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Décio Luiz Gazzoni

Mercado de Biocombustíveis: Uma análise


BiodieselBR - Décio Luiz Gazzoni - 12 jun 2006 - 19:40 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

   Em 2002, o consumo mundial de energia (independente da fonte energética) foi de, aproximadamente, 10,5 bilhões de toneladas equivalentes de petróleo (TEP, ou TOE, na sigla internacional, em inglês). A análise da demanda projetada de energia no mundo indica um incremento médio de 1,7% ao ano, entre 2000 e 2030, quando alcançará 15,3 bilhões de TEP/ano, de acordo com o cenário base traçado pelo Instituto Internacional de Economia. Em condições ceteris paribus, sem alteração da matriz energética mundial, os combustíveis fósseis responderiam por 90% do aumento projetado na demanda mundial, até 2030.

    Este cenário já prevê alterações na dinâmica da oferta de energia, em especial a escalada de preços de petróleo, as mudanças climáticas globais e a reação da sociedade globalizada aos efeitos deletérios das emissões provenientes de fontes energéticas de carbono fóssil.

    Para qualquer análise prospectiva do setor energético, é importante considerar dois fatos: o primeiro é a elevada concentração de fontes de carbono fóssil (80%) na matriz energética mundial, sendo 35% referentes à participação do petróleo na matriz; em segundo lugar, atente-se que as reservas comprovadas de petróleo do mundo se alçavam a 2,3 trilhões de barris, em meados do século XIX, antes do início de sua exploração extensiva. Atualmente, as reservas são estimadas em 1,137 trilhões de barris, 78% dos quais no subsolo dos países do cartel da OPEP.

    Posto o consumo atual, estas reservas permitem suprir a demanda mundial por 40 anos. É evidente que tanto as reservas quanto o consumo se incrementarão, ao longo deste período. Admitindo-se que o crescimento projetado de 1,7% ao ano para a demanda global de energia possa ser extrapolado para o petróleo, o consumo atual de 80 milhões de barris/dia seria elevado para 120 milhões de barris/dia, em 2025. Assim, o consumo anual seria de 44 bilhões de barris, o que confirma o esgotamento das reservas até meados do presente século.

    Pela lei da oferta e da procura, solidificando-se o cenário de esgotamento das reservas de petróleo, os preços se manterão em trajetória ascendente, buscando um novo ponto de equilíbrio, que será obtido pela conjunção entre redução da demanda energética e substituição do petróleo por outras fontes competitivas e sustentáveis. Entre estas fontes estão aquelas derivadas da agroenergia, como biodiesel, etanol, carvão vegetal, biogás, briquetes, lenha, etc.

    No momento, o break even entre o preço do álcool e da gasolina (tributação exclusa) oscila na amplitude do preço do barril de petróleo situado entre US$30,00 e US$35,00. Para biocombustíveis derivados de óleo vegetal, por ser uma tecnologia ainda imatura, o ponto de equilíbrio é estimado para o preço do barril de petróleo em torno de US$60,00, com forte tendência de declínio no médio prazo. Entende-se, portanto, que as condições econômicas estão postas, em forma estrutural, para a viabilização da agroenergia enquanto componente de alta densidade do agronegócio. As pressões social (emprego, renda, fluxos migratórios) e ambiental (mudanças climáticas, poluição) apenas reforçam e consolidam essa postura, além de antecipar cronogramas.

    A rigor, o Brasil não é dependente do mercado internacional para assegurar a sua competitividade do negócio da agroenergia. Dispondo de um invulgar mercado consumidor interno, o Brasil pode alavancar um negócio poderoso na área de agroenergia, com alta competitividade no âmbito do biotrade – o mercado internacional de bioenergia. Sendo assim, o Brasil está destinado a ser o líder mundial não apenas na produção e comercialização de agroenergia, como também de biomateriais derivados de biomassa, que estão sendo viabilizados com os avanços da genética, biotecnologia, processos químicos e engenharia, devendo, para tanto, valer-se de suas vantagens comparativas, transformando-as em fatores de competitividade para alcançar e manter esta liderança.

    O mercado para produtos da agroenergia é amplo, encontra-se em expansão e possui um potencial quase ilimitado. No curto prazo, a principal força propulsora do crescimento da demanda por agroenergia será a pressão social pela substituição de combustíveis fósseis. Considere-se que a concentração de CO2 atmosférico teve um aumento de 31% nos últimos 250 anos, atingindo, provavelmente, o nível mais alto observado nos últimos 20 milhões de anos. Os valores tendem a aumentar significativamente se as fontes emissoras de gases de efeito estufa não forem controladas, como a queima de combustíveis fósseis e a produção de cimento, responsáveis pela produção de cerca de 75% destes gases.

    Pela análise exposta, percebe-se uma invulgar oportunidade para o Brasil ingressar em um mercado potencialmente fabuloso, permitindo a consecução de diversos objetivos nacionais e globais, em especial aqueles vinculados aos temas social (criação de empregos, geração e distribuição de renda, desenvolvimento), ambientais (redução das emissões de gases de efeito estufa), econômicos (progresso, altas taxas de crescimento do PIB) e negociais (estabelecimento de um poderoso mercado de bioenergia).   

Decio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, colunista BiodieselBR.com e membro do Painel Científico Internacional de Energia Renovável.

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