BiodieselBR
Publicidade

Novos combustíveis diminuem poluição e dependência do petróleo

Biodiesel, álcool e hidrogênio oferecem opções renováveis e credenciam Brasil como potência no setor energético.
IDG Now! 7 min de leitura
Biodiesel, álcool e hidrogênio oferecem opções renováveis e credenciam Brasil como potência no setor energético.

Qualquer filme que se proponha a retratar o futuro com visão apocalíptica esbarra na imagem de um planeta corrompido pela guerra, devastado pelas conseqüências da tecnologia e tomado pela poluição.

Analistas do setor energético são pontuais quanto ao esgotamento das fontes fósseis para o mercado de combustíveis. Os números atuais indicam que os campos de petróleo poderão se tornar impraticáveis com as necessidades humanas perto de 2050.

Hoje o petróleo já aponta para crises referentes ao possível esgotamento. As pressões jogaram seu barril para o preço recorde de 78,40 dólares em julho deste ano, além de acaloradas discussões sobre seu impacto ambiental.

Substitutos do petróleo

Por irônico que pareça, o país que mais aprendeu com a crise dos anos 70 e com a crescente tensão em torno do petróleo foi o Brasil. O País vem investindo há décadas no álcool. Em recente passagem pelo Brasil, os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, fizeram sua única visita oficial à Usina Costa Pinto, em Piracicaba, interior de São Paulo.

Em 1975, o governo brasileiro anunciou a criação do Programa Nacional do Álcool, que previa investimentos do governo militar no desenvolvimento de um anidro derivado da cana de açúcar que pudesse ser usado em veículos, além de incentivos a montadoras para a adaptação da frota de veículos.

Passados 31 anos, os efeitos do Pro-Álcool são evidentes no mercado brasileiro. Atualmente, a gasolina vendida em postos tem 20% de álcool em sua composição e o País já exporta tecnologia para a Europa, segundo Evandro Montovani, chefe da secretaria de gestão e estratégia da Embrapa.

Mesmo com três décadas de desenvolvimento, frutos econômicos provenientes do programa Pro-Álcool começaram a aparecer apenas nos últimos meses, com os motores Flex liderando as vendas.


Tecnicamente, os motores Flex fazem o milagre de queimar misturas de álcool e de gasolina sem prejudicar o veículo graças à engenharia que agüenta as explosões de combustível de maior octanagem, sem ser prejudicada pela água presente no álcool.

Catarina Pezzo, coordenadora de projetos do Pólo Nacional da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba, afirma que os carros Flex são um caminho sem volta.

“Hoje em dia, mais de 90% dos veículos vendidos no Brasil são Flex; Um dia, este tipo de motor estará presente em toda a frota”, antevê Pezzo.

A aposta no biodiesel

Entre a guerra política que envolve o petróleo e os devaneios sobre fontes energéticas que usem recursos naturais, como o vento e o Sol, a nova vedete do setor de energia também é criação genuinamente brasileira.

Iniciado na década de 80 pelo pesquisador Expedito Parente, em um projeto conduzido para o Ministério da Aeronáutica, o biodiesel utiliza óleos de sementes facilmente encontradas na flora brasileira e gordura animal como fonte energética.

Mais que um devaneio “hippie”, o biodiesel já é realidade em pontos específicos do Nordeste brasileiro e começa a se credenciar como forte concorrente a substituto do petróleo tanto pela fácil reposição como pelo baixo custo e o impacto quase inexistente no meio-ambiente.

Sementes de vegetais diversos, como mamona, girassol, canola, dendê, amendoim e algodão, são prensadas para se obter o óleo que, após processos industriais, é acrescido de etanol e de catalisadores para que seja usado como combustível.

Ao invés de liberar, como faz a queima do combustível fóssil, o processo de fabricação do biodiesel “seqüestra” monóxido de carbono da atmosfera, explica o pesquisador Napoleão Beltrão, chefe-adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Algodão, em Pernambuco.

O consumo de monóxido de carbono, responsável pelo famoso efeito estufa, faz com que o biocombustível, em palavras técnicas, mantenha a “média de carbono”, consumindo tanto quanto produziu.

Biodiesel na prática

Mesmo com exemplos pontuais já em ação, a implementação prática do biodiesel começa efetivamente em 2008, quando postos de abastecimento terão de vender diesel do tipo B2, com acréscimo de 2% de biodiesel em sua composição.

Em 2013, a relação fixada pelo governo sobe para 5%, por meio do B5. A mistura, chamada de HBio, significará uma economia na importação de 2,5 bilhões de litros de diesel por ano no Brasil, segundo Montovani, e poderá abrir portas para procedimentos semelhantes com a gasolina para veículos de passeio.

Tecnicamente, o biodiesel pode ser usado em todas as principais aplicações atuais da gasolina, como carros, aviões, trens e navios, sem qualquer tipo de perda na potência ou influência no bolso do consumidor.

O obstáculo até este cenário responde por implicâncias econômicas: como ainda não há escala de produção, seria difícil justificar investimentos para substituir toda a frota de transporte brasileira que hoje usa gasolina.

“Queremos cultivar a idéia de que grandes nações correm ao Brasil por ajuda, já que só a produção nacional não pode atender a demanda mundial”, explica Montovani, antevendo a dependência de outras nações por tecnologia nacional como caminho para a liderança do Brasil no setor.

“É preciso interesse de montadores e empresas de logística. Temos um consumo anual de 36 milhões de metros cúbicos de diesel”, afirma Mauro Iruk, consultor -sênior da Petrobras na área de combustíveis.

“No começo do Pro-Álcool, o álcool também era muito mais caro que a gasolina. O biodiesel ainda está neste patamar”, cita Iruk, exemplificando um círculo vicioso do setor de combustíveis orgânicos.

Beltrão traça a ousada estimativa que “o Brasil poderá se tornar a maior potência energética do mundo em até cinco anos, amparada pelo etanol e pelo biodiesel”.

“Além de já dominar a tecnologia, ainda temos no Brasil 100 milhões de hectares para agricultura de alto nível, mais de 200 espécies de plantas que podem ser usadas na fabricação de óleo e restos de carcaça do maior rebanho comercial do mundo”, afirma.

Investimentos da Petrobras

Para que o Brasil tire o título de “candidato a potência energética” do papel, a Petrobras pretende investir 700 milhões de dólares em programas de energia renováveis conduzidos pelo Programa Tecnológico de Energias Renováveis, fundado em 2004.

O grosso do investimento estará entre o HBio e o biodiesel, as meninas dos olhos da Petrobras. A partir de 2008, três usinas no Nordeste começarão a funcionar com estimativa de produção anual de 144 milhões de litros de biodiesel.

A companhia estima que, em três anos, a produção dos três complexos, instalados no Ceará, Minas Gerais e Bahia, aumente quase seis vezes, pulando para 855 milhões de litros de biodiesel.

“Além disto, investiremos na melhoria do diesel usado atualmente, diminuindo o enxofre em sua fórmula, e em centros de pesquisa que testem diferentes usos e motores para o biodiesel”, adianta Iruk.

Tais investimentos também podem ser encarados como estímulo ao mercado de agricultura familiar.

“São 4 milhões de hectares que podem ser usados para a plantação de mamona, com o uso de três empregados por hectar, o que dá 1,2 milhão de empregos só com esta planta”, calcula Beltrão. “A produção de biodiesel tem um enorme apelo na geração de emprego”.

“Mesmo ainda sem demanda de mercado, a Petrobras tem comprado biodiesel em leilão para estocar e garantir a formação de um futuro mercado independente de matéria-prima”, revela Iurk.

Hidrogênio e energia elétrica

Não é apenas de biodiesel, no entanto, que vive o futuro dos combustíveis para automóveis. O principal antagonista do sistema desenvolvido pelo Brasil combina o hidrogênio com energia elétrica para alimentar o veículo.

Carros-conceito já apresentados nos Estados Unidos, como o RX-8 Hydrogen RE, da Mazda, e o Sequel, da General Motors, utilizam células internas de hidrogênio que podem ser queimadas, assim como combustíveis fósseis, ou transformadas em energia elétrica.

Como não estão finalizados, ambos os sistemas ainda apresentam falhas que impedem suas aplicações comerciais, como o alto preço para armazenamento de células de hidrogênio ou a baixa potência disponível em carros elétricos.

O uso do hidrogênio ainda tem outra implicação: a quantidade de poluentes produzidos por sua combustão é pouco inferior em relação ao derivado da gasolina, o que dificulta investimentos em massa no sistema.

Carros que rodam por meio de energia elétrica já estão até disponíveis no mercado, como o híbrido Prius, da Toyota, que alterna eletricidade e gasolina. Segundo dados da própria Toyota, a mistura resulta em queda de 90% na emissão de poluentes, com capacidade de atingir 120 quilômetros por hora.

Por Guilherme Felitti, repórter do IDG Now!
Compartilhar: