Décio Luiz Gazzoni

Cenários mutantes


Decio Luiz Gazzoni - 27 jun 2007 - 16:26 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Em maio passado participei da Conferencia Européia sobre Biomassa Energética, que se realizou em Berlin. Provavelmente, trata-se do maior evento sobre o tema, em escala mundial. Na seqüência, efetuei um giro por países do Leste Europeu, para aprofundar o conhecimento sobre o uso da biomassa como sucedâneo energético.

    O fato que salta à vista quando se discute bioenergia em outros países é que, com exceção do etanol brasileiro, os biocombustíveis são uma novidade em escala global, está todo mundo apreendendo e tentando entender como funcionará esta nova ordem energética. Como toda a inovação, sua dinâmica é muito mais intensa que aquela dos negócios estabelecidos e devidamente amadurecidos. Logo, quem formular planos de negócios de médio e longo prazo para produzir etanol ou biodiesel deve atentar para os cenários alternativos e para as mudanças constantes que ocorrem na área.

Vetores da mudança

    A todo o instante surgem fatos novos, com poder de modificar completamente os cenários. Os mais recentes, e que merecem análise, são:
a.    Os EUA se propõem a substituir 20% da gasolina por fontes renováveis, nos próximos dez anos. O etanol é a melhor aposta para cumprir esta meta;
b.    Os relatórios do Painel de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. Ficou evidente que vem aí profundas mudanças climáticas, que vão depreciar a qualidade de vida no planeta. São necessárias medidas urgentes e de longo alcance, para evitar conseqüências mais graves. A medida mais viável no curto e médio prazo é o aumento do uso de biocombustíveis;
c.    Antecipando-se à divulgação do relatório, a União Européia impõe-se, para 2020, reduzir em 20% as emissões de gases de efeito estufa; aumentar em 20% a eficiência de uso das fontes energéticas; e aumentar para 20% a participação de energias renováveis na matriz energética, sendo 10% com a utilização de biocombustíveis;
d.    O Governo da Índia se propõe a misturar 10% de biocombustíveis nos combustíveis fósseis, a China estuda ingressar pelo mesmo caminho, o Japão pretende adicionar 5% e etanol na gasolina e a Argentina aprovou a mistura de 5% de biodiesel no diesel, para 2010;
e.    A discussão do conflito entre oferta de alimentos e produção de agroenergia.

    As novidades não se esgotarm neste exemplo, até porque, a cada semana, mais países estão exarando políticas públicas com metas ambiciosas para cumprimento em prazos exíguos. Como tal, é chegado o momento de rediscutirmos o agronegócio em sua integralidade, incorporando, em definitivo, os impactos da agroenergia já no curto prazo e projetando as necessidades de ajustes para o longo prazo. E a tecnologia será a variável diretriz que permitirá a acomodação das diferentes demandas que recairão sobre o agronegócio.

Paradigma

    Tenho comigo um dogma: Não há vantagem comparativa natural que resista a uma mudança de paradigma tecnológico. Por esta visão, embora não desconheça a importância de disponibilidade de terra, de oferta climática, de intensa radiação solar, da capacidade empresarial do nosso agronegócio e da disponibilidade de mão de obra, entendo que dominará o segmento de agroenergia quem detiver tecnologia no estado da arte. Aliás, é exatamente o que está acontecendo neste instante, na produção de etanol no Brasil. Os americanos somente conseguem produzir o mesmo volume de etanol injetando bilhões de dólares de subsídios na cadeia produtiva e, mesmo assim, produzem um combustível mais caro e energeticamente ineficiente.

    O que me preocupa é que os países ricos estão investindo bilhões de dólares (ou euros) para encontrar outras saídas que não dependam de expansão de área ou de insolação. Esta foi uma das conclusões da viagem à Europa. Os países da UE efetuaram um levantamento preliminar de toda a disponibilidade de biomassa, nas suas mais diferentes formas (lixo orgânico, sobrenadante de esgoto, serragem, resíduos agrícolas e agro-industriais, etc), traduzindo os volumes para potencial energético. O levantamento passa a ser atualizado, anualmente. Pretendem demonstrar que já existe biomassa disponível no Velho Continente e que podem dispensar o biocombustível vindo de alheres.

    Para tanto, pensam em afastar-se do eixo da matéria prima dedicada , tipo cana/álcool ou óleo/biodiesel. Novos processos de produção de etanol (etanol celulósico) e biodiesel (Fischer-Tropsch ou flash-pirólise) ou de outros biocombustíveis (gaseificação) são as apostas para o uso da biomassa genérica para produção de biocombustíveis. No curto prazo (até 2020) o Brasil continuará imbatível na produção de etanol e é uma das esperanças mundiais de regularizar a oferta de óleos e gorduras. Porém, se não acompanhar o investimento em pesquisa e desenvolvimento, que se efetua nos países ricos, podemos estar deixando passar mais um cavalo encilhado que parou na nossa porta.

    Alguém pode argumentar que, por esta via, o custo de produção será muito elevado. Para contornar este óbice, os europeus estão desenvolvendo processos de obtenção de bioprodutos a partir da biomassa, em associação com produtos energéticos, que deverá garantir a sustentabilidade do dueto bioenergia / biorefinarias, no futuro próximo. Esta é uma das principais apostas que os países do primeiro mundo estão fazendo, ou seja, embora o custo de produção de biocombustíveis possa ser elevado, do conjunto de outros produtos de alto valor agregado, que substituiriam os produtos derivados da petroquímica, seriam obtidas margens razoáveis que viabilizariam a produção de biocombustíveis.

    O Brasil dispõe de inúmeras instituições de pesquisa e desenvolvimento que atuam na área agronômica. Somente na Embrapa são quase 40 unidades de pesquisa. Existem as universidades, os institutos, as Oscips, as ONGs, as empresas estaduais, etc. Não está aí a nossa fragilidade. Não tenho qualquer dúvida que, no médio e no longo prazos, a liderança na produção de biocombustíveis pertencerá a quem estiver mais avançado tecnologicamente nos processos de transformação da matéria prima. Hoje, o Brasil é imbatível na produção de etanol de cana-de-açúcar, entre outros motivos pelo domínio de tecnologia de ponta. Porém, quando for viabilizado comercialmente o etanol celulósico como ficaremos? Lembremo-nos sempre que, durante séculos a Suíça dominou o mercado mundial de relógios, enquanto a melhor tecnologia era o relógio analógico, aquele de dar corda. Aí vieram os japoneses com os relógios digitais e arrasaram a indústria suíça em menos de cinco anos. A matéria prima do relógio digital: o silício. Alguém conhece um país que ficou rico produzindo silício? Não? Mas conhece algum país que ficou rico com a tecnologia de processamento do silício (produtos eletrônicos, telefones, computadores, satélites, radares, etc.)? Seguramente, conhece.

    Sem desconhecer a importância de dispor de matéria prima, com o aumento dos investimentos em PD & I de processos de produção de energia renovável que está sendo efetuado nos países ricos, os biocombustíveis de primeira geração terão seu pico na próxima década, sendo progressivamente substituídos por biocombustíveis de segunda e, posteriormente, de terceira geração. Novos combustíveis como butanol, dimetil éter e bio-óleo ganham espaço. O etanol terá seu ciclo de vida estendido por conta da tecnologia de etanol celulósico mediado por bactérias transgênicas. Nesta transição perdem importância as tecnologias de produção de matéria prima e ganham importância as tecnologias de processo. Quem dominar processos na fronteira do conhecimento dominará o mercado de Agroenergia. Que terá um ciclo limitado, porque países ricos não estão investindo apenas em processos de produção de agroenergia, mas em avanços na energia eólica, fotovoltaica, geotérmica, das marés, etc. Acorda Brasil!

Decio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, colunista membro do Painel Científico Internacional de Energia Renovável.
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