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É tempo de pensar no combustível do futuro

Um grande número de combustíveis alternativos deverá surgir como opção ao petróleo caro, nas próximas décadas. Poucos, porém, deverão ser os escolhidos para ocupar, gradativamente, o lugar dominante hoje reservado aos derivados petrolíferos.
Valor Online 5 min de leitura
Um grande número de combustíveis alternativos deverá surgir como opção ao petróleo caro, nas próximas décadas. Poucos, porém, deverão ser os escolhidos para ocupar, gradativamente, o lugar dominante hoje reservado aos derivados petrolíferos. Essa é a principal razão do engajamento apaixonado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha pelo biocombustível desenvolvido no país. Não é uma campanha nascida do entusiasmo do presidente com alguma palestra casual ouvida no Palácio do Planalto. É projeto de governo para além do segundo mandato de Lula e uma das prioridades do discreto Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência, o NAE.

Foi gerada no NAE também a idéia aventada por Lula, em conversa com o líder oposicionista Arthur Virgílio (PSDB-AM), de um conselho de ex-presidentes, para discutir e atuar nas grandes questões nacionais. Só que, como explica o chefe do NAE, coronel Oswaldo Oliva Neto, a idéia acalentada pelo núcleo é a formação de um conselho com ex-presidentes dos três poderes e não para "assessorar" o presidente da República, como chegou a ser anunciado, mas para traçar projetos suprapartidários em torno das principais questões nacionais.

"O conselho seria autônomo e criaria projetos de Lei de Responsabilidade Estratégica, para orientar o rumo de políticas públicas nos governos federal, estaduais e municipais", explica Oliva Neto, que vê nesses projetos de políticas nacionais um modo de reduzir a dispersão de esforços e o desencontro de ações nos vários níveis de governo. Pesquisas de opinião realizadas pelo NAE constataram que a população vê a melhoria da educação básica como o principal problema a ser resolvido para fazer do Brasil um país desenvolvido nos próximos 15 anos. Bom assunto, portanto, para o conselho de ex-presidentes do Executivo, Legislativo e Judiciário. Logo a seguir, outro problema é a definição da matriz de combustíveis nacional - quais produtos usar para fazer funcionar máquinas e meios de transporte no território brasileiro.

Esse último tema, o futuro da matriz energética brasileira, foi objeto de estudo patrocinado pelo NAE, com Grupo de Economia da Energia do Instituto de Economia da UFRJ e o Centro de Gestão de Estudos Estratégicos do Ministério de Ciência e Tecnologia, que será apresentado hoje, em Brasília. "Temos de transformar nossa opção tecnológica pelo etanol, o biodiesel e o Hbio em padrão mundial, senão o aumento no preço de petróleo pode levar a encontrarem diferentes alternativas", comenta o coronel Oswaldo Oliva Neto.

O estudo da UFRJ, coordenado por Helder Queiroz Pinto Júnior, avalia que, até 2022, o petróleo e seus derivados continuarão a ser as principais fontes de energia usadas para diversas finalidades, do uso industrial aos transportes, mas que a estabilização dos preços do barril acima de US$ 40 deverá viabilizar alternativas para a matriz energética. "Existe um número elevado de alternativas (de produção de combustíveis) que passarão por um processo de seleção e convergência, ao final do qual algumas serão escolhidas em detrimento de outras", diz o estudo.

Preço deve viabilizar alternativas ao petróleo

No caso do Brasil, o estudo do NAE prevê a necessidade de maior coordenação no governo e intervenção estatal no setor de biocombustíveis, para evitar que a tentação do mercado externo ameace seriamente a segurança do abastecimento interno. Os especialistas recomendam também a criação de uma rede de pesquisadores, executivos e órgãos públicos vinculados à pesquisa e uso de biocombustíveis, a exemplo do que foi feito com o gás natural no projeto conhecido como Redegás.

Um mundo possível, com o barril do petróleo cotado acima de US$ 80, poderá até exigir imposição de cotas de exportação para o etanol, prevê o estudo. Oliva sugere a criação de uma agência autônoma interministerial, vagamente parecida com a atual Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), para concentrar e coordenar as ações do governo nesse novo mundo dos biocombustíveis. Uma questão crítica será a definição dos impostos sobre os combustíveis, que ditarão os preços relativos do setor e conduzirão as preferências dos consumidores. A tributação terá de ter transparência e podem ser necessários subsídios para viabilizar combustíveis alternativos, diz o NAE.

Os indicadores mundiais mostram um crescimento dos preços do combustível fóssil, que tornará atrativas as alternativas em estudo - do etanol à célula de hidrogênio. Nesse cenário, recomendam os especialistas, o que importa é prever o preço dos combustíveis líquidos que irá acender o interesse pelas alternativas ao petróleo convencional (sabendo que o avanço dos preços e das tecnologias tende a tornar "convencional" o que antes parecia ficção científica).

O estudo mostra que, apesar das incertezas em relação ao fornecimento (como bem mostra a Bolívia nacionalista), não há como negar um papel importante ao gás natural na matriz energética brasileira. Na hipótese mais otimista, o país chegaria a 2022 consumindo 140 milhões de metros cúbicos só em gás natural para uso de veículos; no cenário mais pessimista, a demanda pelo produto seria de 65 milhões de metros cúbicos diários, cerca de uma vez e meia o consumo atual.

Em todos os cenários, o Brasil tem experiência, vantagens comparativas e competitivas para a produção e comercialização do etanol e biocmbustível - que, como apontam os especialistas, permitiria a liderança do Brasil não só na produção e exportação do combustível como na venda externa de serviços e soluções tecnológicas ligadas ao setor.

Há muitos desafios e incertezas ligados aos projetos de mudança da matriz energética nacional, com ênfase nos biocombustíveis. O mérito da iniciativa do NAE é mostrar que, por mais importante que sejam os sinais de mercado, o país tem de se preparar para ter parte ativa nas definições sobre o futuro do mercado de combustíveis, com decisões que terão de ser tomadas já no próximo ano e poderão determinar que país teremos no ano do bicentenário da Independência.

Sergio Leo
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