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Os usos e as possibilidades para a Macaúba


Jose Wilson Ricciardi - 25 mar 2010 - 15:34 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:12

Na última edição da BiodieselBR houve uma extensa matéria sobre a Macaúba e suas possibilidades como produtora de biodiesel. A seguir falarei com mais afinco de cada uso e possibilidade que essa interessante planta oferece.

A macaúba é uma palmácea classificada entre as oleaginosas, caracterizando-se de uma palmeira de porte ereto, podendo atingir mais de 20 metros de altura com vasta cabeleira esvoaçante onde pendem  cachos de coco.

Seu nome é de origem tupi e pode ser encontrada em quase todas as regiões do Brasil, com pequenas mudanças de nomenclatura (macajuba; coco-de-espinho, mbocayá, mucajá, mocujá, mocajá, macaúba, macaíba, macaiúva, bacaiúva, umbocaiúva, imbocaiá, mbocaiúva ou mbocaíba.

Vegeta nas regiões de altitude entre 150 e 1000m, com índices pluviométricos inferiores a 1500mm e temperatura oscilando na faixa de 15 a 35 graus Celsius.

Com suas folhas de até 1metro de comprimento, de aspecto crispado com espinhos. Flores agrupadas em cachos de até 80 cm de comprimento, pequenas e amareladas que surgem de outubro a janeiro.

Seu fruto é redondo, liso, de casca (epicarpo)coloração marrom-amarelada (quando maduro), tendo a polpa amarelada com uma amêndoa oleaginosa. Seu período de frutificação está entre de setembro a janeiro. A colheita do coco se dá de outubro a maio. Uma palmeira produz em média 6 cachos/pé adulta pode produzir até 4.000 cocos durante a safra, com duas colheitas anuais, sendo em média 550 frutos por cacho. O teor de óleo do frutos é de 20% e com produção de até 30 toneladas por hectare.

No decorrer de milhões de anos as palmeiras adaptaram-se às condições mais variadas do clima e do solo, mostrando o quão diversificada pode ser. A maioria prosperou no clima equatorial quente e úmido, outras suportaram prolongadas estiagens se adaptando no clima árido.

Sua força e capacidade de adaptação se fez presente crescendo em solo fértil, chegam a estar presentes também nos brejos e nos rochedos secos, sem material físico algum assim como também são encontradas nos solos ácidos, estéreis, nos quais nenhuma planta econômica cultivada poderia ser plantada.

Seus maciços naturais podem ser encontrados desde o México até o Paraguai, porém as maiores concentrações estão nos estados de Minas, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Sendo mais facilmente encontrada em Minas Gerais ainda de forma natural, em grandes quantidades nas regiões serranas, nos outros estados, devido a exploração maior do solo para pastoreio e plantio de outras culturas, as florações naturais foram dizimadas ao longo do tempo.

Quando o coco da macaúba está começando a amadurecer sua polpa torna-se amarelada. De sabor muito apreciado pelos pássaros e pelos animais, é comum encontrar bovinos, macacos, entre outros animais se alimentando da polpa, além do próprio ser humano que utiliza na fabricação de sorvetes, sucos, geléias, doces e como ingrediente em diversos pratos regionais.

Além de saborosa, a polpa da macaúba é rica em vitamina A e em betacaroteno, sendo importante para a industria cosmética e farmacêutica.

Dessa polpa também se produz um óleo de cor escura que muitos usam para fazer sabão e onde nossas pesquisas mostram uma compatibilidade perfeita para a produção do biodiesel, atingindo facilmente as necessidades da ANP no que se refere a densidade, acidez, lubricidade etc., não precisando de nenhuma outra mistura para adequação na produção do biocombustível, ao contrário, é a única planta capaz de melhorar o que temos na atualidade saindo  do atual estágio de “produção do biodiesel” para o estágio de “qualidade do biodiesel”, motivo esse que faz de grande produtoras começarem a enxergar na Macaúba a saída mais eficaz para suas plantas produtivas originadas para outras oleaginosas.

Debaixo da polpa (mesocarpo) há uma castanha (endocarpo) muito dura, onde encontramos a sua grande riqueza, pois além de ser comestível, produz um óleo muito fino semelhante ao azeite de oliva (com índices de acidez tão bons ou melhores), rico em ácido láurico que pode ser também utilizado pelas indústrias de margarinas e pelos fabricantes de cosméticos (a preços altíssimos por litro).

A importância da Macaúba não para por aí, tem mais, muito mais: o endocarpo que recobre a amêndoa é usada na fabricação de carvão de alta qualidade, vista por siderúrgicas como uma fonte rica, barata e sustentável para manter suas fornalhas industriais sempre acesas e qualquer outro local que necessite de um queima constante e de altas temperaturas a custo baixo, substituindo com inúmeras vantagens o carvão.

A torta que sobra da extração do óleo pode ser usada como ração animal ou aditivo para melhorar rações ou adubos naturais. Uma análise feita pela Fundação e Centro Tecnológico de Minas Gerais apontou essa castanha como a maior fonte de proteína vegetal do mundo, chegando a 42% de proteína na, a torta da polpa contribui com 9% e da castanha aproximadamente 32%; enquanto que a torta da soja (muito importante economicamente) não possui nem a metade dessa quantidade.

Como se não bastasse todas as possíveis utilizações desse ouro verde, ainda temos uma produtividade alta enquanto a soja está na faixa de dois mil quilos a dois mil e quinhentos quilos por hectare de grãos, a macaúba é uma planta perene que dura até 60 anos e chega a produzir até vinte e oito mil quilos de fruto por hectare, numa produção aproximada de 5.000 quilos de óleo por hectare,com 320 plantas/hac utilizando espaçamento de 6x6m. É a oleaginosa mais produtiva que temos conhecimento na literatura e ainda nem foi domesticada ou estudada com profundidade!

A Macaúba é planta nativa, portanto, sua plantação poderá enquadrar as propriedades rurais nos 20% de área obrigatoriamente necessário de reserva natural de preservação permanente e assim como o que ocorreeu com os seringais no interior de São Paulo, áreas de pouco valor econômico no passado, hoje devido a plantação das seringueiras, tem um valor de mercado elevado e que não só gera rentabilidade pela extração do látex mas também auxilia o agricultor a conseguir taxas mais brandas nos bancos, certificados ambientais, facilidade maior na obtenção do crédito e por fim um importante papel dentro da sociedade.

Quando pensamos em grandes áreas plantadas, por longos períodos de tempo, qualquer empresário irá rapidamente vislumbrar possibilidades para o seqüestro de carbono, para esses empresários basta saber que devido a denso volume da copa de suas árvores, a macaúba estabelece números muito próximos daqueles encontrados no cultivo do dendê no Norte do país!

O programa do Biodiesel promovido pelo governo federal se respalda em ser sustentável, economicamente e socialmente, gerando distribuição de rendas.
O mercado que se abre para os óleos vegetais  na mistura com o óleo diesel ou na totalidade do biodiesel (B100), consegue tirar a macaúba do abandono e transformá-la numa geradora de empregos e renda para os produtores rurais, com uma grande vantagem: é a única forma viável pela quantidade de produção de óleo (5.000 quilos/hectare) e pelo baixo custo que não se opõe ao consumo humano e que ainda pode gerar distribuição efetiva de renda. Enfim, o ouro verde foi encontrado. Basta extraí-lo.

Jose Wilson Ricciardi é diretor da Ricciardi Consultoria e Desenvolvimento Empresarial e pesquisa há 6 anos a macaúba e suas diversas possibilidades.
ricciardi@ig.com.br

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