Décio Luiz Gazzoni

Biodiesel e competitividade


Décio Luiz Gazzoni - 19 out 2006 - 20:55 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Estamos no alvorecer da era das energias renováveis, em seu contexto a agroenergia, onde desponta o biodiesel como uma das fontes mais importantes para os próximos anos. Por ser um mercado embrionário, ainda estamos testando os seus limites físicos, o seu potencial e, particularmente, os paradigmas de competitividade do biodiesel. Para entender o mercado e seus parâmetros é preciso analisar o ambiente que o cerca.

O biodiesel ganha impulso na esteira da consciência ambiental da sociedade global, alertada para os efeitos deletérios das mudanças climáticas globais. Este movimento é amplificado pela iminência do esgotamento das reservas ainda neste século e pelos conflitos derivados da disputa pela posse das últimas reservas.

O primeiro fato que chama a atenção é que o biodiesel é sucedâneo do diesel no bojo de um movimento de busca de energias renováveis. Logo, precisaremos entender o quanto diesel e biodiesel são concorrentes, uma vez que, aparentemente, a concorrência se dará entre as fontes renováveis e não entre fontes fósseis e renováveis. Donde advém a pergunta: existe alguma fonte renovável que pode disputar o mesmo nicho de mercado do biodiesel? Veículos elétricos ou movidos a célula de hidrogênio poderiam substituir os atuais motores de ciclo diesel? 

 "Nós desenvolvemos um modelo simples que analisa as relações entre os preços do óleo vegetal e do petróleo, no mercado internacional, e que permite visualizar faixas de lucratividade com a produção e comercialização de biodiesel."


Nós desenvolvemos um modelo simples que analisa as relações entre os preços do óleo vegetal e do petróleo, no mercado internacional, e que permite visualizar faixas de lucratividade com a produção e comercialização de biodiesel. Por exemplo, com o óleo vegetal cotado a US$400,00, o biodiesel passa a ser lucrativo quando o preço do petróleo está acima de US$65,00/barril. Ou, efetuando a análise inversa, se o barril de petróleo valer mais de US$110,00, o negócio biodiesel se viabiliza com o preço do óleo vegetal abaixo de US$650,00.

Entretanto, o mercado atual de biodiesel não é um mercado concorrencial puro, com formação de preços livre e transparente. Ao contrário, é um mercado derivado de políticas públicas mandatórias, que criam uma reserva de mercado para as misturas com óleo diesel. Neste caso, o preço de venda do biodiesel deixa de seguir os preços do petróleo. Porém, mesmo com uma concorrência parcial, existem as disputas de preço entre os produtores de biodiesel. Por exemplo, para exportar biodiesel para a Europa, o Brasil precisa mirrar no preço do biodiesel de canola, produzido naquele continente, e não no preço do petróleo em Roterdã.

Na margem do raciocínio, podemos entender que o biodiesel pode concorrer diretamente com o diesel de petróleo, além do mercado cativo das políticas mandatórias. Este será o caso, quando o preço de comercialização do biodiesel situar-se em patamares inferiores ao do diesel. Todavia, novamente precisamos atentar para a formação de preços. Caso a tributação diesel/biodiesel seja diferenciada, o biodiesel pode estar sendo favorecido e, em teoria, nada garante que o diferencial tributário será mantido. O que pode manter o favorecimento tributário ao biodiesel será a perpetuação das políticas públicas de incentivo ao seu uso, as quais, por sua vez, dependerão da disposição da sociedade de arcar com os custos (como contribuintes) do benefício ao biodiesel, favorecendo o cidadão e o consumidor.

Além das políticas públicas tributárias, não podemos esquecer dos recursos do mercado de carbono, que podem ser obtidos quando são desenvolvidos projetos que não estejam atrelados a políticas mandatórias, e que representam outra forma de incentivo ao uso do biodiesel, alterando os parâmetros de competitividade.

Finalmente, externo outra preocupação para reflexão conjunta. No momento, em qualquer discussão que se estabeleça, observa-se a disposição da sociedade de conferir suporte quase integral às políticas de incentivo ao uso de biocombustíveis, biodiesel incluso. Entretanto, a expansão da área de agricultura de energia em regiões de pouca disponibilidade de área (Europa, EUA, Sudeste Asiático) pode levar à redução da área de alimentos e, em conseqüência, ao aumento de seu preço. No momento em que o consumidor enfrentar alimentos mais caros, o cidadão ainda aceitará ser um contribuinte que arca com o custo de políticas de incentivo ao uso do biodiesel?

Décio Luiz Gazzoni é Engenheiro Agrônomo e colunista BiodieselBR. e-mail: [email protected]
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