Décio Luiz Gazzoni

Biodiesel: crescer ou definhar


Décio Gazzoni - 28 jun 2009 - 19:42 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:09

A menos que medidas radicais, ousadas e ambiciosas sejam tomadas de imediato, o uso relativo de biodiesel produzido a partir de óleos vegetais vai decrescer paulatinamente, na década que se inicia em 2020. Quer dizer que vamos voltar a consumir óleo diesel adoidadamente? Que vamos acelerar a exaustão das reservas de petróleo? Que vamos emporcalhar a atmosfera ainda mais? Que vamos matar ainda mais cidadãos, vítimas de problemas cardio-respiratórios decorrentes da emissão de particulados de veículos movidos a petrodiesel?

Calma lá, gente. Eu não disse nada disto. Ao contrário, acho que os combustíveis fósseis, especialmente o petróleo, perderão market share a partir da década de 20. O problema está, especificamente, no biodiesel produzido de óleos vegetais (ou gorduras animais), ou mesmo de óleos vegetais para uso direto em motores diesel. Caso sirva de consolo, este será, também, o problema do etanol produzido de cereais - seja milho, trigo ou cevada - pois, em ambos os casos, a matéria-prima (oleaginosas ou cereais) ficará progressivamente muito cara, impedindo a expansão do negócio em todo o seu potencial.

Lembremo-nos que o consumo de petróleo previsto para 2009 alcança 32 bilhões de barris, com valor estimado de 1,9 trilhão de dólares. Logo, é possível absorver o custo de B5 – eventualmente até B10 – através de políticas públicas (fiscais ou de subsídios) ou mesmo transferindo a conta para o consumidor. O problema está no B20, B30, B50... Teoricamente, um país como o Brasil, pelas suas vantagens comparativas, poderia até solucionar o seu problema. Mas, o Brasil representa apenas um dígito no consumo mundial de energia, e esta equação precisa ser resolvida de forma global, caso contrário haverá um leilão do biodiesel disponível em escala mundial e o consumidor (ou o Governo) brasileiro não conseguirão competir com a renda per cápita dos países ricos.

Vamos entender as razões pelas quais corremos este risco. No caso do etanol de cereais, o problema é facilmente compreensível: trata-se da conjuminação malévola entre a competição direta com a produção de alimentos e a ineficiência econômica, ambiental e energética de produzir etanol a partir destas matérias primas, que só se sustentam pelos subsídios e pela falta de conhecimento da opinião pública. Para o biodiesel, a análise é parecida, porém com outros desdobramentos. Em parte temos uma competição direta com alimentos (soja, canola, girassol). Esta questão poderia ser contornada produzindo óleo de espécies não édulas, como pinhão manso ou macaúba, porém a disputa por solo cultivado continuaria.

Entretanto, minha previsão é que o mercado de óleos vegetais continuará aquecido, com taxas de crescimento da demanda superiores ao crescimento do PIB mundial, pelos próximos 30 anos, sustentado pelas indústrias nutricional e de química fina. O mercado de energia será marginal na formação de preços de óleos e gorduras, pois trata-se de commoditie de baixo valor, comparativamente a alimentos, fármacos, cosméticos, próteses e outros produtos industriais.

Para complicar a questão, a maioria das matérias primas utilizadas para produzir biodiesel apresenta densidade energética muito baixa, produzindo entre 600 e 1.500 kg de óleo por hectare (entre 6 e 15 Mcal/ha), competindo com etanol de cana, que pode chegar a 120 Mcal/ha. O problema poderia ser parcialmente contornado com o uso de palmáceas tropicais, cujo paradigma é o dendê. Esta planta produz, hoje, 5 t/ha de óleo, com potencial para o dobro deste valor, podendo atingir mais de 100 Mcal/ha. Neste caso, a densidade energética seria alta o suficiente para conferir rentabilidade mercadológica, à margem de políticas públicas fiscais ou subsídios, ou mesmo da compulsoriedade de uso, que transfere o ônus para o consumidor.

Entrementes, ainda resta a questão de onde produzir quantidades astronômicas de óleo. O sudeste asiático (Malásia, Tailândia e Indonésia) está investindo fortemente na expansão do plantio de dendê. Porém, o seu limite físico de expansão será atingido até a década de 20. Países africanos ou latino-americanos, com clima adequado para produzir dendê, são poucos e com pouca área disponível para expansão, o que ocorre com Nigéria, Equador, Colômbia ou Costa Rica. Sobrará a grande fronteira da Amazônia brasileira, onde cerca de 30 milhões de hectares já desmatados poderiam ser utilizados (mesmo que parcialmente) para o plantio de dendê, em sistemas agro-florestais.

Aí vai depender do apetite empresarial, de o Governo brasileiro sair de sua inação e vislumbrar o tamanho da oportunidade econômica, ambiental e geo-política, de um marco legal adequado, e de as ONGs preferirem que as áreas desmatadas sejam replantadas, para evitar que mais área de floresta seja desmatada, a manter o modelo de agricultura itinerante atual – mesmo que a cobertura florestal seja feita com uma planta supostamente exótica (mas que aportou em Pindorama há 500 anos). Entretanto, mesmo neste caso, teríamos, no limite da área e da produtividade, 30 Mha produzindo 10 t/ha, redundando em 1,9 bilhão de barris/ano – ou seja, um B6 mundial, se a demanda global de petrodiesel não se incrementasse!

Mas só plantar oleaginosas não vai resolver, porque o preço do óleo vegetal, que é a matéria prima do biodiesel vai continuar aumentando. E, como vimos, a menor parcela da culpa pode ser atribuída ao biodiesel. A maior “culpada” é a inclusão social, promovida pelo grande aumento de renda per cápita de populações miseráveis, como no Sudeste Asiático e na África, que, com o consistente crescimento econômico do mundo (e destes países em particular) e a baixa inflação (o que restringe a concentração de renda e aumenta a renda disponível das famílias), estão podendo comprar mais alimentos – inclusive mais óleos e gorduras. Veja a evolução do preço dos óleos na figura abaixo.

Na mesma figura é possível observar que, com exceção de um momento pontual em 2005, em que o óleo de dendê apresentou cotação levemente inferior ao petróleo, o preço médio do complexo de óleos vegetais flutua entre 75 e 100% acima do preço do petróleo. Este é o espaço de equalização que precisa ser preenchido pelas políticas públicas (gravação tributária diferencial de petrodiesel/biodiesel, subsídios, etc.) ou transferência do custo para o consumidor.

Óleos vegetais: preços
Figura 1. Cotação dos óleos vegetais e do petróleo no mercado internacional.

Mas, se o mundo exige cada vez mais energia, se a tendência mundial de substituição de fontes fósseis por renováveis é um fato inexorável, o que ocupará o vácuo que vier a ser criado por uma demanda de biodiesel não atendida? Vislumbro quatro quebras de paradigma tecnológico.

A primeira delas ainda necessita de muito desenvolvimento tecnológico, mas eu acredito na Ciência e acho que resolveremos os óbices atuais. Falo da produção massal de algas, de alto teor de óleo, permitindo grande produção de biomassa, em curto espaço de tempo, reposicionando os fatores de formação de preços no mercado de óleos, no longo prazo, permitindo a redução do preço do biodiesel produzido.

A segunda tem a ver com o dueto matéria prima e processos de transformação. Já a partir da próxima década - porém com maior intensidade na década de 20 - a indústria de biocombustíveis vai migrar, parcialmente, para matérias primas genéricas de relativa abundância e baixo custo, tipo biomassa residual, óleos de fritura usados, cascas, grãos, lascas ou serragem de madeira, ou mesmo toras de madeira imprestáveis para outros usos, até o aproveitamento de gorduras de esgoto ou lixo orgânico urbano, associada com processos de pirólise ou gaseificação, para produzir bio-óleo ou gás de síntese. O bio óleo já é um sucedâneo do diesel. Com o gás de síntese, os químicos vão sintetizar novos biocombustíveis, adaptados para operar em motores de ciclo diesel, em regime de trabalho pesado.

A terceira inovação é semelhante à anterior, porém lastreada no avanço da biotecnologia. Já estão sendo testados na etapa pré industrial microrganismos transformados, como o Sacharomyces cerevisiae ou a Escherichia coli, com genes silenciados, super-expressados ou introduzidos que, a partir de mono, di ou polisacarídios (glicose, sacarose ou celulose), podem produzir inúmeros biocombustíveis, com propriedades físico-químicas, semelhantes ao petrodiesel.

A quarta inovação aponta para mudanças nos motores, de maneira a permitir o uso de bioetanol de cana, substituindo parcialmente o petrodiesel. Nem são mudanças muito profundas, trata-se de inovações tecnológicas que rompem com a forma como se havia tentado usar etanol em motores diesel até hoje, e que nunca “pegaram” por ineficiência ou alto custo. A Embrapa, em parceria com cientistas autônomos, detém uma patente nesta área que, tenho certeza, vai revolucionar o setor em escala mundial, criando algo parecido com um motor flex fuel a diesel. Só não será flex fuel completo, porque sempre será necessária determinada proporção de diesel ou biodiesel (talvez até uns 40%), necessária para provocar a explosão dos combustíveis na câmara de combustão. Os testes preliminares mostraram economicidade e desempenho elevados, por vezes superando a operação com diesel puro. E, como bônus adicional, reduzindo dramaticamente as emissões, com formidáveis ganhos ambientais e de saúde pública. Lembrando, o etanol de cana é o biocombustível com mais alta densidade energética atual e futura e o de mais baixo custo, portanto reunindo as condições para ocupar o espaço com rentabilidade empresarial, dispensando políticas públicas de equalização de preços. É o futuro chegando, quando ultrapassarmos os limites do biodiesel, se este não atender a demanda mundial.

Décio Luiz Gazzoni é engenheiro agrônomo, assessor da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
E-mail: gazzonid@cnpso.embrapa.br

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