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Décio Luiz Gazzoni

Toxicidade do diesel e do biodiesel


Décio Luiz Gazzoni - 30 out 2012 - 10:22 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
gazzoni toxidade_301012Primeiro foram as preocupações ambientais. Agora, a sociedade quer saber os efeitos que os combustíveis apresentam sobre a saúde humana e de outros animais, domésticos ou silvestres. Diversos estudos recentes buscam estabelecer eventuais efeitos tóxicos do petrodiesel e de seu sucedâneo renovável, o biodiesel. Atualmente, está pacificamente estabelecido que o biodiesel é menos poluente do que o diesel de petróleo, especialmente por emitir menor quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera.

Entretanto, este fato não o livra do exame acurado de cientistas, que buscam identificar a toxicidade de combustíveis fósseis ou renováveis sobre espécies animais – incluindo o Homem. Selecionamos dois estudos recentes, envolvendo toxicidade de petrodiesel e biodiesel, sobre populações humanas e sobre peixes, para ilustrar o tema. O primeiro, produzido no Brasil, estuda o impacto de petrodiesel e biodiesel sobre peixes. O segundo, realizado nos Estados Unidos, investiga a relação entre as exaustões da combustão de petrodiesel e câncer de pulmão.

Toxicidade sobre peixes
O biodiesel, apesar de renovável e menos poluente, também pode causar impactos na biota marinha, dependendo da espécie atingida. Isso porque sua formulação possui elementos naturais que poderiam facilitar a absorção de substâncias tóxicas pelos animais. Esta é a conclusão da pesquisa da equipe do professor Eduardo Alves de Almeida no Departamento de Química e Ciências Ambientais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São José do Rio Preto (SP). O artigo, denominado “Petrodiesel vs Biodiesel: a comparative study on their toxic effects in nile tilapia and armoured catfishes", foi publicado em junho de 2011 (Chemosphere 85:97–105) e a íntegra do artigo pode ser encontrada aqui.

A pesquisa teve como objetivo a análise comparativa das respostas bioquímicas entre as espécies Oreochromis niloticus (tilápia-do-nilo) e Pterygoplichthys anisitsi (cascudo marrom), após exposição controlada ao diesel de petróleo e ao biodiesel de sebo animal. A tilápia foi selecionada pelos cientistas por ser um modelo em toxicologia e possui hábito nectônico, ou seja, por nadar na coluna d’água ela tem acesso a todos os compartimentos do ambiente aquático. Portanto, caso o curso d’água seja contaminado, em qualquer altura, a tilápia estará exposta ao contaminante.

De sua parte, o cascudo, espécie endêmica da América Latina, é bentônico, ou seja, passa a maior parte do tempo no fundo do ambiente aquático, o que lhe permite maior contato com substâncias contaminantes presentes nos sedimentos.

Um dos objetivos do estudo foi observar se, pelo hábito dos peixes, as respostas à exposição aos combustíveis testados seriam diferentes. Além das duas diferentes espécies de peixes, os estudos envolveram duas durações de exposição (dois e sete dias), duas formulações de combustível (misturas de petrodiesel e biodiesel, B5 e B20), comparadas com petrodiesel e biodiesel puros (B100). Tanto as misturas, quanto o petrodiesel e o B100, foram testados em duas doses, a 0,01% e 0,05% de diluição em água.

Nas suas conclusões, a equipe refere que o B20, nas condições testadas, apresentou menos efeitos adversos do que o diesel de petróleo e que o B5, o que pode indicar uma alternativa de combustível menos danoso do que o diesel pois, aumentando a concentração do biodiesel, diminui a toxicidade do produto.

Entretanto, mesmo o biodiesel puro pode ativar respostas biomecânicas em peixes, indicando que esse combustível também pode representar um risco para os peixes testados. Embora o efeito não seja direto, substâncias presentes do biodiesel facilitariam a ação de substâncias tóxicas, como aquelas presentes no petrodiesel. Esta afirmativa decorre da observação de que, quando misturados ao biodiesel, alguns metabólitos tóxicos do petrodiesel foram encontrados em concentrações levemente maiores na bile das tilápias do que nas análises dos animais expostos ao diesel de petróleo puro.

O estudo apontou que o biodiesel não está totalmente isento de toxicidade. Segundo os resultados obtidos pela equipe de pesquisa, ele pode ocasionar, de forma mais agressiva que o diesel de petróleo, a oxidação nas membranas celulares das brânquias dos peixes. A explicação mais provável é que substâncias presentes no biodiesel, especialmente os derivados de ácidos graxos, são facilmente absorvidos pelos peixes. Esta ação, de certa forma, auxilia na absorção pelos peixes de mais substâncias tóxicas do petrodiesel presentes na mistura que, na ausência do biodiesel como “facilitador”, eram mais difíceis de serem absorvidas.

A equipe do professor Eduardo Alves de Almeida prossegue na investigação dos efeitos tóxicos do petrodiesel e biodiesel sobre a biota marinha, buscando entender toda a extensão dos impactos de eventuais contaminhações de cursos de água por combustíveis.

Diesel e câncer
O segundo estudo foi conduzido pela equipe da Dra. Debra T. Silverman, do Instituto Nacional do Câncer dos EUA. O artigo “The Diesel Exhaust in Miners Study: A Nested Case–Control Study of Lung Cancer and Diesel Exhaust” (J Natl Cancer Inst;104:1–14) foi publicado este ano e está disponível aqui.

Segundo os autores, a maioria dos estudos sobre a associação entre a exposição a gases de escapamento da combustão de petrodiesel e a ocorrência de câncer de pulmão sugere um modesto, porém consistente, aumento do risco. No entanto, os autores afirmam que nenhum estudo até a data da publicação de seu artigo havia apresentado dados quantitativos sobre histórico da exposição ao diesel, que fossem adequados para avaliar a relação entre a exposição ao combustível e o desenvolvimento de câncer de pulmão.

Devido a razões éticas e morais, estudos desta ordem não são realizados diretamente com seres humanos, como ocorre com experimentos em que as cobaias são animais. Para tanto, são realizados estudos de caso, utilizando metodologia de analise epidemiológica.

Assim, a equipe de pesquisa acompanhou 12.315 trabalhadores em oito instalações de mineração, que envolviam produtos não-metálicos e que estavam expostos aos gases de exaustão da queima de petrodiesel. Nesta população foram observadas 198 mortes por câncer de pulmão. Os pesquisadores selecionaram 562 indivíduos para acompanhamento detalhado, levando em consideração a proporção dos parâmetros populacionais como sexo, raça / etnia e ano de nascimento (grupados em períodos de 5 anos).

Para este grupo de indivíduos foi estimada a exposição às exaustões da queima de petrodiesel, representada por um índice denominado carbono elementar respirável (REC, na sigla em inglês), uma boa medida da quantidade de gases de exaustão respirados pelos trabalhadores expostos. O índice foi estimado para cada ano de trabalho e para cada indivíduo, com base em uma avaliação ampla da exposição retrospectiva em cada unidade de mineração. Para evitar interferência de outros fatores de risco de câncer de pulmão, os cientistas efetuaram análises de regressão para eliminar a interferência do consumo de cigarros e de outros potenciais fatores interferentes, por exemplo, a história do emprego em ocupações de alto risco para câncer de pulmão e um histórico de doença respiratória.

Os resultados da pesquisa mostraram diferenças estatisticamente significativas para as tendências de aumento no risco de câncer de pulmão com o aumento cumulativo da REC, assim como com a intensidade média do REC. A análise do REC acumulado ao longo de 15 anos, mostrou um gradiente positivo de aumento do risco de câncer de pulmão, que foi estatisticamente significativo. Entre os trabalhadores muito expostos (ou seja, acima da média do quartil superior (REC ? 1005 mg/m3), o risco foi cerca de três vezes maior do que entre os trabalhadores no quartil mais baixo de exposição. Os cientistas observaram uma interação entre o tabagismo e a exposição aos gases de exaustão, elevando o risco de câncer no pulmão.

A conclusão da equipe que investigou o tema é de que seus resultados fornecem novas evidências de que a exposição aos gases de exaustão do petrodiesel pode causar câncer de pulmão em seres humanos e representam um sério problema de saúde pública. Esta temática já havia sido apontada pelo professor Paulo Saldiva, na Conferencia BiodieselBR 2012 (Quanto vale uma vida – A influência do biodiesel) e deve ser encarada com muita seriedade pelas autoridades governamentais, em especial integrando a temática da saúde pública com as questões energéticas, econômicas e ambientais, na decisão da formulação de políticas públicas na área de combustíveis e biocombustíveis.

Décio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja