convidado

Biocombustíveis no Brasil: chances e desafios


José Geraldo Eugênio de França - 19 nov 2010 - 08:39 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:15

Entre os grandes problemas da humanidade para os próximos 40 anos, as questões sobre água, alimentos, energia e meio ambiente são, certamente, as maiores. Em 2050 a terra terá 10 bilhões de habitantes.

Com relação aos alimentos, o Brasil será um país próspero. Seremos um país rico, porque seremos o principal produtor de alimentos do mundo. Mas nós não temos a responsabilidade de produzir alimentos baratos para ninguém. Muita gente criticou os Estados Unidos quando, há algum tempo, eles decidiram fazer etanol de milho.

Entretanto, quem tem  que dizer o que deve ser feito do milho produzido nos Estados Unidos são eles. Se eles fazem pipoca, corn flakes, farinha ou etanol, é um problema deles. Por razões de interesse nosso, temos que deixar claro que o nosso crescimento de bioenergia não tem implicações na produção de alimentos.

No que diz respeito à energia, se hoje tivéssemos essa frota de veículos andando com gasolina, nós não saberíamos de onde tirar dinheiro para pagar. Então, somente esse motivo já justifica o Proálcool e o programa de biodiesel. Com relação ao biodiesel, ainda não temos o resultado que desejamos, mas, certamente, teremos. Não tenho dúvida de que chegaremos lá. Os cenários são brilhantes. A demanda de energia no mundo é crescente, e as reservas mundiais são limitadas. É uma conta bancária da qual somente se retira.

A reserva brasileira de petróleo, hoje, vive a euforia do Pré-Sal. Ele é importante, mas é uma riqueza que está a sete mil metros de profundidade, e nós estamos tratando de outra riqueza que está a apenas um metro de profundidade, que é o perfil das raízes da cana-de-açúcar. Acho que os preços do petróleo de US$ 80 apontados pelas consultorias são conservadores. Na primeira crise, ele volta para a casa dos US$ 150.

E, em decorrência das pressões sociais e ambientais associadas, nós temos que procurar outras opções para produção energética renovável. A matriz energética dos EUA tem apenas 7% de renováveis; os países da OCDE atingem 7,2%; a média do mundo é de 12,7%, enquanto o Brasil alcança 47,3%. Não há nada equivalente. Esse percentual é assim formado: 15,3% pela hidroeletricidade, 18,1% pela cana-de-açúcar, 10,1% por lenha e carvão vegetal e 3,8% por outras formas.

A produção mundial de etanol em 2008 foi de 65,6 bilhões de litros, 73,9 bihões em 2009 e projeta-se que seja de 85,9 bilhões de litros em 2010, com quase 90% da produção mundial centralizadas nos EUA (52%) e no Brasil (37%).  A União Europeia responde por algo próximo a 4%, China 3% e Canadá por 1,5%. A vantagem competitiva no balanço energético da produção do etanol de cana é imensa.

Enquanto a cana tem uma razão de oito pontos de energia produzida por energia demandada, o trigo, milho e beterraba vão, na ordem, entre um e quase dois. Não há comparação. Várias universidades estrangeiras publicaram artigos dizendo que não havia quase nenhuma eficiência em produzir o etanol da cana-de-açúcar. Isso é uma falsa ciência querendo nos perturbar e intimidar. Entretanto, tudo que se falou em etanol de segunda geração até este momento foi apenas o rufar dos tambores.

A batalha começa agora. Os Estados Unidos estão dizendo que em 2012 é que começam para valer. Espero que ninguém duvide disso, como quando eles falaram que iriam produzir etanol de milho. É bom que fiquemos atentos. Eles não vão querer comprar etanol do Brasil. Querem produzir o seu próprio etanol de celulose. E, se não o fizermos, nós é que vamos comprar etanol de celulose dos Estados Unidos. 

Do ponto de vista biológico, temos aqui uma contradição séria. Estamos nos dando ao luxo de chamar de bagaço um produto nobre, com carboidratos complexos, que é a celulose, a n-celulose e a lignina. E o pior, de queimá-lo. Temos que ver isso como um ciclo que foi passado, temos que mudar essa situação.

Para se produzir uma molécula de celulose, temos  plantas mais eficientes do que a cana. As gramíneas são uma família maravilhosa, do ponto de vista botânico, porque são uma C4, mais eficiente do ponto de vista energético, fotossintético. Então, produzir uma molécula de açúcar a partir de um sorgo ou de um capim-elefante é muito mais eficiente do que produzi-la a partir do gênero saccarum.

Nossa leitura é que o etanol, no futuro, não vai ser feito apenas da cana. Vai dividir espaço com outros dois grandes gêneros da família das gramíneas: o sorgo e pennisetum. Com eles, passamos a ter mais eficiência do que qualquer cenário dos EUA. O nosso capim-elefante produz cinco vezes mais eficientemente que o miscanthus dos Estados Unidos; o sorgo, "n" vezes mais. Temos a possibilidade de continuarmos sendo a liderança nas próximas décadas. Mas nós temos que ver isso com cuidado. Entramos agora em um período de guerra. Estamos em um período de risco.

As fontes de biomassa das biorrefinarias serão não apenas resíduos industriais, mas também árvores, capins, culturas agrícolas, resíduos. Nossa visão de futuro é que teremos que cultivar plantas para produzir esse etanol celulósico, através dos processos de conversão pela fermentação enzimática, fermentação gasosa/líquida, hidrólise ácida/fermentação, gaseificação, e os outros processos envolvendo queima - tecnologias essas ultrapassadas.

Estamos em uma fase preliminar da alcoolquímica, do aproveitamento desses carboidratos e vamos ter que trabalhar muito fortemente essas instituições, com diversos produtos muito mais valiosos que etanol para combustível. Temos que investir na microbiologia industrial, na genética, na bioquímica, na biofísica, porque é de lá que sai a grande parte das enzimas modificadas ou não, que vão para esse processo de degradação dos carboidratos.

As enzimas celulolíticas são a chave para o desenvolvimento do etanol celulósico, produzidas por micro-organismos geneticamente melhorados para a conversão dos açúcares agregados na celulose, presente nas plantas em pentoses e hexoses. Incentivo para que tenhamos grande atenção para esse assunto e para que sejam dirigidos  investimentos para essa nova realidade.

Temos que ser eficientes e complementares, trabalhando de forma conectada para otimizarmos os recursos de cada um. Temos no Brasil quatro grandes instituições trabalhando nesse processo: o Cenpes da Petrobras, o CTBE - Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, o CTC - Centro de Tecnologia Canavieira, em associação com a Novozymes, e a Embrapa Agroenergia.

Planejamos ter na Embrapa Agroenergia, permanentemente, de 20 a 30 pesquisadores dedicados a processos, pois as pesquisas em termos de produtos serão conduzidas pelas outras instituições.

Por último, gostaríamos de chamar a atenção para os nossos desafios: a intensificação nas ações de coletas, conservação e acessos a coleções de germoplasmas; a consolidação do zoneamento agroecológico; a associação da melhoria de fatores qualitativos (maiores teores de óleo, açúcares, amido, proteinas, etc.); aos fatores quantitativos de melhoria de produtividade; uso de marcadores moleculares em seleção assistida para apoio ao melhoramento tradicional; utilização da transgenia visando à tolerância a fatores bióticos e abióticos; potencialização do uso da genômica e utilização das ferramentas da bioinformática no melhoramento; uso de técnicas nanotecnológicas como instrumentos auxiliares nos processos de seleção e melhoramento; estudos específicos para culturas energéticas, incluindo novas opções de GRA oleaginosas e outras espécies para produção de etanol e biodiesel; seleção e desenvolvimento de cultivares mais eficientes no uso de inoculantes com bactérias diazotrópicas; ampliação de estudos em essências florestais nativas e exóticas visando a florestas energéticas e produtos da madeira; e, por último, tecnologias visando ao aumento da produção integrada de alimentos e biocombustíveis com sustentabilidade (plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta).

José Geraldo Eugênio de França é Diretor Executivo da Embrapa