados pelos presentes, já que o HBio difere da proposta definida pelo Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel porque mantém a política centralizadora da produção e distribuição de combustíveis diesel no país. De qualquer forma, a evolução desta alternativa tecnológica deve ser vista com grande interesse, pois sua implementação terá, inevitavelmente, um impacto bastante positivo sobre o agro-negócio brasileiro, restando apenas uma melhor definição acerca de sua viabilidade econômica e sócio-ambiental.

A apresentação da UnB sobre craqueamento termocatalítico foi orientada ao relato do estado-da-arte desta tecnologia, particularmente em relação aos avanços obtidos a partir da implantação de uma unidade piloto no campus desta universidade. No entanto, os resultados apresentados ainda nos pareceram um tanto quanto preliminares, pois embora compatíveis com a maior parte das especificações do diesel de petróleo, a acidez de todas as amostras apresentadas no evento estiveram muito aquém do mínimo exigido pelo mercado, muitas vezes representando valores 100 vezes superiores ao 0,8 mg KOH/g usualmente presente nas especificações internacionais do biodiesel. Houve o argumento de que o comportamento destes biocombustíveis, corretamente denominados “bio-óleos”, não deverá oferecer maiores problemas para motores do ciclo diesel porque seus resultados de avaliação da corrosividade ao cobre foram bastante satisfatórios. No entanto, esta questão ainda estaria por ser comprovada por testes de longa duração, que também serviriam como alicerce para a definição de uma especificação apropriada para este que tem se revelado como uma alternativa energética bastante interessante para comunidades isoladas.

A Escola de Química da UFRJ, na pessoa do Dr. Donato Aranda, reapresentou sua abordagem inovadora para o desenvolvimento de catalisadores heterogêneos que sejam efetivos para a produção de biodiesel, tanto pela esterificação de óleos ácidos quanto pela transesterificação de diferentes tipos de óleos vegetais. Exemplos reais de iniciativas bem sucedidas foram apresentados, particularmente aqueles associados às atividades da Agropalma, e vários outros exemplos foram discutidos sobre o futuro e potencialidades desta tecnologia. Dentre os principais exemplos descritos no evento, vale ressaltar a informação de que tecnologias convencionais de hidrólise de óleos e gorduras (para a produção de ácidos graxos livres) promovem um interessante e ainda não constatado efeito sobre o óleo de mamona, que tem o seu teor em ácido ricinoleico diminuído em algo como 60 a 70% tornando-o, inclusive, compatível com aplicações combustíveis após conversão em ésteres de ácidos graxos. A importância do uso de óleos ácidos foi reiterado como de fundamental importância para melhorar as perspectivas de viabilidade econômica do processo.

O Instituto de Química da Unicamp foi representado pela sua expressão máxima em catálise heterogênea, o Dr. Ulf Schuchardt, que diagnosticou, em poucas palavras, aquilo que considera o futuro desta tecnologia para a produção de biodiesel. Portanto, apesar de curta, sua apresentação foi interessante e muito provocativa. Três características importantes foram identificadas: (a) a necessidade de desenvolvermos um ácido de Lewis em sistema heterogêneo, (b) a importância de que este catalisador atue em reações de esterificação e transesterificação de forma eficiente e (c) a busca pela redução da hidrofilicidade da superfície do catalisador, de modo a evitar problemas de desativação por adsorção. Projetos de desenvolvimento neste sentido já foram iniciados, envolvendo parcerias interessantes com a Tecbio (Fortaleza, CE), a UESC (Ilhéus, BA) e o Departamento de Química da UFPR (Curitiba, PR).

O painel foi concluído com duas contribuições do setor privado, apresentadas pela Dedini (Eng. Gualter Barbosa) e pela Tecbio (Eng. Expedito Parente Filho). Ambas representaram contribuições bastante convincentes sobre a capacidade destas empresas em atender as expectativas do mercado. Nenhuma novidade foi agregada ao que já é conhecido sobre a reputação destas empresas, e ambos se esmeraram em apresentar os seus respectivos produtos, sem necessariamente converter a apresentação em uma peça meramente comercial. Vale, no entanto, ressaltar o argumento de que projetos de integração entre usinas de álcool e de biodiesel podem representar uma alternativa muito importante para o setor, apesar da viabilidade “aparentemente” inferior dos ésteres etílicos em relação aos metílicos. Esta constatação envolveria questões sobre o desenho da unidade de produção, as operações unitárias envolvidas, o custo do catalisador alcalino e a eficiência energética do processo. Prevaleceu, no entanto, a impressão de que cada caso é um caso e que questões tributárias, estratégicas e de logística poderão facilmente justificar a opção por uma destas rotas tecnológicas em relação à outra.

Em conclusão, acreditamos que o painel abordou alguns dos pontos nevrálgicos do programa e que foi capaz de acenar algumas importantes conclusões: (a) investimentos atuais no setor agrícola determinarão o sucesso futuro do programa; (b) a simplificação do processo de produção passa necessariamente pelo desenvolvimento de novos catalisadores de base heterogênea, capazes de promover tanto a esterificação quanto a transesterificação de matérias graxas, simultaneamente; (c) em decorrência disto, o caminho em direção a matérias-primas de baixo valor de mercado também passa pelo desenvolvimento de processos catalíticos versáteis e de alta reciclabilidade; (d) o amadurecimento tecnológico do processo tem que atender à diversidade de matérias-primas disponíveis no mercado; e (e) o setor produtivo nacional já está organizado para suprir o mercado com engenharia de processos de eficiência comprovada. Neste sentido, várias instituições nacionais de ensino e pesquisa estão engajadas no desenvolvimento de produtos e processos inovadores para a cadeia produtiva do biodiesel: a integração destas com o setor produtivo poderá resultar no fortalecimento das bases de sustentação do Programa Nacional e na consolidação de tecnologia 100% nacional para a produção de biocombustíveis a partir de fontes lipídicas renováveis.

Luiz Pereira Ramos, UFPR. Saiba mais sobre o autor.
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