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Décio Luiz Gazzoni

Outlook 2011-2020 - Análise do Mercado de Biocombustíveis - Parte II


Décio Luiz Gazzoni - 30 ago 2011 - 08:17 - Última atualização em: 13 mar 2012 - 17:08

1.    Situação do mercado

Os preços mundiais de etanol aumentaram em mais de 30% em 2010, no contexto de um aumento dos preços das commodities que servem como matéria prima para produção de etanol, principalmente açúcar (= cana-de-açúcar) e milho, e com os preços de outras formas de energia (fósseis) mantendo-se firmes. Esta situação contrasta com 2007/08, quando os movimentos de preços do etanol não acompanharam o ritmo dos aumentos dos preços das commodities, e as margens de lucro do etanol foram reduzidas. Os EUA se tornaram, pela primeira vez, um exportador líquido de etanol em 2010, enquanto as exportações do Brasil foram reduzidas significativamente em um contexto de preços do açúcar bruto muito altos e com valores relativamente mais competitivos do etanol baseado no milho, quando comparado aos anos anteriores (em grande parte efeito do excesso de valorização do real).

Os preços mundiais de biodiesel aumentaram em 2010, em um contexto de aumento dos preços da colza e de outros óleos vegetais, além da alta dos preços do petróleo bruto. Este aumento de preço é menor, em comparação com o etanol, devido ao fato de que os preços do biodiesel se mantiveram relativamente firmes em 2009, em comparação com o petróleo e com os preços mundiais de óleo vegetais.

2.    Principais projeções

    - Os preços globais de etanol e biodiesel deverão continuar a subir em 2011. Durante o período 2011-20, os preços do etanol e biodiesel deverão manter-se firmes, posto que as políticas que promovem o uso de biocombustíveis continuam vigentes ou sendo implementadas e os preços do petróleo se mantém em ascensão (Figura 1a e 1b ). A produção mundial de etanol (Figura 2) e de biodiesel (Figura 3) deve continuar a expandir-se rapidamente ao longo dos próximos dez anos.
    - Os EUA deverão continuar a ser o maior produtor e consumidor de etanol. Como os preços do açúcar bruto devem reduzir-se, no médio prazo, o etanol de cana deve se tornar mais competitivo do que em 2010 e as exportações do Brasil devem se recuperar nos primeiros anos. A União Européia deverá ser de longe o produtor e consumidor mais importante de biodiesel. Alguns países em desenvolvimento (Argentina, Malásia e Tailândia) poderão desempenhar um papel significativo nas exportações de biodiesel. Se forem eliminados os problemas de câmbio e de tributação, e políticas de apoio forem implemanetador,  o Brasil poderá tornar-se o grande exportador global de biodiesel.

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Figura 1a. Projeção de preços nominais do etanol e do biodiesel

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Figura 1b. Projeção de preços reais do etanol e do biodiesel

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Figura 2 – Produção e comercialização global de etanol

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Figura 3 – Produção e comercialização global de biodiesel

    - As projeções de produção de biocombustíveis em muitos países em desenvolvimento são relativamente incertas, prosseguindo na tendência de aumentar pouco ou quase nada a sua produção nos últimos anos. O cultivo de matérias-primas novas, como pinhão manso ou mandioca, não passam de tentativas experimentais, que não têm permitido a produção em larga escala de biocombustíveis, de maneira a alterar a situação do mercado.

3.    Tendências de mercado e perspectivas

3.1 Preços
O cenário traçado pelo estudo OCDE/FAO assume que os preços do petróleo bruto continuarão a subir em 2011 e manter-se-ão constantes, em termos reais, durante o restante do período analisado. Expressos em termos nominais, os preços reais são projetados para alcançar US$ 107/barril até 2020. Movidos por este movimento, pelas dificuldades com abastecimento de matéria prima e pela demanda crescente, as cotações de etanol e de biodiesel devem subir em 2011. Este aumento espera-se que seja mais forte para o biodiesel, pois são aguardados preços dos óleos vegetais e do petróleo próximos ao níveis pré-2007.

A expansão da produção e uso de biocombustíveis durante o período de projeção (2011-2020) deve ser impulsionado principalmente - como ocorreu no passado recente - pelas políticas de mandatos ou outros usos que causem algum impacto positivo, em especial trazendo alívio para os produtores e consumidores de biocombustíveis (formação de estoques), medidas de proteção mais ampla e uso de biocombustíveis com elevadas especificações de qualidade, bem como pela capacidade de investimento nos principais países produtores.

Neste contexto, os preços do etanol e biodiesel deverão manter-se firmes ao longo do período (Figuras 1a e 1b). A projeção indica, em média, cotações nominais até 80% maiores do que na década anterior no uso de etanol, e até 45% para o biodiesel. A previsão é de que atinjam, respectivamente, US$ 66,4 / hl e US$ 142,9 / hl, em 2020. Os preços devem diminuir ligeiramente quando expressos em termos reais, durante o período de análise, mas a relação de preços de biocombustíveis para os principais preços de suas matérias-primas deverá permanecer relativamente estável. Biocombustíveis deverão tornar-se um pouco mais competitivos ao longo do período de projeção e seus preços devem aumentar menos rapidamente do que os preços do petróleo bruto.

4.    Produção e utilização de biocombustíveis
Impulsionado por mandatos de políticas e metas de produção e uso de energia renovável, em escala  global, a produção de etanol e de biodiesel deve continuar com aumentos rápidos ao longo do período de projeção e alcançar, respectivamente, cerca de 155 GL e 42 GL em 2020 (Figuras 2 e 3). Estas projeções dependem do ingresso em escala comercial de tecnologias de biocombustíveis de segunda geração e de políticas públicas para o seu suporte.

A publicação do IEA (2010)  fornece uma clara definição de biocombustíveis de primeira e segunda geração. Biocombustíveis típicos de primeira geração são o etanol de cana ou à base de amido e o biodiesel. A matéria-prima para a produção de biocombustíveis de primeira geração consiste de açúcar, amido e óleos vegetais, ou o resíduo graxo dos animais - que na maioria dos casos também podem ser utilizados como alimento ou ração – ou, ainda, de resíduos de alimentos. Biocombustíveis de segunda geração são os produzidos a partir de celulose, hemicelulose ou lignina. Exemplos de biocombustíveis de segunda geração são o etanol celulósico e aqueles produzido pela reação de Fischer-Tropsch.

4.1 Situação nos países desenvolvidos
Com a implementação da Norma de Combustíveis Renováveis (RFS2), os Estados Unidos continuarão a ser o player mais importante no mercado de etanol. Apesar da incerteza política atual, assume-se que o crédito para os blenders de etanol e de biodiesel, assim com as tarifas sobre etanol importado, permanecerão em vigor. Nos EUA, espera-se que o uso do etanol como combustível siga um padrão de aumento constante durante o período de projeção, até atingir cerca de 71 GL em 2020 (Figura 4), abaixo dos padrões 2020 previamente estimados de 110 GL . Este consumo deve representar uma percentagem média de 8,4% na gasolina automotiva, até 2020.

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Figura 4. Produção, uso e intercâmbio comercial de etanol nos Estados Unidos

O estado da arte tecnológico do etanol celulósico ainda não permite a sua produção em larga escala. Estima-se que a produção de etanol de segunda geração deva expandir-se nos últimos anos do período de projeção para alcançar 4,3 GL em 2020, longe da meta do RFS2 que prevê 40 GL de etanol celulósico. A produção doméstica, principalmente derivada do milho, deve responder pela maior parte do consumo de etanol dos EUA. O RFS2 permite 56,8 GL de etanol de primeira geração à base de milho em 2015, o que deve se aproximar do teto de produção do etanol por esta rota.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA promulgou uma resolução em janeiro de 2011, permitindo a expansão da mistura de etanol na gasolina comum, variando de 10% a 15%, para carros fabricados em 2001 ou em data posterior. Na prática, o impacto desta decisão no curto prazo deve ser mínimo, posto que os retalhistas não estão em condições de oferecer diferentes tipos de mistura de etanol/gasolina para os seus consumidores, ampliando o número de bombas, além de oferecer as necessárias garantias, e resolver outras questões de responsabilidade que ainda precisam ser equacionadas no médio prazo. Durante o período em análise, estima-se que a mistura de 10% de etanol à gasolina comum deva ser alcançada até 2012.

Os biocombustíveis sucedâneos do diesel, derivados de biomassa, que constam no mandato definido no RFS2, podem atingir 3,8 GL de biodiesel para ser utilizado em 2012. Este mandato está em aberto a partir de 2012, donde presume-se que se mantenha inalterado durante o resto do período, até 2020. Isto significa um crescimento acompanhando a demanda até atingir 4,8 GL em 2020. O biodiesel contribuirá para cobrir a lacuna do atraso da entrada no mercado de biocombustíveis avançados não-celulósicos, previstos em 57 GL para 2020. A produção de biodiesel de sebo ou gordura animal, óleos usados, bem como de óleo de milho (subproduto de usinas de etanol) deverá representar mais de 60% da produção de biodiesel dos EUA.

A Diretiva Energias Renováveis (RED) implementado pela União Européia estipula que a quota de fontes renováveis de energia (incluindo não-líquidos) deve aumentar para 10% do total de combustível do setor de transporte, até 2020.  O RED permite a substituição de combustíveis fósseis por outras fontes renováveis, como carros elétricos. A contribuição dos biocombustíveis de segunda geração será contada duplamente  para ser contabilizada no atingimento das metas de mitigação da UE/RED. O documento da OECD/FAO não faz suposições sobre a evolução da frota de carros elétricos e de de fontes alternativas de energia renovável, neste contexto.

O uso total de biodiesel na União Européia é projetada para aumentar em quase 85% durante o período da análise e alcançar cerca de 20 GL em 2020 representando uma proporção média de biodiesel nos diferentes tipos de diesel, cerca de 70% acima do período 2008-2010. A produção doméstica de biodiesel deve incrementar-se para manter-se equivalente à demanda. As importações devem permanecer estáveis, em torno de 2 GL, na média do período projetado, e ultrapassar 2,2 GL em 2020 (Figura 5).

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Figura 5. Projeções para o mercado europeu de biodiesel.

A produção européia de etanol, principalmente de trigo, grãos e beterraba, deve aumentar para quase 16,5 GL em 2020. A produção de etanol de segunda geração será factível apenas nos últimos anos do período, devendo atingir 1,6 GL em 2020. O consumo de gasolina deve estagnar durante o período, quando comparado ao período de base (década anterior). A combinação dos dois fatores deve levar o market share do álcool para 8,2% do mercado de gasolina para transporte até 2020.

Quando o conteúdo energético do etanol e do biodiesel é computado em conjunto, e a contribuição dos biocombustíveis de segunda geração é contada em dobro (como nos cálculos de mitigação RED-alvo), projeta-se que a parcela de fontes renováveis de energia proveniente de biocombustíveis poderia chegar a quase 8,5% do total de combustível para transporte da frota de veículos a gasolina e diesel da UE, contrastado com a média de 5% durante o período 2008-2010. De acordo com estes cálculos, a média prevista na Diretiva (RED), de 10%, não seria atingida.

No Canadá, o mandato exige uma participação de 5% de etanol em volume na gasolina, iniciando-se em 2011 e mantendo-se durante todo o período da análise. Em consequencia, o consumo de etanol do Canadá deverá crescer em linha com o consumo de combustível. A produção nacional deverá aumentar ao longo do período de projeção para chegar a quase 2,4 GL em 2020. O uso do biodiesel está projetado para cumprir o mandato de mistura de 1,6% (2% em termos de volume) para todo o diesel utilizado no transporte, bem como para o óleo de aquecimento, até 2012.

Na Austrália, a participação do etanol na gasolina deverá permanecer praticamente inalterada durante o período de projeção, em cerca de 1,6%. Este valor será sustentado por políticas em vigor em New South Wales e Queensland, onde mandatos de mistura de etanol foram introduzidos em 2010. A porcentagem de biodiesel no diesel deve permanecer em torno de 2,7% em todo o período de projeção, e a maior parte da produção de biodiesel deve ser baseada em sebo animal.

4.2 Países em desenvolvimento
Em 2010, a produção de biocombustíveis situou-se significativamente abaixo das expectativas na maioria dos países em desenvolvimento, com mandatos implementados ou metas ambiciosas para o uso de biocombustíveis, sendo Brasil e a Argentina as exceções. Isto resulta principalmente do fato de que o cultivo comercial de culturas alternativas para a produção de biocombustíveis, como pinhão manso ou mandioca é na maioria dos casos ainda um projeto experimental, de pequena escala. Esta restrição não permite a produção em larga escala de biocombustíveis, exceto em alguns países como a Nigéria ou Gana, onde o cultivo da mandioca está bem estabelecido. Durante o período de projeção, devido ao crescimento lento de fornecimento de biocombustíveis para uso doméstico no mundo em desenvolvimento, é provável que o consumo de biocombustíveis continue significativamente abaixo das metas e / ou mandatos. As exceções são os países que já têm um elevado potencial de produção de cana-de-açúcar ou óleos vegetais, predominantemente de óleo de palma.

Brasil, Índia e China, devem responder por 85% da produção de 71 GL de etanol no mundo em desenvolvimento, esperado para 2020. Na China, a maioria do etanol produzido é utilizado na indústria alimentícia e química. Algumas regiões da Ásia e da América do Sul também devem se tornar notáveis produtores de etanol. Na Tailândia, a produção deverá crescer 1,5 GL, até alcançar cerca de 2,2 GL em 2020.

Investimentos na capacidade instalada de produção de etanol devem continuar a ocorrer. A produção de etanol derivado da cana de açúcar está prevista para expandir rapidamente, com crescimento de quase 6% ao ano, durante o período de projeção, para atender tanto a demanda nacional quanto internacional. O Brasil deve manter-se como segundo maior produtor global de etanol (primeiro em etanol de cana), com uma quota de 33% da produção mundial em 2020.

A situação no mercado brasileiro de etanol deve ser diferente da que prevaleceu em 2010, com o etanol recuperando a competitividade em relação ao açúcar,devido a uma combinação de fatores: os preços do açúcar bruto serão menores nos primeiros anos do período do Outlook; a área de cana deverá crescer e a produção de cana de açúcar deve se recuperar da má colheita de 2010; e os investimentos no mercado de etanol deve expandir largamente a atual capacidades de produção. Cerca de metade da produção de cana de açúcar está prevista para ser canalizada para o consumo doméstico de etanol, devendo alcançar 41 GL em 2020 (Figura 6). Este crescimento é impulsionado principalmente pela crescente frota de veículos flex-fuel no mercado brasileiro.

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Figura 6. Evolução do bioetanol no Brasil.

O maior produtor de biodiesel no mundo em desenvolvimento ainda é a Argentina, que será responsável por cerca de 25% (3,2 GL) do biodiesel produzido nos países em desenvolvimento e 8% da produção de biodiesel mundial até 2020. No Brasil, a produção de biodiesel é baseada em óleo de soja, algodão e gordura vegetal e é esperado um aumento além dos 3 GL até 2020, como resultado de uma crescente demanda doméstica impulsionada por mandatos de biodiesel e incentivos para a sua produção no Norte do Brasil (a partir de óleo de palma).

Em contraste, a Argentina (depois de cumprir sua meta de consumo doméstico) deverá continuar a centrar seu foco nos mercados de exportação, devido aos incentivos oferecidos pelo sistema tributário diferenciado de exportação. O mesmo é verdadeiro para a Malásia, onde a produção deve aumentar para cerca de 1,3 GL em 2020. Outros países do Leste Asiático, como Tailândia, Indonésia e Índia também vão aumentar significativamente a sua produção nacional de biodiesel, cada um para cerca de 1,5 GL. No entanto, a maior parte será destinada para o consumo interno devido a ambiciosas metas de mistura de biodiesel nacional.

Décio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.

Notas

1  Todas as figuras deste artigo foram extraídas do Outlook OCDE/FAO
2  IEA, 2010 – Sustainable production of second general biofuels: potential and perspectives in major economics and developing countries.
O valor de 110 GL representa a soma dos combustíveis renováveis convencionais (57 GL) e o mandato para o total de biocombustíveis avançados, excetuando os derivados de diesel provenientes de biomassa (53 GL), constantes das projeções do Governo dos EUA.
4  Para efeitos de demonstração de conformidade com obrigações nacionais de energias renováveis, impostas aos operadores, e a meta para o uso de energia proveniente de fontes renováveis,  em todos os meios de transporte referidos no artigo 3 (4), a contribuição dos biocombustíveis produzidos a partir de resíduos, detritos, material celulósico não alimentar deve ser considerada como o dobro da contribuição dos outros biocombustíveis, de acordo com a Directiva 2009-28/EC 200.
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