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Indústria de alimentos pagará mais que a de biodiesel

Veremos o conflito da "digestão versus combustão", com indústrias de alimentos e de combustíveis disputando a matéria-prima soja. E o setor de alimentos deverá levar a melhor.
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Na onda dos biocombustíveis, o mercado de soja está fadado a registrar, a exemplo do que já ocorre no mercado de açúcar, o conflito da "digestão versus combustão", com indústrias de alimentos e de combustíveis disputando a matéria-prima soja. E o setor de alimentos deverá levar a melhor.

A previsão é de... José Zílio, ex-diretor da Bunge Alimentos, que atuou na comercialização de derivados de soja brasileiros no exterior por mais de 30 anos e recentemente deixou a empresa para se dedicar à consultoria no setor de biocombustíveis.

Já sem as restrições impostas a um funcionário de multinacional para falar com jornalistas, o consultor disse acreditar que a indústria de alimentação pagará mais pela soja que as usinas de biodiesel, mesmo diante da efervescente e nascente onda de biocombustíveis.

Essa disputa, que ele batizou de "digestão versus combustão", vai alavancar os preços da oleaginosa, principalmente se o petróleo continuar no patamar de 70 dólares o barril, opinou Zílio, agora sócio-proprietário da consultoria ALF International.

"Evidentemente que a área de alimentos vai pagar mais. Primeiro é preciso comer," declarou em uma conversa com jornalistas, no intervalo de um dos seminários do 4o. Congresso Brasileiro de Soja, que está sendo realizado em Londrina, no norte do Paraná.

Zílio espera que os preços da soja subam devido à nova demanda.

"Se tiver duas demandas, uma vai chantagear a outra... Vai chegar uma hora que a indústria vai falar para os importadores, para o Egito, China, Irã: você tem de pagar mais," comentou, lembrando que deverá ocorrer num futuro próximo algo semelhante ao que ocorre hoje com o dilema entre se produzir açúcar ou álcool no Brasil.

"A energia vai inflacionar muita coisa, pois também vamos ter de abastecer nossos carros, e a área de alimentos talvez tenha inflação."

Diante dessa preocupação, Zílio disse que os europeus até já estudam medidas que seriam desestimulantes para a produção de biodiesel a partir de determinadas matérias-primas.

Questionado se a bioenergia poderia gerar inflação no Brasil, o consultor elevou o tom o de voz e disse que pior seria desestimular a produção de soja no Centro-Oeste brasileiro, "um agricultor que teve a coragem de abrir fronteiras."

Os produtores dos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás enfrentam atualmente uma das piores crises desde que a soja chegou ao Centro-Oeste, devido aos elevados custos de produção, muitos deles influenciados pelos preços dos combustíveis, e também pela perda de rentabilidade motivada por um real fortalecido.

"O que precisamos fazer é dar oxigênio para esses produtores," disse ele, lembrando que o biodiesel também poderia resolver problemas relacionados aos custos de transporte do produtor na região central do Brasil, distante dos portos.

Entretanto, Zílio admitiu que pode haver sim uma "inflação por escassez de matéria-prima," na medida em que o que vai limitar o crescimento do biodiesel é a disponibilidade do produto e não a demanda.

Ao comentar uma possível escassez de matéria-prima, Zílio explicou que fez a afirmação considerando todas as fontes para produção de biodiesel disponíveis no país, entre elas o dendê, um dos produtos mais competitivos para esse fim.

Ele acredita que o Brasil produzirá biodiesel suficiente para atender a demanda de mistura de 2 por cento no diesel, que será obrigatória a partir de 2008.

"O setor vai crescer 5 por cento ao ano nos três primeiros anos, o que não é muito difícil, partindo de uma base zero," completou.

Fonte: Reuters
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