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Empresa cearense testa bioquerosene para a Boeing

A empresa acaba de fechar um contrato com a Boeing para realização de testes com bioquerosene, combustível de origem totalmente vegetal, para futura utilização em aeronaves.
Gazeta Mercantil 6 min de leitura
Boeing vai testar bioquerosene, nos Estados Unidos, para utilização em aeronaves. Pioneira no fornecimento de projetos e equipamentos para usinas de biodiesel, a Tecbio - Tecnologias Bioenergéticas, de Fortaleza, já não depende apenas do Brasil para a expansão dos negócios. A empresa acaba de fechar um contrato com a Boeing para realização de testes com bioquerosene, combustível de origem totalmente vegetal, para futura utilização em aeronaves.

"Buscamos uma solução para substituir o querosene de petróleo, responsável por grande emissão de CO2, principalmente em função do aquecimento global", adianta o engenheiro químico e professor Expedito Parente, presidente da Tecbio, criador e um dos mais respeitados especialistas em biodiesel do país.

No período inicial de testes, as quantidades de bioquerosene serão pequenas, mas o volume tende a evoluir de forma expressiva nas fases subseqüentes, informa o professor. O prazo mínimo previsto para os testes, realizados na sede da companhia em Seattle, Estados Unidos, é de um ano, podendo crescer em função das exigências e resultados do projeto.

Diferente do biodiesel, o bioquerosene tem características especiais: é extraído de óleos selecionados de palmeiras, amêndoas ou coco, por exemplo, e leva aditivações para atender as exigências do querosene, mas mantém a vantagem de ser 100% não-poluente.

Segundo Parente, o interesse da Boeing é puramente técnico e científico, ligado ao futuro de todos, pois a companhia não demonstra interesse na produção do bioquerosene. Na prática, a iniciativa embute a possível homologação do novo combustível pelas próprias compa-nhias e pelos fabricantes de motores e turbinas. "Um avião fabricado hoje vai voar por mais de 30 anos, mas como ficará o fornecimento de petróleo? Por isso, é preciso pensar adiante", diz Parente.
Ele acredita que a Boeing deverá chamar também outras empresas do setor para participar do processo. A companhia tem acordo de colaboração científica com a Nasa, agência espacial norte-americana, também interessada nesse tipo de combustível limpo.

O acordo com a Boeing começou a ser desenhado ainda em dezembro de 2005, quando a Tecbio ficou conhecida na imprensa internacional ao receber, na China, prêmio das Nações Unidas pelo trabalho Reflexões sobre Biodiesel e Bioquerosene.

"Fomos convidados para uma reunião, onde discutimos a possibilidade de um acordo com a companhia para desenvolvimento do novo biocombustível", conta Parente. No ano seguinte, foi acertado um primeiro contrato, com base em ações de conhecimento.

Tecnologia


No exterior, as propostas de negócios da empresa brasileira contemplam também o licenciamento de tecnologia para companhias européias dispostas a produzir biocombustível. Desde 2006, a Tecbio mantém contrato com a Tomsa, metalúrgica que desenvolve equipamentos e processos para o setor petroquímico. A empresa atua também na África e parte da Ásia, com venda de unidades de processamento e busca "tropicalizar" o processo de fabricação do biodiesel, para poder atingir esses mercados.

De acordo com Parente, a movimentação em torno do biocombustível envolve hoje os mais diversos tipos de negócios: "Há grupos estrangeiros comprando terras para plantar no Brasil, extrair óleo e mandar o produto para a produção do biodiesel no país de origem."

A produção do biodiesel no Brasil para exportação e mesmo a aquisição do produto acabado de companhias nacionais também faz parte das propostas de empresários europeus. "Os arranjos produtivos são os mais variados e a tendência é de crescimento", observa.

O professor Expedito Parente ainda não fez as contas de quanto o mercado de bioquerosene poderá movimentar, mas sabe que o espaço é muito grande, principalmente por questões ambientais. "Somente nos Estados Unidos, o querosene de aviação representa 2,5% de todo o consumo de petróleo", assinala.

Conforme Parente, como a queima do querosene mineral provoca "pulverização espacial", que contribui para o efeito estufa, hoje já se pensa em acrescentar na passagem um imposto ambiental extra. "Isso já vem sendo falado na Europa e, certamente, vai antecipar esforços para a viabilização de uma alternativa de energia limpa", prevê.

Responsável pelo desenvolvimento de projetos, controle de construção dos equipamentos em aliança com metalúrgicas, montagem e todos os demais serviços técnicos, a Tecbio liderou o ranking em número de plantas de biodiesel fornecidas ano passado, somando o equivalente a 600 milhões de litros de biodiesel, segundo o professor Parente. "Como o programa do B2 é de 900 milhões de litros, estamos bem perto de fechar essa conta", afirma.

Entre os projetos, está o da usina da Brasil Ecodiesel, inaugurada oficialmente na semana passada, em Crateús, interior do Ceará, na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com capacidade de produzir 118,8 milhões de litros/ano.

A Brasil Ecodiesel já tem usinas em Floriano, no Piauí, e Iraquara, na Bahia. Esta última tem inauguração marcada para o próximo sábado. E prevê outras quatro ainda este ano no País, todas com tecnologia da Tecbio.

"Vamos inaugurar uma grande usina a cada mês. Serão seis no total este ano", acrescenta Parente. Em maio, mais uma unidade da Brasil Ecodiesel vai operar na área do Distrito Industrial do Porto de Itaqui, em São Luiz. Essas unidades, seqüencialmente projetadas pela empresa, têm capacidade nominal de 360 mil litros de biodiesel/dia.

Toda essa movimentação assegurou à Tecbio receita da ordem de R$ 18 milhões no ano passado, considerando apenas os serviços. "Estamos crescendo muito rapidamente. Multiplicamos o faturamento por 5 a cada ano", observa Parente, ao apontar que ainda há muitos projetos em processo de análise e desenvolvimento.

Pelas contas do professor, o programa de biodiesel no Brasil movimentou R$ 3 bilhões somente no ano passado. Nessa soma ele inclui valores das usinas vendidas, matérias-primas adquiridas e leilões da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Na geração de novos empregos diretos foram 215 mil, considerando apenas a agricultura familiar.

Parente diz que o maior desafio hoje talvez seja o de calcular quanto custa não produzir o biodiesel. "Essa é uma conta que começa pelo custo social, provocado pela carência de emprego e renda entre pequenos agricultores, segue com o prejuízo do efeito estufa, de substituição de petróleo e por aí vai", aponta o professor, que já foi sondado para orientar uma tese sobre o tema.

Adriana Thomasi
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