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Décio Luiz Gazzoni

Outlook 2011-2020


Décio Luiz Gazzoni - 01 ago 2011 - 14:32 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:17

Parte I

Em junho de 2011 a OECD (Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento) e a FAO lançaram uma edição conjunta do Agricultural Outlook 2011-2020, uma espécie de cenário business-as-usual para a próxima década. Além dos objetivos rotineiros para um Outlook, a impressão que me ficou ao lê-lo é que se trata de uma mensagem aos governos acerca dos riscos de descasamento entre oferta e demanda de produtos agrícolas ao longo da década, com os conseqüentes riscos de desabastecimento, volatilidade de preços, aumento da fome e inflação.

Numa sequencia de três artigos vamos apresentar na Parte I um resumo das conclusões e propostas do Outlook para o agronegócio, sendo as partes II e III dedicadas especificamente ao setor de biocombustíveis. Os leitores interessados em ler o documento na íntegra (OECD-FAO Agricultural Outlook 2011-2020, 197 páginas, inglês) podem adquiri-lo em http://www.oecdbookshop.org/oecd/index.asp?lang=EN.

Síntese

O cenário apresentado revela que, na próxima década, haverá preços elevados conjuminados com grande volatilidade de preços no mercado internacional de commodities agrícolas - e o Brasil será um dos países mais beneficiados. Percebe-se no estudo o objetivo de chamar a atenção para a necessidade de incrementar a produção global, um efeito contra-cíclico destinado a estabilizar os preços das commodities agrícolas, que nos últimos anos elevaram índices inflacionários e chegaram a provocar protestos nas ruas de diversos países. Entrementes, o estudo indica que essa volatilidade, que já perdura 5 anos, assim prosseguirá e que os preços de muitas commodities básicas deverão se manter em patamares mais elevados (em valores nominais e até reais), comparados à década anterior, se medidas audaciosas não forem tomadas de imediato.

As principais causas para a manutenção dos preços em alta são: i) Os custos da produção agrícola estão em ascensão; ii) o crescimento da produtividade sofreu perigosa desaceleração; iii) as pressões sobre os recursos naturais, principalmente água, vegetação e terras, aumentaram; iv) as terras mais férteis já estão sendo utilizadas e mesmo declinando em algumas regiões; v) a produção tende a se expandir em terras marginais com menor fertilidade e maiores riscos climáticos; vi) problemas internos de cada país (Exemplo, o nosso Custo Brasil com impostos elevados, falta de infra-estrutura, juros altos, desindustrialização, real sobrevalorizado) não serão solucionados na década.

A expectativa é que os custos de alguns alimentos até declinem em relação ao início de 2011. Mas, em média e em termos reais, deverão subir até 50% no caso das carnes e 20% no dos cereais, nos próximos anos. O Brasil, principal pais exportador de carnes (25% do mercado mundial), grande produtor de soja e com boas perspectivas para o milho, tende a abocanhar boa parte do ganho - desde que sejam dadas as condições internas para produzir e exportar a custos competitivos.

Introdução

Os preços das commodities elevaram-se consistementemente a partir do 2º. semestre de 2010, como resultado de quebras de safras nas principais regiões produtoras, e de estoques baixos, o que reduziu a oferta disponível. Além disso, houve um ensaio de ressurgimento do  crescimento econômico em escala global, atiçando a demanda e fazendo com que o período de alta volatilidade nos mercados de commodities agrícolas entrasse em seu quinto ano consecutivo.

Preços de commodities elevados e voláteis e suas implicações para a insegurança alimentar estão claramente entre as questões importantes que os governos enfrentam hoje. Isso foi bem refletido nas discussões na Cimeira do G20 em Seul, em novembro de 2010, e nas propostas de ação que foram analisadas na reunião de junho 2011 realizada em Paris, congregando Ministros da Agricultura de quase todos os países do mundo.

As colheitas deste ano (safra 2011) serão naturalmente críticas, mas o equilíbrio dos mercados e a sua restauração pode levar algum tempo. Até que as reservas (estoques) possam ser reconstruídas, os riscos da volatilidade de preços continuarão elevados. Assim, os preços das commodities agrícolas em termos reais, tendem a permanecer em um patamar superior durante a próxima década, em comparação com a década anterior. Longos períodos de preços elevados podem tornar o cumprimento das metas de segurança alimentar global mais difíceis de serem atingidas, colocando os consumidores pobres em maior risco de desnutrição. A FAO estima existirem cerca de 1 bilhão de pessoas que sofrem de algum grau de insegurança alimentar.

De outra parte, preços mais altos das commodities são um sinal positivo para um setor que vinha experimentando quedas nos preços expressos em termos reais, por muitas décadas, até meados da década passada. Em teoria,  preços remuneradores estimulam os investimentos na melhoria da produtividade e aumento de produção, necessário para atender a demanda crescente por alimentos. No entanto, a resposta da oferta está condicionada pelo custo relativo dos insumos (sentido diretamente pelo produtor), enquanto os incentivos fornecidos pelo aumento dos preços internacionais nem sempre são repassados aos produtores devido ao alto custo das operações ou intervenções de política interna. Em algumas regiões que produzem, a apreciação cambial também tem afetado a competitividade dos seus setores agrícolas, limitando respostas às elevadas cotações em dólar – sendo o Brasil provavelmente o caso mais grave.

Há sinais de que os custos de produção estão subindo e o crescimento da produtividade está diminuindo, e existe uma relação direta de causa e efeito entre os dois fenômenos. Custos relacionados com a energia aumentaram significativamente, assim como os custos de alimentação. Pressões sociais sobre o uso sustentável dos recursos naturais, em particular água, vegetação e terra, também estão aumentando.

Terras disponíveis para a agricultura em muitas áreas tradicionais de produção são cada vez mais restritas. Logo, a produção deve se expandir para áreas menos desenvolvidas e em terras marginais com menor fertilidade e maior risco de eventos climáticos adversos. Novos investimentos substanciais em melhorias de produtividade são necessários para assegurar que o setor pode atender à crescente demanda do futuro.

Mensagens principais:

- Produção agrícola: deve aumentar no curto prazo, assumindo-se condições climáticas normais, como resposta aos atuais preços elevados. Os preços das commodities podem cair dos valores de pico do início de 2011, mas em termos reais são projetados para médias de até 20% maior para os cereais (milho) e até 30% para carnes (aves), durante o período de 2011-20, em comparação com a último década.
- Alta de preços de produtos agrícolas: Como os preços mais elevados para commodities são transmitidos através da cadeia alimentar, evidências recentes indicam que a inflação devida ao preço dos alimentos está aumentando na maioria dos países, contribuindo para o aumento da inflação agregada de preços ao consumidor. Isso gera preocupações para a estabilidade econômica e para a insegurança alimentar em alguns países em desenvolvimento, onde o poder de compra das populações mais pobres é reduzido.
- Taxas de crescimento da produção: A produção agrícola global está projetada para crescer 1,7% ao ano, em média, ante 2,6% na década anterior. Espera-se um crescimento mais lento para a maioria das culturas, especialmente oleaginosas e cereais, que enfrentam maiores custos de produção, além de desaceleração do crescimento da produtividade. O crescimento da produção pecuária permanece perto das tendências recentes, projetada em 0,7%, anualmente.
- Desaceleração da produtividade: Estima-se que, nas lavouras mais importantes, a frenagem do ganho de produtividade continuará a exercer pressão sobre os preços internacionais. Um maior crescimento da produção se espera de fornecedores emergentes, onde as tecnologias existentes oferecem um bom potencial para a melhoria de rendimento. A parte da produção de países em desenvolvimento continua a aumentar ao longo do período, devido à grande defasagem entre as produtividades médias obtidas atualmente em países desenvolvidos e emergentes, para as mesmas culturas.
- Pesca e aquicultura: O setor aumentará sua produção global em 13%, anualmente, até 2020 – alto porém mais lento do que na década anterior, devido a uma menor taxa de crescimento da aquicultura (2,8% contra 5,6% para 2001-10) e um setor de captura de peixe reduzido ou estagnado Em 2015, a aquicultura deverá superar a pesca de captura como a fonte mais importante de peixes para consumo humano, e até 2020 deve representar cerca de 45% da produção da pesca total (incluindo os não-alimentares). Em relação ao período 2008-2010, os preços médios do peixe de captura devem ser cerca de 20% maior em 2020 em termos nominais, comparado com um aumento de 50% para espécies aquícolas.
- Consumo per capita: Vai expandir mais rapidamente na Europa Oriental, Ásia e América Latina onde os rendimentos das famílias são crescentes e o incremento da população está diminuindo de intensidade. Produtos como óleos vegetais, açúcar, carnes e laticínios devem experimentar os maiores aumentos na demanda.
- Biocombustíveis: A utilização da produção agrícola como matéria-prima para biocombustíveis continuará o seu crescimento robusto, em grande parte impulsionado por mandatos de biocombustível e apoio de políticas públicas. Em 2020, 13% da produção global de grãos, 15% da produção de óleo vegetal e 30% da produção de cana-de-açúcar serão destinados para a produção de biocombustíveis. Os preços mais elevados do petróleo levarão a um crescimento ainda maior no uso de matérias-primas de biocombustíveis, e com preços do petróleo suficientemente alta, a produção de biocombustíveis em muitos países, torna-se viável, mesmo na ausência de apoio político.
- Mercado Global: O comércio agrícola internacional deverá crescer 2% ao ano, que é mais lento do que na década anterior, com aumento apenas modesto dos exportadores tradicionais e maior produção doméstica por parte dos importadores. O crescimento mais rápido virá, principalmente, de exportadores emergentes na Europa Oriental, Ásia Central e países da América Latina. Déficits no cultivo de alimentos são esperados em países da África Subsaariana com o continuado crescimento populacional impulsionando a demanda crescente na produção doméstica
- Projeção de preços: Análise estocástica demonstra a incerteza das projeções de preços, que são altamente dependentes dos pressupostos subjacentes, e sugere que o risco do aumento dos preços é maior do que de preços mais baixos. Esta análise também confirma que o rendimento de flutuações de produção induzida nos países principais exportadores representam o eixo fulcral da volatilidade dos preços internacionais. A seca do ano passado e os incêndios na Federação Russa e Ucrânia, e excesso de umidade nos Estados Unidos ilustra quão rapidamente o equilíbrio do mercado pode mudar. Esta relação entre eventos climáticos e variações de rendimento das culturas tornar-se-á um driver ainda mais crítico da volatilidade dos preços no futuro.

Volatilidade dos preços

O documento lança um olhar sobre as principais forças conducentes à volatilidade dos preços, que criam incerteza e risco para os produtores, comerciantes, consumidores e governos. A volatilidade dos preços pode ter extensos impactos negativos sobre o setor agrícola, segurança alimentar e a economia em geral, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento.
- O clima e as mudanças climáticas - O fator mais frequente e significativo para gerar volatilidade são as condições meteorológicas imprevisíveis. As Mudanças Climáticas Globais estão alterando os padrões climáticos, mas o impacto de eventos climáticos extremos sobre a oferta de produtos agrícolas, ainda não está suficientemente elucidada.
- Níveis de estoque - Há muito tempo os estoques de passagem desempenham um papel na mitigação de discrepâncias na demanda de curto prazo e na oferta de commodities. Quando os estoques são muito baixos em relação ao consumo, tal como presentemente ocorre para grãos em geral, a volatilidade dos preços pode ser alta.
- Preços da energia – A energia tanto representa um custo direto na produção, quanto indireto através da fabricação de insumos, como fertilizantes , ou mesmo pela demanda de matérias-primas de biocombustíveis, transmitindo a volatilidade dos preços da energia para os mercados agrícolas.
- Taxas de câmbio - Ao afetar os preços das commodities domésticas, movimentos cambiais têm o potencial de impacto na segurança alimentar e competitividade em todo o mundo. Taxas de câmbio irreais, como é o caso da supervalorização do real brasileiro, representam um forte desestimulo ao setor produtivo, tanto o agrícola quanto os demais setores da economia.
- A crescente demanda - Se a oferta não acompanhar a demanda, haverá uma pressão ascendente sobre os preços das commodities. Com renda per capita crescente a nível mundial - em muitos países pobres deve aumentar em até 50% durante a próxima década - a demanda de alimentos se tornará mais inelástica, de forma que oscilações de preços ainda maiores seriam necessários para reduzir a demanda.
- Pressões sobre os recursos - Maiores custos de entrada, a aplicação mais lenta de tecnologia, a expansão em terras marginais e limites para o uso de água para irrigação, estão limitando as taxas de crescimento da produção.
- Restrições comerciais - Tanto restrições a exportação quanto a importação amplificam a volatilidade dos preços nos mercados internacionais.
- Especulação - A maioria dos pesquisadores concorda que altos níveis de atividade especulativa nos mercados futuros podem amplificar os movimentos de preços no curto prazo, embora não haja evidências conclusivas de seu impacto no longo prazo.

Desafios políticos

O Outlook destaca tanto desafios significativos para enfrentar a insegurança alimentar global quanto as grandes oportunidades para os produtores agrícolas, decorrentes do maior preço médio projetado ao longo da próxima década. O desafio da política é promover o crescimento da produtividade, principalmente para os pequenos produtores, que melhora a resistência do mercado a choques externos, reduz o desperdício e aumenta o suprimento para os mercados locais, a preços acessíveis.

Investimentos do setor público são necessários em pesquisa e desenvolvimento agrícola, instituições e infra-estrutura para aumentar a produtividade do setor e resiliência em relação tempo / mudança climática e a escassez de recursos para estas ações. Investimentos são necessários para reduzir as perdas pós-colheita. Reconhecendo que a volatilidade continuará a ser uma característica dos mercados agrícolas, políticas coerentes são necessárias para reduzir a volatilidade tanto quando possível e limitar seus impactos negativos, como:
- Atenuantes da volatilidade - a transparência do mercado pode reduzir a volatilidade dos preços. São necessários maiores esforços para melhorar a informação global e nacional e os sistemas de vigilância sobre as perspectivas de mercado, incluindo estatísticas rápidas, completas e confiáveis sobre a produção, estoques e comércio de produtos sensíveis de segurança alimentar.
- Protecionismo: Remoção ou redução das distorções da política, tais como restrições à importação e exportação de produtos agrícolas e biocombustíveis ou de subsídios e mandatos, também pode reduzir a volatilidade dos preços. Informação e transparência nos mercados futuros deve ser melhorada reconhecendo a importância de harmonizar as medidas e politicas públicas.
- Gestão da volatilidade: redes de segurança social podem ajudar os consumidores mais vulneráveis quando os preços dos alimentos aumentarem; igualmente, redes de segurança podem compensar os baixos rendimentos do produtor, mantendo assim a sua capacidade de adquirir insumos e manter a produção. Reservas de emergência de alimentos para assistência específica para as pessoas pobres são úteis para diminuir o impacto dos preços elevados. São necessários maiores esforços para atuar com base no mercado, com sistemas de gerenciamento de risco, incluindo o uso de frentes contratação e bolsas de mercadorias de futuros, à disposição dos pequenos produtores. Os governos também podem adotar estratégias de risco de gestão, tais como o seguro para financiar as importações de alimentos, quando mau tempo reduz a produção doméstica ou contratos de opção para bloquear a compra futura importação de alimentos.

Décio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja
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