Pesquisador diz que experiência em assentamentos não tem viabilidade.
Acontece que a realidade amazônica é mais inóspita para qualquer empreendimento, principalmente se considerarmos as dificuldades políticas, sociais, geográficas, econômicas e ambientais envolvidas. Sem isto na balança, um projeto que exige altos investimentos pode falir em curto ou médio prazo...
Pesquisador diz que experiência em assentamentos não tem viabilidade
Coordenador da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa) em Santarém, Núcleo do Médio Amazonas e na região oeste do Estado, Olinto Gomes da Rocha Neto, 57 anos, aponta vários problemas que poderão tornar inviável a produção do biodiesel em projetos de assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no oeste do Pará. Agrônomo doutorado em ecofisiologia vegetal e há 33 anos trabalhando como pesquisador na Embrapa, ele assumirá, no mês de abril, assumirá a coordenadoria do Núcleo Belém-Brasília, em Paragominas (PA). Em entrevista aos repórteres Mário Barbosa e Alailson Muniz, Olinto considera que pessoas ligadas ao agronegócio regional estariam mais preparadas para produzir biocombustível, a partir de monoculturas de girassol, por possuírem todo o conhecimento necessário obtido ao longo de experiências com a plantação de soja. A seguir, a entrevista.
N O biodiesel é uma boa alternativa para a região de abrangência de Santarém?
O O biodiesel já está dando certo em outras regiões do Brasil. Acontece que a realidade amazônica é mais inóspita para qualquer empreendimento, principalmente se considerarmos as dificuldades políticas, sociais, geográficas, econômicas e ambientais envolvidas. Sem isto na balança, um projeto que exige altos investimentos pode falir em curto ou médio prazo. Por enquanto, estamos receosos para dizer que o biodiesel é uma boa idéia para a região.
N A Embrapa já tem estudos em andamento na região de Santarém?
O Sim, temos. Em relação ao biodiesel, em particular, estamos com um experimento para ser iniciado este ano. Temos em estoque sementes de cinco variedades de girassol para testar e plantar no mês de abril, quando o período chuvoso de 2007 estiver no auge.
N Então o girassol é a espécie vegetal oleaginosa mais adequada para a região?
O Como funcionário da Embrapa, só poderei afirmar isso quando tivermos o resultado de nosso experimento em mãos. Mas, como pesquisador, não tenho a menor dúvida de que o girassol é mais propício do que espécies oleaginosas que crescem aleatoriamente na natureza como o pinhão manso, o babaçu e o coco curuá, que de modo geral seriam aproveitadas por meios extrativos, o que não é recomendável, pois esta dispersão provocaria custos elevados para o transporte da matéria-prima até a usina de beneficiamento. Mesmo em relação a outras espécies, passíveis de monocultura, fico com o girassol, até porque é a única espécie que já vem sendo testada há algum tempo por particulares na região.
N Sabemos que o Incra de Santarém possui uma proposta para incentivar a produção do biodiesel nos projetos de assentamento. Esta proposta é viável?
O A Embrapa trabalha em cima de demandas de pesquisa agropecuária e agroflorestal sugeridas pelos próprios produtores ou apontadas por políticas públicas, como é o caso agora com o biodiesel. Mas para plantar, os produtores precisam ter detalhes do empreendimento, que só uma pesquisa pode proporcionar. Vários núcleos da Embrapa realizam estudos voltados para o biodiesel, levando em consideração as espécies com maior probabilidade de adaptação nas respectivas regiões. Aqui em Santarém, nosso experimento foi provocado por reivindicação do Incra, que pretende incentivar a produção do biocombustível nos projetos de assentamento recém-criados. Esta proposta pode ser discutida, mas acredito que o biodiesel é inviável para a agricultura familiar. Na nossa região, os clientes da reforma agrária não conseguem produzir sequer a mandioca que eles consomem. O assentado nunca ouviu falar do pinhão manso, não domina tecnologias, não tem conhecimentos, preparo ou acesso ao crédito. Ele só tem a enxada em cima do ombro. Só quem conhece a realidade de um projeto de assentamento sabe por que estou falando isso: estrada é péssima, viagem é cansativa, falta de alojamentos para técnicos etc.
N Então qual seria a solução para ver o biodiesel nos projetos de assentamento?
O Adaptar a novidade do biodiesel à realidade amazônica por si só já é um desafio, e muito mais quando se fala em adaptação aos clientes da agricultura familiar. Um exemplo: nem os assentados têm e muito menos o Incra vai oferecer tratores para destocar (arrancar tocos) dos 20% agricultáveis das propriedades. Com tantos tocos, o colono vai sofrer com as colheitas manuais e amargar uma produtividade inexpressiva. Outro exemplo: como vi algumas vezes, em outros municípios, pode acontecer até do agricultor pegar dinheiro financiado do banco não para plantar, mas para comprar uma moto, pois não há transporte para chegar à sua terra. Não dá para o governo implantar o biodiesel na região com uma varinha de mágica, porque depois é o produtor que vai ficar endividado com o banco. Para que haja efetiva viabilidade nos projetos de assentamento, é necessário elencar dificuldades como essa, numa ampla discussão sobre a cadeia produtiva do biodiesel na região de abrangência de Santarém.
N Como seria a cadeia produtiva do biodiesel em Santarém?
O No caso do girassol, a cadeia envolveria várias etapas. A primeira é a de relacionar os insumos. A segunda é dedicada ao sistema de produção. A terceira trata do beneficiamento. A quarta discute a gestão técnica e administrativa da usina. E por último, temos o mais importante para o pequeno agricultor: a comercialização e o lucro. Está comprovado cientificamente que nenhum desses elementos pode ser colocado isoladamente, porque, além do projeto se arriscar à falência em curto ou médio prazo, o pequeno agricultor poderá ter prejuízos e ficar endividado com o banco. E antes de tudo o governo tem que fazer uma coisa chamada 'regularização fundiária', pois poucas pessoas se atrevem a produzir numa terra que não é sua, arriscando-se a ser rotulado de 'grileiro'.
N O município de Belterra seria o local mais adequado da região para se instalar usina de beneficiamento de biodiesel?
O Mais uma vez, digo que só teremos certezas mesmo quando tivermos concluído nossos trabalhos. Por enquanto, o que estamos trabalhando é um experimento que deverá estar concluído em julho deste ano e que servirá para nos munir de subsídios. Com dados à disposição, saberemos apontar não só qual o local exato para construção, mas também a capacidade projetada que a usina deverá ter. Se tudo correr bem, o governo já poderá se preocupar com a construção da usina já em 2008. Mas, além da construção, o governo vai ter que se preocupar com a gestão técnica e administrativa da usina, que é outro pilar da cadeia produtiva. Pessoas da própria agricultura familiar terão que ser treinadas para isso, talvez no regime de cooperativa. Nada de burocrata engravatado para gerir a usina. Tem que ser alguém para acompanhar de perto a realidade.
N Os sojicultores podem se integrar à cadeia produtiva do biodiesel em Santarém?
O Os sojicultores, para plantarem soja, tiveram que fazer estudos, corrigir o solo e se amparar em pesquisas. Eles têm o know-how necessário para produzir o biodiesel porque estão em condições mais próximas das ideais para isso: têm um padrão de produção de matéria-prima, conhecimentos e bens para garantir financiamentos no banco.
N Além de todas essas dificuldades, ainda há o ambientalismo especulando que o Brasil irá produzir biodiesel à custa da devastação da floresta. O senhor acredita nisso?
O Isto é sensacionalismo barato. De acordo com a legislação ambiental brasileira, em apenas 20% das propriedades rurais o biodiesel poderá ser plantado. Ou seja, basta que os órgãos competentes fiscalizem e garantam o cumprimento das leis.
Agência Amazônia
Acontece que a realidade amazônica é mais inóspita para qualquer empreendimento, principalmente se considerarmos as dificuldades políticas, sociais, geográficas, econômicas e ambientais envolvidas. Sem isto na balança, um projeto que exige altos investimentos pode falir em curto ou médio prazo...
Pesquisador diz que experiência em assentamentos não tem viabilidade
Coordenador da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa) em Santarém, Núcleo do Médio Amazonas e na região oeste do Estado, Olinto Gomes da Rocha Neto, 57 anos, aponta vários problemas que poderão tornar inviável a produção do biodiesel em projetos de assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no oeste do Pará. Agrônomo doutorado em ecofisiologia vegetal e há 33 anos trabalhando como pesquisador na Embrapa, ele assumirá, no mês de abril, assumirá a coordenadoria do Núcleo Belém-Brasília, em Paragominas (PA). Em entrevista aos repórteres Mário Barbosa e Alailson Muniz, Olinto considera que pessoas ligadas ao agronegócio regional estariam mais preparadas para produzir biocombustível, a partir de monoculturas de girassol, por possuírem todo o conhecimento necessário obtido ao longo de experiências com a plantação de soja. A seguir, a entrevista.
N O biodiesel é uma boa alternativa para a região de abrangência de Santarém?
O O biodiesel já está dando certo em outras regiões do Brasil. Acontece que a realidade amazônica é mais inóspita para qualquer empreendimento, principalmente se considerarmos as dificuldades políticas, sociais, geográficas, econômicas e ambientais envolvidas. Sem isto na balança, um projeto que exige altos investimentos pode falir em curto ou médio prazo. Por enquanto, estamos receosos para dizer que o biodiesel é uma boa idéia para a região.
N A Embrapa já tem estudos em andamento na região de Santarém?
O Sim, temos. Em relação ao biodiesel, em particular, estamos com um experimento para ser iniciado este ano. Temos em estoque sementes de cinco variedades de girassol para testar e plantar no mês de abril, quando o período chuvoso de 2007 estiver no auge.
N Então o girassol é a espécie vegetal oleaginosa mais adequada para a região?
O Como funcionário da Embrapa, só poderei afirmar isso quando tivermos o resultado de nosso experimento em mãos. Mas, como pesquisador, não tenho a menor dúvida de que o girassol é mais propício do que espécies oleaginosas que crescem aleatoriamente na natureza como o pinhão manso, o babaçu e o coco curuá, que de modo geral seriam aproveitadas por meios extrativos, o que não é recomendável, pois esta dispersão provocaria custos elevados para o transporte da matéria-prima até a usina de beneficiamento. Mesmo em relação a outras espécies, passíveis de monocultura, fico com o girassol, até porque é a única espécie que já vem sendo testada há algum tempo por particulares na região.
N Sabemos que o Incra de Santarém possui uma proposta para incentivar a produção do biodiesel nos projetos de assentamento. Esta proposta é viável?
O A Embrapa trabalha em cima de demandas de pesquisa agropecuária e agroflorestal sugeridas pelos próprios produtores ou apontadas por políticas públicas, como é o caso agora com o biodiesel. Mas para plantar, os produtores precisam ter detalhes do empreendimento, que só uma pesquisa pode proporcionar. Vários núcleos da Embrapa realizam estudos voltados para o biodiesel, levando em consideração as espécies com maior probabilidade de adaptação nas respectivas regiões. Aqui em Santarém, nosso experimento foi provocado por reivindicação do Incra, que pretende incentivar a produção do biocombustível nos projetos de assentamento recém-criados. Esta proposta pode ser discutida, mas acredito que o biodiesel é inviável para a agricultura familiar. Na nossa região, os clientes da reforma agrária não conseguem produzir sequer a mandioca que eles consomem. O assentado nunca ouviu falar do pinhão manso, não domina tecnologias, não tem conhecimentos, preparo ou acesso ao crédito. Ele só tem a enxada em cima do ombro. Só quem conhece a realidade de um projeto de assentamento sabe por que estou falando isso: estrada é péssima, viagem é cansativa, falta de alojamentos para técnicos etc.
N Então qual seria a solução para ver o biodiesel nos projetos de assentamento?
O Adaptar a novidade do biodiesel à realidade amazônica por si só já é um desafio, e muito mais quando se fala em adaptação aos clientes da agricultura familiar. Um exemplo: nem os assentados têm e muito menos o Incra vai oferecer tratores para destocar (arrancar tocos) dos 20% agricultáveis das propriedades. Com tantos tocos, o colono vai sofrer com as colheitas manuais e amargar uma produtividade inexpressiva. Outro exemplo: como vi algumas vezes, em outros municípios, pode acontecer até do agricultor pegar dinheiro financiado do banco não para plantar, mas para comprar uma moto, pois não há transporte para chegar à sua terra. Não dá para o governo implantar o biodiesel na região com uma varinha de mágica, porque depois é o produtor que vai ficar endividado com o banco. Para que haja efetiva viabilidade nos projetos de assentamento, é necessário elencar dificuldades como essa, numa ampla discussão sobre a cadeia produtiva do biodiesel na região de abrangência de Santarém.
N Como seria a cadeia produtiva do biodiesel em Santarém?
O No caso do girassol, a cadeia envolveria várias etapas. A primeira é a de relacionar os insumos. A segunda é dedicada ao sistema de produção. A terceira trata do beneficiamento. A quarta discute a gestão técnica e administrativa da usina. E por último, temos o mais importante para o pequeno agricultor: a comercialização e o lucro. Está comprovado cientificamente que nenhum desses elementos pode ser colocado isoladamente, porque, além do projeto se arriscar à falência em curto ou médio prazo, o pequeno agricultor poderá ter prejuízos e ficar endividado com o banco. E antes de tudo o governo tem que fazer uma coisa chamada 'regularização fundiária', pois poucas pessoas se atrevem a produzir numa terra que não é sua, arriscando-se a ser rotulado de 'grileiro'.
N O município de Belterra seria o local mais adequado da região para se instalar usina de beneficiamento de biodiesel?
O Mais uma vez, digo que só teremos certezas mesmo quando tivermos concluído nossos trabalhos. Por enquanto, o que estamos trabalhando é um experimento que deverá estar concluído em julho deste ano e que servirá para nos munir de subsídios. Com dados à disposição, saberemos apontar não só qual o local exato para construção, mas também a capacidade projetada que a usina deverá ter. Se tudo correr bem, o governo já poderá se preocupar com a construção da usina já em 2008. Mas, além da construção, o governo vai ter que se preocupar com a gestão técnica e administrativa da usina, que é outro pilar da cadeia produtiva. Pessoas da própria agricultura familiar terão que ser treinadas para isso, talvez no regime de cooperativa. Nada de burocrata engravatado para gerir a usina. Tem que ser alguém para acompanhar de perto a realidade.
N Os sojicultores podem se integrar à cadeia produtiva do biodiesel em Santarém?
O Os sojicultores, para plantarem soja, tiveram que fazer estudos, corrigir o solo e se amparar em pesquisas. Eles têm o know-how necessário para produzir o biodiesel porque estão em condições mais próximas das ideais para isso: têm um padrão de produção de matéria-prima, conhecimentos e bens para garantir financiamentos no banco.
N Além de todas essas dificuldades, ainda há o ambientalismo especulando que o Brasil irá produzir biodiesel à custa da devastação da floresta. O senhor acredita nisso?
O Isto é sensacionalismo barato. De acordo com a legislação ambiental brasileira, em apenas 20% das propriedades rurais o biodiesel poderá ser plantado. Ou seja, basta que os órgãos competentes fiscalizem e garantam o cumprimento das leis.
Agência Amazônia