BiodieselBR
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Menos discussões, mais resultados

Faz quatro anos que discussões calorosas ocorrem em torno de qual seria a melhor opção de oleaginosa para se produzir biodiesel no Brasil. Há os defensores da mamona, os da soja, os do pinhão manso, os do dendê, os do sebo e muitos outros.
Liv Soares Severino 4 min de leitura
Faz quatro anos que discussões calorosas ocorrem em torno de qual seria a melhor opção de oleaginosa para se produzir biodiesel no Brasil. Há os defensores da mamona, os da soja, os do pinhão manso, os do dendê, os do sebo e muitos outros. Agora, o Programa Brasileiro de Biodiesel está entrando numa fase real em que o biocombustível precisará ser adicionado ao tanque e não apenas em apresentações de eventos técnicos. Afinal, que resultados tiveram as discussões?

Trabalhar com ciência me ajuda a compreender o gosto e a necessidade  que os cientistas têm pelas discussões técnicas. Na verdade, discutir, duvidar e questionar são alguns dos fundamentos para que o conhecimento científico possa avançar. Um bom cientista precisa ter a perspicácia para enxergar um fenômeno por vários ângulos e oferecer diferentes interpretações; tem a obrigação intelectual de apresentar o outro lado da moeda; precisa questionar a verdade em busca de uma incoerência; precisa alertar que uma certeza sempre tem um porém.

Foi dentro deste ambiente onde tudo tem que ser questionado que se construíram as bases desse grande programa de biodiesel. Não estou insinuando que toda essa discussão tenha sido desnecessária, pois não resta a menor dúvida de que se não ocorresse essa etapa de planejamento, certamente o programa teria sido fundado sobre bases muito frágeis e os erros que se seguiriam poderiam minar o projeto. Mas precisamos agora compreender que os rumos do Programa Brasileiro de Biodiesel estão deixando de ser ditados pelos técnicos e passando para a “mão invisível” do mercado.

Para o mercado, as discussões são mais simples, já que suas perguntas são objetivas e diretas, tais como: o que se pode produzir? quanto custa? quanto tem? onde está? Como se faz? O máximo de abstração que o mercado se permite é tentar implementar uma estratégia com alguns anos de prazo, baseado em indicações concretas do que poderá ocorrer no futuro. Quem vai transformar óleo em biodiesel são empresas e para elas são os números que decidem, as discussões são apenas auxiliares.

Observando os primeiros passos da incipiente indústria brasileira de biodiesel, percebe-se o que antes teria sido fácil de prever analisando-se friamente as estatísticas: o biodiesel está sendo feito de óleo de soja que é o material disponível em grande quantidade e com o preço mais atraente. A mamona vem sendo incentivada por vários anos, mas na prática a produção ainda não é suficiente para ter qualquer impacto sobre o biodiesel e continua sendo uma matéria prima restrita à indústria química onde precisa disputar mercado com a Índia e a China. O algodão também continua como alternativa, mas apenas para onde o óleo já está disponível. O pinhão manso permanece como promessa futura, mas o fruto ainda não chegou na indústria, pois não há plantios significativos e são necessários vários anos para que a planta entre em produção comercial.

Nós técnicos precisamos continuar avaliando para onde estamos indo e propondo alternativas, catalisando as mudanças e alertando para os entraves que vêm pela frente. Mas nossas em nossas sugestões não podemos esquecer que o mercado possui regras as quais não temos força para sobrepor. Ao invés de lutar contra essas regras, temos que entendê-las e propor alternativas e que nos conduza na direção desejada. Não adianta desprezar a Lei da Oferta e da Procura, nem esquecer que qualquer empresa visa ao lucro.

Tentando analisar apenas tendências minimamente previsíveis, acredito que a soja será a principal matéria prima para biodiesel na fase inicial deste programa, mas o crescimento de sua participação será limitado em poucos anos pelo fato de que se planta soja como fonte de proteína e o óleo é um subproduto. É pouco provável que se aumente a produção de soja para que haja mais produção de óleo, pois isso geraria excesso de proteína que derrubaria fortemente os preços do produto, diferença que não poderia ser compensada pelo preço do óleo. Neste cenário futuro, a mamona poderia ter importante participação, pois ela tem o óleo como produto principal, mas seria necessário que se produzisse com preço equivalente ao dos outros óleos vegetais, o que é possível quando se utiliza tecnologia apropriada.

O mercado de biocombustíveis é imenso e quando uma oleaginosa é utilizada, não está tirando espaço de outra. Se o preço for aceitável quando comparado aos combustíveis fósseis, há mercado para todas as oleaginosas. Portanto, a questão não é “qual oleaginosa estará lá”, mas “como faremos para colocar todas lá”!

Liv Soares Severino
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