A soja e outros produtos que têm os preços dolarizados podem se beneficiar com a possível mudança no câmbio, já na comercialização da próxima safra. Mas o melhor virá a médio prazo, com perspectivas muito favoráveis para a soja, por causa do h-bio, programa desenvolvido pela Petrobrás, que prevê a mistura do óleo vegetal bruto no petróleo bruto.
A afirmação foi feita pelo ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, em entrevista exclusiva ao A Cidade Ribeirão Preto, a primeira entrevista por ele concedida após deixar o Ministério. O ex-ministro avalia estar confiante de que “já atravessamos o fundo do poço da crise da agricultura”.
Referindo-se às medidas estruturantes que espera sejam adotadas, entre elas o seguro rural, afirma que “o governo está cuidando disso e, se Deus quiser, com os instrumentos que estão sendo colocados em discussão, e que com o tempo irão se aperfeiçoando, não teremos mais crise dessa natureza”.
Em seguida à transmissão do cargo para Luís Carlos Guedes Pinto, em Brasília, Roberto Rodrigues participou de um congresso na Alemanha. Depois, recolheu-se à sua fazenda, em Guariba. Foi onde ele concedeu esta entrevista:
- Quais as perspectivas para a agricultura nacional?
O Brasil é um país com uma condição agrícola absolutamente espetacular. Temos hoje 62 milhões de hectares cultivados. Com pastagem, temos 220 milhões de hectares, dos quais 90 milhões são passíveis de uso pela agricultura. Tudo isso, sem precisar mexer na Amazônia ou outra área florestal. Podemos multiplicar por uma vez e meia a área agricultável do Brasil. Portanto, para nós é essencial que se dê a abertura comercial, porque este é o canal para desenvolver o País.
- O biodiesel e o h-bio podem reanimar o produtor de soja?
O biodiesel é um projeto de mais longo prazo, em que o governo tem interesse muito forte na questão social. Então tem sido mais vigorosamente tratado, por essa posição do governo, como assunto ligado ao semi-árido nordestino.
O h-bio é diferente. É misturar óleo vegetal bruto no petróleo bruto. Até 18% de óleo vegetal misturado no petróleo permite, no refino, um biodiesel já misturado. A Petrobrás vai trabalhar inicialmente com 10%. É uma tecnologia nova, que vai tomar conta do mundo, uma coisa revolucionária. É o primeiro casamento no mundo entre a indústria do petróleo e o produtor rural, que muda de figura a questão do biocombustível. Antes a indústria do petróleo era contra, porque o seu império estava em cheque. Mas agora percebeu que, adicionando 18% de óleo vegetal no petróleo, aumenta em 18% o seu império.
- E quando começa o h-bio?
As unidades da Petrobrás que vão trabalhar nisso estão preparadas para, em 2007, comprar 1 milhão e 300 mil toneladas de soja. Ainda é muito pouco. A produção brasileira supera 55 milhões de toneladas. É uma coisa próxima de 2%. Mas dobra em 2008, vai para 2,5 milhões de toneladas, já vai para quase 5% da produção nacional de soja.
Mas o dado mais importante é que essa descoberta da Petrobrás vai permitir que outros países agrícolas, que tenham problema com o óleo, como os Estados Unidos, também venham a fazer biodiesel de soja em volumes maciços, e isso significa uma redução da oferta mundial de soja a médio prazo.
- A agroenergia é realmente uma nova perspectiva?
Não tenho dúvida de que a agroenergia se transformou num novo paradigma mundial. O império do petróleo está chegando ao seu final e, até que se chegue a uma nova fonte permanente de energia, os combustíveis de energia agrícola serão as alternativas mais lúcidas. Então o espaço para agricultura de energia é uma coisa espetacular.
O Brasil tem hoje menos de 6 milhões de hectares cultivados com cana-de-açúcar e tem, pelo menos, mais 20 milhões de hectares hábeis para cana-de-açúcar. Fora o biodiesel. Seriam necessários mais 20 ou 30 milhões de hectares para se plantar soja visando à bioenergia. De modo que o Brasil tem um potencial para agroenergia praticamente ilimitado.
É o que nos torna um país exportador de produtos agrícolas, mas também exportador de tecnologia, de equipamentos. Vendemos usina de álcool fechada, com alta competitividade. Agora, o h-bio. Há um espaço enorme para o Brasil no mundo. O que precisamos fazer é a lição de casa, nas políticas fundamentais para segurar os momentos anti-cíclicos, e o seguro rural é essencial para isso.
- Em relação à soja, o que se pode esperar?
Hoje a oferta de soja no mundo é gigantesca. Mesmo assim o preço, em dólar, está num bom patamar. O que nos afeta é a questão cambial.Mas, sem dúvida, num médio prazo, com uma mudança na questão cambial, e com o avanço mais significativo do h-bio, vamos ter, a partir do biodiesel, uma demanda que vai melhorar as condições alternativas para o produtor brasileiro de soja.
- Mas é mesmo possível a mudança cambial?
Mantega tem trabalhado na direção de criar mecanismos mais favoráveis na área cambial. Vamos ver até onde a coisa vai desembocar, mas estou com boa expectativa. No caso da soja, sem uma mudança cambial, as coisas ficam complicadas.
Os preços estão razoavelmente bons no mercado externo, pois ainda se pode vender soja a 6 dólares o bushell para o ano que vem. No ponto de vista histórico, é razoável. O problema é que, com a questão cambial brasileira, as coisas não se realizam. Imagino que este ano seja diferente, com um fator adicional favorável: os preços dos insumos caíram e é possível, assim, que o custo de produção seja menor.
Capital estrangeiro deve vir para logística e estrutura
Para Roberto Rodrigues, “o mundo está num momento positivo, com um volume de dinheiro enorme, uma liquidez gigantesca, buscando áreas de investimentos. Aqueles países que demonstrarem equilíbrio, estabilidade, política e econômica, sem dúvida, serão os beneficiários dessa grande massa de recursos de que o mundo dispõe hoje. Então, temos uma boa chance de nos transformarmos num dos receptores desses recursos universais”.
- O Brasil está nesse caminho?
Está. Sem dúvida, está garantida a estabilidade econômica brasileira, sem perigo de inflação. As regras macroeconômicas estão todas bem colocadas. O juro, que é um dos problemas nossos, que de certa forma alimenta a questão cambial, que é outro problema para o produtor brasileiro, começa a ir para um patamar menos íngreme. De modo que as variáveis macro-econômicas estão dadas para a atração de capitais, e o Brasil precisa disso na verdade.
O que temos hoje de grande demanda para um crescimento espetacular é logística e estrutura. Então precisamos de capital estrangeiro para investir nessa área.
“Abertura comercial por necessidade da paz”
Roberto Rodrigues, falou também sobre sua participação no Encontro Econômico Brasil-Ale-manha, no qual esteve logo após deixar o Ministério da Agricultura.
“É uma câmara de relações Brasil-Alemanha. Aliás, são várias câmaras, inclusive uma de comércio. E este conjunto de câmaras anualmente oferece o prêmio ‘Personalidade do Ano’ para um alemão e um brasileiro. Sempre para alguém da área privada. Pela primeira vez, curiosamente, eu fui escolhido quando estava como ministro de Estado. E, curiosamente também, recebi o prêmio quando estava de volta à área privada, havia deixado o Ministério há uma semana”, diz.
“Não sendo mais ministro, eu tinha pedido que meu nome fosse substituído pelo do ministro (Luís Carlos) Guedes, que iria. Os alemães pediram que, como o evento era em homenagem a mim, eles tinham feito a programação em torno da minha participação. Aí o ministro Guedes pediu ao presidente para me designar como representante do agronegócio brasileiro”.
- Aí o senhor defendeu a agricultura como instrumento de defesa da democracia e da paz mundial?
Exatamente. Foi o tema que procurei desenvolver já quando era presidente da ACI (Aliança Cooperativa Internacional). O maior drama da humanidade no Século XXI é a diferença entre países ricos e países pobres. É preciso encontrar uma solução que elimine este drama.
- E como isso é possível?
Todo mundo está disposto a distribuir a riqueza, mas a riqueza dos outros, não a dele. Como resolver esta questão? Tenho a convicção de que a agricultura é o melhor caminho. Os países ricos podem pagar (aos produtores) para não produzir, ao passo que os países pobres têm que produzir para pagar.
A abertura comercial agrícola tem que acontecer, não por caridade dos países ricos, mas porque a concentração de riqueza e a exclusão social, que são dois aspectos da mesma moeda, são inimigos da democracia e da paz.
Na verdade, a abertura se dará muito mais por interesse da democracia e paz do que por opção meramente comercial. Este é um tema que eu levei ao governo e ao presidente e tenho procurado insistentemente - inclusive voltou ao tema na Rússia – mostrar que a abertura agrícola é necessária para garantir a democracia e a paz no mundo.
Carlos Alberto Nonino
A afirmação foi feita pelo ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, em entrevista exclusiva ao A Cidade Ribeirão Preto, a primeira entrevista por ele concedida após deixar o Ministério. O ex-ministro avalia estar confiante de que “já atravessamos o fundo do poço da crise da agricultura”.
Referindo-se às medidas estruturantes que espera sejam adotadas, entre elas o seguro rural, afirma que “o governo está cuidando disso e, se Deus quiser, com os instrumentos que estão sendo colocados em discussão, e que com o tempo irão se aperfeiçoando, não teremos mais crise dessa natureza”.
Em seguida à transmissão do cargo para Luís Carlos Guedes Pinto, em Brasília, Roberto Rodrigues participou de um congresso na Alemanha. Depois, recolheu-se à sua fazenda, em Guariba. Foi onde ele concedeu esta entrevista:
- Quais as perspectivas para a agricultura nacional?
O Brasil é um país com uma condição agrícola absolutamente espetacular. Temos hoje 62 milhões de hectares cultivados. Com pastagem, temos 220 milhões de hectares, dos quais 90 milhões são passíveis de uso pela agricultura. Tudo isso, sem precisar mexer na Amazônia ou outra área florestal. Podemos multiplicar por uma vez e meia a área agricultável do Brasil. Portanto, para nós é essencial que se dê a abertura comercial, porque este é o canal para desenvolver o País.
- O biodiesel e o h-bio podem reanimar o produtor de soja?
O biodiesel é um projeto de mais longo prazo, em que o governo tem interesse muito forte na questão social. Então tem sido mais vigorosamente tratado, por essa posição do governo, como assunto ligado ao semi-árido nordestino.
O h-bio é diferente. É misturar óleo vegetal bruto no petróleo bruto. Até 18% de óleo vegetal misturado no petróleo permite, no refino, um biodiesel já misturado. A Petrobrás vai trabalhar inicialmente com 10%. É uma tecnologia nova, que vai tomar conta do mundo, uma coisa revolucionária. É o primeiro casamento no mundo entre a indústria do petróleo e o produtor rural, que muda de figura a questão do biocombustível. Antes a indústria do petróleo era contra, porque o seu império estava em cheque. Mas agora percebeu que, adicionando 18% de óleo vegetal no petróleo, aumenta em 18% o seu império.
- E quando começa o h-bio?
As unidades da Petrobrás que vão trabalhar nisso estão preparadas para, em 2007, comprar 1 milhão e 300 mil toneladas de soja. Ainda é muito pouco. A produção brasileira supera 55 milhões de toneladas. É uma coisa próxima de 2%. Mas dobra em 2008, vai para 2,5 milhões de toneladas, já vai para quase 5% da produção nacional de soja.
Mas o dado mais importante é que essa descoberta da Petrobrás vai permitir que outros países agrícolas, que tenham problema com o óleo, como os Estados Unidos, também venham a fazer biodiesel de soja em volumes maciços, e isso significa uma redução da oferta mundial de soja a médio prazo.
- A agroenergia é realmente uma nova perspectiva?
Não tenho dúvida de que a agroenergia se transformou num novo paradigma mundial. O império do petróleo está chegando ao seu final e, até que se chegue a uma nova fonte permanente de energia, os combustíveis de energia agrícola serão as alternativas mais lúcidas. Então o espaço para agricultura de energia é uma coisa espetacular.
O Brasil tem hoje menos de 6 milhões de hectares cultivados com cana-de-açúcar e tem, pelo menos, mais 20 milhões de hectares hábeis para cana-de-açúcar. Fora o biodiesel. Seriam necessários mais 20 ou 30 milhões de hectares para se plantar soja visando à bioenergia. De modo que o Brasil tem um potencial para agroenergia praticamente ilimitado.
É o que nos torna um país exportador de produtos agrícolas, mas também exportador de tecnologia, de equipamentos. Vendemos usina de álcool fechada, com alta competitividade. Agora, o h-bio. Há um espaço enorme para o Brasil no mundo. O que precisamos fazer é a lição de casa, nas políticas fundamentais para segurar os momentos anti-cíclicos, e o seguro rural é essencial para isso.
- Em relação à soja, o que se pode esperar?
Hoje a oferta de soja no mundo é gigantesca. Mesmo assim o preço, em dólar, está num bom patamar. O que nos afeta é a questão cambial.Mas, sem dúvida, num médio prazo, com uma mudança na questão cambial, e com o avanço mais significativo do h-bio, vamos ter, a partir do biodiesel, uma demanda que vai melhorar as condições alternativas para o produtor brasileiro de soja.
- Mas é mesmo possível a mudança cambial?
Mantega tem trabalhado na direção de criar mecanismos mais favoráveis na área cambial. Vamos ver até onde a coisa vai desembocar, mas estou com boa expectativa. No caso da soja, sem uma mudança cambial, as coisas ficam complicadas.
Os preços estão razoavelmente bons no mercado externo, pois ainda se pode vender soja a 6 dólares o bushell para o ano que vem. No ponto de vista histórico, é razoável. O problema é que, com a questão cambial brasileira, as coisas não se realizam. Imagino que este ano seja diferente, com um fator adicional favorável: os preços dos insumos caíram e é possível, assim, que o custo de produção seja menor.
RECURSOS
Capital estrangeiro deve vir para logística e estrutura
Para Roberto Rodrigues, “o mundo está num momento positivo, com um volume de dinheiro enorme, uma liquidez gigantesca, buscando áreas de investimentos. Aqueles países que demonstrarem equilíbrio, estabilidade, política e econômica, sem dúvida, serão os beneficiários dessa grande massa de recursos de que o mundo dispõe hoje. Então, temos uma boa chance de nos transformarmos num dos receptores desses recursos universais”.
- O Brasil está nesse caminho?
Está. Sem dúvida, está garantida a estabilidade econômica brasileira, sem perigo de inflação. As regras macroeconômicas estão todas bem colocadas. O juro, que é um dos problemas nossos, que de certa forma alimenta a questão cambial, que é outro problema para o produtor brasileiro, começa a ir para um patamar menos íngreme. De modo que as variáveis macro-econômicas estão dadas para a atração de capitais, e o Brasil precisa disso na verdade.
O que temos hoje de grande demanda para um crescimento espetacular é logística e estrutura. Então precisamos de capital estrangeiro para investir nessa área.
AVALIAÇÃO
“Abertura comercial por necessidade da paz”
Roberto Rodrigues, falou também sobre sua participação no Encontro Econômico Brasil-Ale-manha, no qual esteve logo após deixar o Ministério da Agricultura.
“É uma câmara de relações Brasil-Alemanha. Aliás, são várias câmaras, inclusive uma de comércio. E este conjunto de câmaras anualmente oferece o prêmio ‘Personalidade do Ano’ para um alemão e um brasileiro. Sempre para alguém da área privada. Pela primeira vez, curiosamente, eu fui escolhido quando estava como ministro de Estado. E, curiosamente também, recebi o prêmio quando estava de volta à área privada, havia deixado o Ministério há uma semana”, diz.
“Não sendo mais ministro, eu tinha pedido que meu nome fosse substituído pelo do ministro (Luís Carlos) Guedes, que iria. Os alemães pediram que, como o evento era em homenagem a mim, eles tinham feito a programação em torno da minha participação. Aí o ministro Guedes pediu ao presidente para me designar como representante do agronegócio brasileiro”.
- Aí o senhor defendeu a agricultura como instrumento de defesa da democracia e da paz mundial?
Exatamente. Foi o tema que procurei desenvolver já quando era presidente da ACI (Aliança Cooperativa Internacional). O maior drama da humanidade no Século XXI é a diferença entre países ricos e países pobres. É preciso encontrar uma solução que elimine este drama.
- E como isso é possível?
Todo mundo está disposto a distribuir a riqueza, mas a riqueza dos outros, não a dele. Como resolver esta questão? Tenho a convicção de que a agricultura é o melhor caminho. Os países ricos podem pagar (aos produtores) para não produzir, ao passo que os países pobres têm que produzir para pagar.
A abertura comercial agrícola tem que acontecer, não por caridade dos países ricos, mas porque a concentração de riqueza e a exclusão social, que são dois aspectos da mesma moeda, são inimigos da democracia e da paz.
Na verdade, a abertura se dará muito mais por interesse da democracia e paz do que por opção meramente comercial. Este é um tema que eu levei ao governo e ao presidente e tenho procurado insistentemente - inclusive voltou ao tema na Rússia – mostrar que a abertura agrícola é necessária para garantir a democracia e a paz no mundo.
Carlos Alberto Nonino