Décio Luiz Gazzoni

Europa, nosso cliente


Décio Luiz Gazzoni - 21 abr 2006 - 10:12 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Recentemente, tivemos a oportunidade de participar da elaboração do Plano Nacional de Agroenergia. Um dos temas que colocamos em evidencia no Plano é a inevitabilidade da liderança brasileira na geração e comércio internacional de agroenergia. Inevitabilidade em termos: todas as vantagens comparativas estão do nosso lado – precisamos transformá-las em diferenciais competitivos e em negócios palpáveis.

Um dos futuros clientes preferenciais do nosso biodiesel será a Europa, onde a consciência sobre a necessidade urgente de câmbio da matriz energética internaliza-se com muita rapidez entre os cidadãos. Trata-se de um mercado rico, multifacetado, remunerador e promissor. Logo, que tal analisarmos, sucintamente, o quadro energético europeu, nosso potencial comprador de biodiesel?

Política Energética

Na Europa, como no resto do mundo, a luz amarela acendeu com a primeira e a segunda crises do petróleo (anos 70). Existiam na Europa diversos órgãos governamentais monopolistas de geração de energia elétrica e, inclusive, de geração de energia nuclear ou produção e distribuição de combustíveis fósseis, em especial na Europa Oriental. Fontes renováveis de energia constituíam-se em exceção, concentradas em hidroeletricidade, mormente na Suécia e Itália.
    A partir dos anos 80, inicia-se um processo gradual de mudança deste quadro, lastreado em questionamentos sobre a segurança do suprimento energético, temas ambientais, competitividade das economias européias e desenvolvimento regional.

    Entretanto, a maior visibilidade do processo, até o momento, é o aumento da demanda energética. Por exemplo, estima-se que a dependência externa de petróleo e gás natural crescerá de 80% e 46% (2000) para 93% e 73%, respectivamente, se a matriz energética não for alterada. Estes números apontam para sérios desdobramentos como: i) aumento da dependência do Oriente Médio; ii) exposição à custos crescentes de energia; iii) sujeição a crises de abastecimento; iv) impactos ambientais crescentes.

    Em conseqüência, a Europa trabalha com cenários que prevêem aumento da eficiência energética,  geração própria de energia renovável, ou sua importação de terceiros países. Aí se concentra a nossa oportunidade, não apenas para biodiesel, porém para etanol e derivados de florestas energéticas.

Peso ambiental

    Não se pode perder de vista que a Europa foi um dos principais proponentes e impulsionadores do Protocolo de Kyoto, um contraponto à renitente resistência americana. Aliás, Kyoto apenas se viabilizou quando as lideranças européias convenceram a Rússia a firmar o Protocolo. Esse empenho não ocorreu por acaso: a Europa é o continente que tem sido mais assolado por extremos climáticos (nevascas, enchentes, secas, ondas de calor, etc), derivadas da queima excessiva de combustíveis fósseis. Assim, quando os líderes europeus pugnaram por Kyoto, tinham em mente o apelo de seus eleitores e os enormes custos (financeiros, sociais e ambientais) das mudanças climáticas.

As oportunidades

    A estratégia européia para cumprir as metas de Kyoto consistem em i) maior eficiência do uso final da energia; ii) aumento da proporção de energia renovável na matriz; iii) aumento do seqüestro de carbono. Embora o Brasil possa ser beneficiado pelo ponto (iii), é na geração de energia renovável – especialmente agroenergia, com portabilidade – que estão nossas melhores oportunidades de negócios.

    A conclusão óbvia é que o nosso mercado interno é muito importante, porém deve ser visto também como uma oportunidade de fortalecer a musculatura, ganhar eficiência e competitividade, de olhos postos no mercado europeu. Entre outros aspectos, desde já devemos nos preocupar com baixo custo, atendimento das especificações e absoluto respeito às questões sociais e ambientais de todo o ciclo de produção de energia.

O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa e Secretário Executivo da Câmara Setorial de Oleaginosas e Biodiesel
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