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Soybeans Conference

Participei recentemente como conferencista na Soybeans Conference e o evento foi excelente permitindo clarificar um pouco da nebulosidade de curto prazo que se abateu no abastecimento de óleo para produção de biodiesel.
Decio Luiz Gazzoni 7 min de leitura
Participei, recentemente, como conferencista na Soybeans Conference, pela primeira vez realizada na América do Sul. A Conferência objetivou prospectar o comportamento de médio e longo prazo da cadeia produtiva da soja e suas interfaces, como agroenergia e produção animal. O evento foi excelente e permitiu clarificar um pouco da nebulosidade de curto prazo que se abateu no abastecimento de óleo para produção de biodiesel.

O mercado de óleos é francamente comprador e está fortemente pressionado por dois potentes drivers - de um lado, o aumento da renda per cápita em países emergentes e de outro o crescimento da agroenergia. No tocante ao incremento da renda, a Ásia é o continente que mais pressiona o mercado de óleos, em especial a China e a Índia que, conjuntamente, detém um terço da população mundial. Com crescimento econômico estável, próximo aos 10% ao ano, dezenas de milhões de indianos e chineses ingressam no mercado consumidor a cada ano. Com isso, ambos os países, que eram auto-suficientes em óleo, ingressaram, anualmente, no mercado pressionando a demanda e fazendo as cotações saltarem de patamar.

No que diz respeito à agroenergia, a cotação dos óleos é pressionada por dois aspectos. Um deles é a própria demanda de óleo, para satisfazer as metas mandatórias, induzidas ou voluntárias, que ascendem a dezenas de milhões de toneladas, ao redor do mundo. E, de outro lado, pela disputa por área com outros cultivos, seja para consumo alimentar ou para produção de etanol, como é o caso do milho e do trigo.

Poucas alternativas

Agentes de mercado não vêem solução no curto prazo, caso estas premissas sejam mantidas. Ao contrário, há uma preocupação muito grande com o desenvolvimento da próxima safra de soja, na Argentina e no Brasil pois, qualquer queda na produção estimada, pode fazer saltar as cotações para um patamar ainda mais alto, acirrando os problemas de abastecimento que já são grandes.

Para equacionar a questão, em um período de 5 anos, as alternativas seriam:
1.    Desaquecimento econômico global, reduzindo a renda per cápita, e diminuindo a pressão por alimentos, o que ninguém almeja;
2.    Expansão da área de cultivo de outras oleaginosas, com destaque para o girassol de safrinha no Brasil. Outra alternativa seria o plantio de dendê em larga escala, com o inconveniente de que o impacto efetivo no mercado ocorre cerca de 7 anos após a instalação das lavouras;
3.    Descumprimento das metas de mistura de diesel e biodiesel, nos diferentes países com políticas públicas mandatórias de mistura;
4.    Outras alternativas tecnológicas para a substituição do diesel, como a produção de bio-óleo, a partir de pirólise da matéria orgânica, ou de uso de etanol em motores de ciclo diesel

China e Índia

A China enfrenta o dilema de como alimentar sua população, que se urbaniza e enriquece rapidamente. Para tanto, o Governo chinês estabeleceu um decálogo para recuperar e modernizar a sua produção agrícola, o qual enrubesceria qualquer formulador de políticas de um país ultra-liberal. Três pontos do decálogo chamaram minha atenção:
1.    privatizar e vender as pequenas propriedades agrícolas para ampliar o tamanho das unidades rurais, promovendo a economia de escala e impulsionando a produtividade;

2.    destinar as áreas agricultáveis, preferencialmente a produtos de maior valor econômico e aumentar a importação de produtos de menor valor;

3.    apoiar cada vez mais as pesquisas biotecnológicas. Na Índia, os governos provinciais dominados pelo partido comunista, proibiram greves para evitar perda de competitividade.

Definitivamente, não se fazem mais comunistas como no século passado! Ao menos na China (maior país comunista(?) do mundo) e na Índia.

Novos tempos

O decálogo deve ser referendado pelo colegiado do Partido Comunista Chinês, que se reuniu na terceira semana de outubro, em Beijing, cuja missão é homologar as propostas que recebeu do Governo Central. Sua implementação significa que:
1.    a China promoverá a privatização dos meios de produção agrícola, como havia feito com a produção industrial;

2.    a China implementará a anti-reforma agrária, concentrando a terra para buscar eficiência produtiva;

3.    o produtor chinês será estimulado a cultivar produtos de alto valor intrínseco, destinados a alimentar a “elite” (inclusive chinesa), abandonando produtos da alimentação básica;

4.    milhões de agricultores chineses, que só sabem amanhar a terra há milênios, serão expulsos para a periferia das cidades, servindo como mão de obra industrial barata, deixando de produzir para ser consumidor de alimentos;

5.    a China já havia estabelecido a meta de liderar a geração de biotecnologias nesta década e agora se propõe a liderar o mundo, até o final da próxima.

Quando se examina, sem part pris, o pragmatismo do Governo chinês (comunista), entendemos porque a China cresce 10% ao ano, há 20 anos, enquanto outros países, que estacionaram nos conceitos da Guerra Fria, ficaram na rabeira do crescimento mundial. Além do capitalismo hiper-selvagem da proposta, verifica-se que, de imediato, o decálogo chinês pode significar que os agricultores que permanecerem no campo entrarão definitivamente no conceito de agronegócio, buscando maximizar seus lucros, utilizando da forma economicamente mais racional os meios de produção.

Entretanto, sob o aspecto do abastecimento de alimentos básicos, e de óleo vegetal em particular, a atitude chinesa implicará, no médio prazo, em diminuição da produção e em aumento da demanda. O que significa garantir sustentabilidade ao novo patamar das cotações do óleo vegetal no mercado internacional.

Brasil

Com este pano de fundo, temos que analisar o que poderá ocorrer no Brasil, onde a produção de biodiesel para atender a mistura B2 se encontra comprometida, pela indisponibilidade de matéria prima nos próximos meses, e pela alta cotação do produto. Além deste aspecto, houve um “overshooting” na resposta empresarial ao programa e, a serem postas em operação todas as plantas em construção ou projetadas, nossa capacidade industrial atingiria o pico de 6,2 bilhões de litros de biodiesel, equivalente, em valores de hoje, a quase uma mistura de 16% no diesel consumido no país.

Apesar da sinalização do mercado, de falta de matéria prima e de altos preços ao longo do próximo ano, a imprensa noticia que o Governo Federal pretende, nos leilões programados para novembro próximo, promover a aquisição de biodiesel equivalente a B3. Esta é mais uma inovação a pressionar o mercado, além das mencionadas anteriormente. É necessário tomar em conta que a produção estimada de óleo de soja (90% da matéria prima do biodiesel brasileiro) para 2008 é de 5,8 bilhões de litros, para um consumo nutricional interno estimado em 3,5 bilhões de litros e contratos de exportação estimados em 2,2 bilhões de litros.

Com base nestes números, as alternativas para 2008 são:
1)    Descumprir as metas do programa
2)    Sustar grande parte da exportação de óleo
3)    Esmagar mais soja internamente, buscando compradores para o farelo excedente

Como, dificilmente, o Governo aceitaria o descumprimento das metas, pelo empenho pessoal do Presidente da República, restam as outras alternativas. Desta maneira, as cotações do óleo no mercado internacional se manterão em alta, testando o patamar de US$1000/t. Além do que, os estoques brasileiros de óleo vegetal estarão muito próximos de zero, no final de 2008.

Logo, para não contaminar ainda mais o preço do diesel, que já está nas alturas, e que será pressionado pelos recordes sucessivos no preço do petróleo base Rotterdam, é bom que o Governo comece a pensar na redução da CIDE sobre o óleo diesel (garantindo que o benefício seja repassado ao consumidor), para evitar que o óleo diesel se torne um fator de pressão inflacionária e aumente ainda mais o custo Brasil.

Décio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, colunista do portal BiodieselBR.com e membro do Painel Científico Internacional de Energia Renovável.
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