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A revolução energética verde

O sucesso do etanol e do biodiesel fazem o Brasil alcançar a independência nos combustíveis alternativos para veículos
El País 5 min de leitura
O sucesso do etanol e do biodiesel fazem o Brasil alcançar a independência nos combustíveis alternativos para veículos

Um dos poucos países do mundo onde a cotação do barril de petróleo deixou de ser notícia é o Brasil. Este ano foi concluído um projeto que começou há três décadas e cujo ápice foi anunciado em abril passado numa plataforma de petróleo a 120 quilômetros da costa do Rio de Janeiro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva: o Brasil deixou de ser dependente de petróleo importado.

Lula inaugurou então uma nova plataforma de extração de cru, com uma produção de 1 milhão de barris diários. Mas o verdadeiro segredo da independência energética do Brasil foi uma ativa política de pesquisa sustentada e sua entrada paulatina no mercado, que permitiu que mais de 40% do imenso parque automobilístico brasileiro se movimente total ou parcialmente graças ao etanol, um álcool obtido da cana-de-açúcar que é utilizado como combustível.

A busca de energias alternativas talvez seja uma das demonstrações mais claras das políticas de Estado seguidas no Brasil. Iniciada nos anos 70 pela ditadura militar, depois da crise do petróleo continuou em todos os governos democráticos de diversas tendências que se seguiram. A entrada do álcool no mercado energético foi feita sem incentivar diretamente o consumidor com nenhum tipo de vantagem. O preço do álcool nos postos de serviço é 70% o da gasolina, mas o governo não o regula e intervém unicamente na mistura de etanol e gasolina que deve existir em um litro.

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de etanol, mas o crescimento de seu consumo foi tão rápido que já em 1989 ocorreram as primeiras crises de abastecimento; atualmente 25 mil postos de combustível do país fornecem álcool para veículos. Em 1997 foi fundada a União Agroindustrial de Cana de São Paulo (Unica), uma organização que reúne cerca de cem empresas produtoras. "Quase tudo o que produzimos se destina ao consumo interno", diz Antônio de Pádua Rodrigues, diretor da Unica, que prevê que nos próximos cinco anos o consumo de álcool combustível chegará aos 20 bilhões de litros por ano.

Rodrigues salienta as vantagens ecológicas que representa o cultivo de cana-de-açúcar, que não exige muita água - na prática só é irrigada artificialmente no vale do São Francisco, na Bahia -, sendo suficiente a água da época das chuvas, de janeiro a março.

"Atualmente toda a gasolina vendida é misturada com 20% de álcool e os produtores querem que essa porcentagem seja aumentada para 25%", diz Benedito Carlos Cavalcante, supervisor de combustíveis do estado de São Paulo. E não só isso: mais de 2,5 milhões de veículos circulam diariamente pelas cidades do Brasil utilizando álcool e outros 2 milhões usam um sistema chamado flex, que lhes permite funcionar com álcool ou gasolina. Uma firma italiana acaba de lançar no mercado brasileiro um veículo com um motor que funciona com três tipos de combustíveis ecológicos. E a proporção continuará aumentando de forma incontível. Mais de 80% dos carros vendidos no Brasil podem usar etanol.

O passo seguinte é o biodiesel, obtido a partir de vegetais (soja, girassol, rícino, amendoim, semente de algodão, palma) e que a partir de 2008 será misturado em 2% com todo o combustível diesel comercializado, porcentagem que aumentará para 5% em quatro anos. Mas já circulam experimentalmente veículos com 30% de mistura de biodiesel.

E no sudeste do Brasil está sendo construída uma usina de produção de biodiesel que a partir do próximo ano produzirá 48 milhões de litros do combustível. "Tecnicamente creio que já seja possível eliminar da circulação os veículos a gasolina", opina Cavalcante. "O que acontece é que aqui já enfrentamos o mercado. Não creio que a substituição total ocorra antes de dez anos", acrescenta.

Para 2010 está previsto que o Brasil alcance uma produção de 26 bilhões de litros de etanol, contra os atuais 16 bilhões. Segundo o ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, dessa cifra cerca de 8 bilhões de litros serão dedicados à exportação. Para esse horizonte de 2010, o Brasil terá 50 usinas em operação com uma capacidade de 2,58 bilhões de litros de biodiesel por ano, contra os 800 milhões de litros atuais.

Mas o setor energético brasileiro apresenta um ponto frágil: 50% do gás que se consome diariamente no país procedem da Bolívia, em pleno conflito com a petroleira estatal Petrobras e com uma instabilidade institucional e jurídica recorrente. Esse é o fator pelo qual as autoridades e a indústria decidiram se inclinar pelo etanol e não pelo gás natural como combustível automotor. Além disso, praticamente toda a indústria de etanol é brasileira, sendo a presença estrangeira quase nula. De fato, os empresários brasileiros já pensam em exportar um sistema que se revelou um sucesso. "Pensamos na África", revela Rodrigues. "Tem um grande potencial e um clima parecido com o nosso, mas há necessidade de investimentos e tecnologia."

Jorge Marirrodriga
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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