A era do petróleo está no fim. A era do hidrogênio deve demorar. Nas próximas décadas o mundo caminhará em direção aos biocombustíveis. O Brasil se prepara para entrar na guerra com duas armas poderosas: a produção de etanol, basicamente do álcool de cana; e o biodiesel, que poderá ser de mamona, girassol ou dendê.
Dezenas de pequenos e médios empresários já acordaram para a nova realidade e se candidataram como fornecedores nos leilões da Agência Nacional de Petróleo. Nas próximas semanas será anunciada a criação de uma Câmara Setorial, com tarefas bastante ambiciosas. A primeira, será consolidar toda a cadeia produtiva do setor, dos produtores até os fabricantes de máquinas e equipamentos. A segunda, envolver pesadamente os institutos de pesquisa na tarefa de manter o Brasil na liderança. A terceira, preparar um exército de empreendedores para avançar sobre duas áreas promissoras: o norte da África e a América Central.
Em entrevista a Luís Nassif, para Agenda Brasil, a Ministra Dilma Rousseff garante que esse programa tem potencial para mudar o Brasil, a distribuição de renda, alavancar desde a agricultura até a indústria de base.
Luís Nassif (Agenda Brasil): A senhora é uma entusiasta do biodiesel, mais ainda do que do etanol. Qual a razão?
Dilma Rousseff: O fenômeno da crise do petróleo e esta situação de preços altíssimos. Enquanto países desenvolvidos buscam a transição para o hidrogênio, nós ficamos nos biocombustíveis, pois temos vantagens enormes. Com a economia da energia, o Brasil terá a possibilidade de estruturar uma cadeia produtiva complexa, que trará riqueza e distribuição de renda. Já o hidrogênio tem pontos negativos, como complexidade das pesquisas, necessidade de alterar os motores e problema da logística para adaptar toda a rede varejista ao novo combustível.
LN: Quais as vantagens desse tipo de combustível para o País?
DR: O bioetanol contribuiria para alavancar um setor forte de máquinas e equipamentos agrícolas, já que o Brasil se destaca como grande produtor de açúcar e álcool. Além disso, incentivaria o surgimento de um setor de fabricação de biorefinarias. No caso do biodiesel, há uma outra estruturação de cadeia. Em 2003 foi lançado o projeto de biodiesel, que deve ser finalizado até o final deste ano e tem previsão de disponilizar 4 mil postos com a mistura de biodiesel. Os 840 milhões de litros para os 2% de mistura no diesel, previstos até 2008, já estão licitados e contratados. Quando o programa estiver pronto, no final de 2007, teremos 210 mil famílias empregadas. E é apenas o começo.
LN: Quem serão os agentes dessa batalha?
DR: O biocombustível será um dos grandes fatores que vai puxar o crescimento do Brasil, estruturar o setor industrial, de comercialização, logística e agricultura. Para seu sucesso é preciso ter uma definição do que é uma biorefinaria, incentivar o convívio da agricultura familiar com a grande propriedade e criar uma cadeia econômica com capacidade de gerar riquezas e de se espalhar regionalmente.
LN: Como será a disputa em nível global?
DR: Será um jogo muito pesado. Todos os países desenvolvidos e a União Européia apostam nisso também. A Agência Internacional de Energia, que só mexia com petróleo, passou a tratar da bioenergia. A batalha dependerá da produtividade agrícola e do desenvolvimento químico, o que obrigará um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento.
LN: A quem caberá a coordenação desse programa?
DR: Vamos anunciar nos próximos dias a criação do Conselho Nacional de Bioenergia com duas câmaras, uma de bioetanol e outra de biodiesel.
LN: Para que o etanol seja uma commodity internacional, tem que haver outros centros produtores. E se o Brasil juntasse os bancos de investimento com a tecnologia tropical da Embrapa, usineiros e indústria de máquinas e equipamentos e partisse para o mundo?
DR: A previsão é justamente essa. Para tanto é preciso que surjam novos empreendedores para a área. Na minha visão, vai haver uma mescla entre empresários do setor empreiteiro e do siderúrgico com visão global e com estratégias definidas para alavancar o Brasil no cenário internacional.
LN: E a estratégia internacional?
DR: A brigada vai para África e América Central, mas também serão necessários acordos de transferência de tecnologia com os países desenvolvidos. Não para a área agrícola, onde a Embrapa é absoluta, mas para aprimorar os modos de produção do biodiesel e do etanol.
LN: E a estratégia dos países desenvolvidos?
DR: Nosso etanol é três vezes mais competitivo que o milho, adotado nos EUA. Na Alemanha, o biodiesel vem da Colza, ruim em termos de competitividade. A vantagem é que eles pesquisam a ligno-celulose, que é extraída principalmente da madeira (rica em celulose) para transformar em açúcar e depois em etanol.
LN: Então o ponto fraco é a carência de terras?
DR: Essa tecnologia permite extrair açúcar de resíduos. Nos países nórdicos existem as florestas que acabam uma vez por ano, formando resíduos florestais ricos em celulose. Essa tecnologia amplia violentamente o horizonte, especialmente dos EUA. Por enquanto só estão conseguindo resultados em laboratório, mas o grande caminho deles é esse.
Nas últimas três licitações para compra futura de biodiesel pela BR Distribuidora, apareceram dezenas de candidatos. Eram pequenas empresas, donos de postos de gasolina, até grandes empresários rurais. Foram adquiridos 850 milhões de litros ao ano, pelo prazo de dois anos, 50 milhões a mais do que os 2% previstos para a mistura com diesel pelo governo federal.
O que vem por aí supera qualquer outro movimento da história econômica do país, desde a expansão da lavoura cafeeira para São Paulo no século 19, mais do que a expansão canavieira dos anos 70 ou o desbravamento do cerrado.É um movimento com implicações excepcionais na geração e distribuição de riqueza, na consolidação do agronegócio, na sustentabilidade da agricultura familiar e no crescimento do setor de máquinas e equipamentos, da pesquisa agrícola e tecnológica.
Com o biodiesel em uma ponta e o etanol na outra, o Brasil se preparará, pela primeira vez na história, para tentar conquistar e manter a liderança de um setor-chave para a economia mundial.
Como lembra Eduardo Carvalho, presidente da Única, oá lcool é o único comprovadamente eficiente para conviver com a gasolina: é líquido, se mistura perfeitamente e até 10% não há alteração de desempenho. A produção combinada do Brasil e Estados Unidos (33 bilhões de litros) corresponde a apenas 2% do consumo total. Ou seja, há um espaço para aumentar até cinco vezes, chegando aos 10% de mistura.
A única limitação ao crescimento brasileiro, diz Eduardo,é que nossa experiência é reproduzível totalmente no mundo tropical. Basta que países que produzem cana de açúcar tenham áreas adicionais. Ocorre que a maioria não pode expandir. Sobram a África e o sub-Sahara, com solo muito semelhante ao cerrado brasileiro, e todo o sudeste asiático.
Hoje em dia, o álcool de milho dos EUA produz 1,3 unidade de energia para cada um que consome. No caso doá lcool da cana, a proporçãoé de 8,3 por um. Se investir um pouco nas caldeiras, aumenta para 12 por um. Se passar a utilizar a palha, poderá chegar a 15 por um – uma produtividade imbatível.
Todo esse potencial explode no justo momento em que o mundo entra em novo ciclo histórico:
1. O petróleo já é visto como um produto finito.
2. As áreas periféricasà Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) diminuirão sua produção, fazendo com que aumente proporcionalmente a participação da OPEP no fornecimento mundial de petróleo.
3. O aquecimento global tornará gradativamente impossível continuar queimando energia fóssil, tanto o petróleo e carvão como o gás natural (que ao contrário do que supõe o senso comum, é altamente poluente).
4. Há um brutal potencial de desenvolvimento que as fontes alternativas poderão dar aos países capazes de se mobilizar. Nunca vai ser substituto total da gasolina, mas 10, 20% do consumo mundial.
No início de setembro, o setor anunciará, em São Paulo, o primeiro encontro mundial do etanol, planejado para julho de 2007. Já existem programas no Canadá, EUA, México, Guatemala, um programa muito efetivo na Colômbia, e projetos na Argentina e no Caribe.
Mas, por enquanto, o primeiro do campeonato continua sendo o Brasil.
Luís Nassif - Agência Brasil
Dezenas de pequenos e médios empresários já acordaram para a nova realidade e se candidataram como fornecedores nos leilões da Agência Nacional de Petróleo. Nas próximas semanas será anunciada a criação de uma Câmara Setorial, com tarefas bastante ambiciosas. A primeira, será consolidar toda a cadeia produtiva do setor, dos produtores até os fabricantes de máquinas e equipamentos. A segunda, envolver pesadamente os institutos de pesquisa na tarefa de manter o Brasil na liderança. A terceira, preparar um exército de empreendedores para avançar sobre duas áreas promissoras: o norte da África e a América Central.
Em entrevista a Luís Nassif, para Agenda Brasil, a Ministra Dilma Rousseff garante que esse programa tem potencial para mudar o Brasil, a distribuição de renda, alavancar desde a agricultura até a indústria de base.
Luís Nassif (Agenda Brasil): A senhora é uma entusiasta do biodiesel, mais ainda do que do etanol. Qual a razão?
Dilma Rousseff: O fenômeno da crise do petróleo e esta situação de preços altíssimos. Enquanto países desenvolvidos buscam a transição para o hidrogênio, nós ficamos nos biocombustíveis, pois temos vantagens enormes. Com a economia da energia, o Brasil terá a possibilidade de estruturar uma cadeia produtiva complexa, que trará riqueza e distribuição de renda. Já o hidrogênio tem pontos negativos, como complexidade das pesquisas, necessidade de alterar os motores e problema da logística para adaptar toda a rede varejista ao novo combustível.
LN: Quais as vantagens desse tipo de combustível para o País?
DR: O bioetanol contribuiria para alavancar um setor forte de máquinas e equipamentos agrícolas, já que o Brasil se destaca como grande produtor de açúcar e álcool. Além disso, incentivaria o surgimento de um setor de fabricação de biorefinarias. No caso do biodiesel, há uma outra estruturação de cadeia. Em 2003 foi lançado o projeto de biodiesel, que deve ser finalizado até o final deste ano e tem previsão de disponilizar 4 mil postos com a mistura de biodiesel. Os 840 milhões de litros para os 2% de mistura no diesel, previstos até 2008, já estão licitados e contratados. Quando o programa estiver pronto, no final de 2007, teremos 210 mil famílias empregadas. E é apenas o começo.
LN: Quem serão os agentes dessa batalha?
DR: O biocombustível será um dos grandes fatores que vai puxar o crescimento do Brasil, estruturar o setor industrial, de comercialização, logística e agricultura. Para seu sucesso é preciso ter uma definição do que é uma biorefinaria, incentivar o convívio da agricultura familiar com a grande propriedade e criar uma cadeia econômica com capacidade de gerar riquezas e de se espalhar regionalmente.
LN: Como será a disputa em nível global?
DR: Será um jogo muito pesado. Todos os países desenvolvidos e a União Européia apostam nisso também. A Agência Internacional de Energia, que só mexia com petróleo, passou a tratar da bioenergia. A batalha dependerá da produtividade agrícola e do desenvolvimento químico, o que obrigará um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento.
LN: A quem caberá a coordenação desse programa?
DR: Vamos anunciar nos próximos dias a criação do Conselho Nacional de Bioenergia com duas câmaras, uma de bioetanol e outra de biodiesel.
LN: Para que o etanol seja uma commodity internacional, tem que haver outros centros produtores. E se o Brasil juntasse os bancos de investimento com a tecnologia tropical da Embrapa, usineiros e indústria de máquinas e equipamentos e partisse para o mundo?
DR: A previsão é justamente essa. Para tanto é preciso que surjam novos empreendedores para a área. Na minha visão, vai haver uma mescla entre empresários do setor empreiteiro e do siderúrgico com visão global e com estratégias definidas para alavancar o Brasil no cenário internacional.
LN: E a estratégia internacional?
DR: A brigada vai para África e América Central, mas também serão necessários acordos de transferência de tecnologia com os países desenvolvidos. Não para a área agrícola, onde a Embrapa é absoluta, mas para aprimorar os modos de produção do biodiesel e do etanol.
LN: E a estratégia dos países desenvolvidos?
DR: Nosso etanol é três vezes mais competitivo que o milho, adotado nos EUA. Na Alemanha, o biodiesel vem da Colza, ruim em termos de competitividade. A vantagem é que eles pesquisam a ligno-celulose, que é extraída principalmente da madeira (rica em celulose) para transformar em açúcar e depois em etanol.
LN: Então o ponto fraco é a carência de terras?
DR: Essa tecnologia permite extrair açúcar de resíduos. Nos países nórdicos existem as florestas que acabam uma vez por ano, formando resíduos florestais ricos em celulose. Essa tecnologia amplia violentamente o horizonte, especialmente dos EUA. Por enquanto só estão conseguindo resultados em laboratório, mas o grande caminho deles é esse.
COMEÇA A CORRIDA AO OURO VERDE DO BIOCOMBUSTÍVEL
Brasil sai na frente e busca liderança no mercado mundial de energiaNas últimas três licitações para compra futura de biodiesel pela BR Distribuidora, apareceram dezenas de candidatos. Eram pequenas empresas, donos de postos de gasolina, até grandes empresários rurais. Foram adquiridos 850 milhões de litros ao ano, pelo prazo de dois anos, 50 milhões a mais do que os 2% previstos para a mistura com diesel pelo governo federal.
O que vem por aí supera qualquer outro movimento da história econômica do país, desde a expansão da lavoura cafeeira para São Paulo no século 19, mais do que a expansão canavieira dos anos 70 ou o desbravamento do cerrado.É um movimento com implicações excepcionais na geração e distribuição de riqueza, na consolidação do agronegócio, na sustentabilidade da agricultura familiar e no crescimento do setor de máquinas e equipamentos, da pesquisa agrícola e tecnológica.
Com o biodiesel em uma ponta e o etanol na outra, o Brasil se preparará, pela primeira vez na história, para tentar conquistar e manter a liderança de um setor-chave para a economia mundial.
Como lembra Eduardo Carvalho, presidente da Única, oá lcool é o único comprovadamente eficiente para conviver com a gasolina: é líquido, se mistura perfeitamente e até 10% não há alteração de desempenho. A produção combinada do Brasil e Estados Unidos (33 bilhões de litros) corresponde a apenas 2% do consumo total. Ou seja, há um espaço para aumentar até cinco vezes, chegando aos 10% de mistura.
A única limitação ao crescimento brasileiro, diz Eduardo,é que nossa experiência é reproduzível totalmente no mundo tropical. Basta que países que produzem cana de açúcar tenham áreas adicionais. Ocorre que a maioria não pode expandir. Sobram a África e o sub-Sahara, com solo muito semelhante ao cerrado brasileiro, e todo o sudeste asiático.
Hoje em dia, o álcool de milho dos EUA produz 1,3 unidade de energia para cada um que consome. No caso doá lcool da cana, a proporçãoé de 8,3 por um. Se investir um pouco nas caldeiras, aumenta para 12 por um. Se passar a utilizar a palha, poderá chegar a 15 por um – uma produtividade imbatível.
Todo esse potencial explode no justo momento em que o mundo entra em novo ciclo histórico:
1. O petróleo já é visto como um produto finito.
2. As áreas periféricasà Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) diminuirão sua produção, fazendo com que aumente proporcionalmente a participação da OPEP no fornecimento mundial de petróleo.
3. O aquecimento global tornará gradativamente impossível continuar queimando energia fóssil, tanto o petróleo e carvão como o gás natural (que ao contrário do que supõe o senso comum, é altamente poluente).
4. Há um brutal potencial de desenvolvimento que as fontes alternativas poderão dar aos países capazes de se mobilizar. Nunca vai ser substituto total da gasolina, mas 10, 20% do consumo mundial.
No início de setembro, o setor anunciará, em São Paulo, o primeiro encontro mundial do etanol, planejado para julho de 2007. Já existem programas no Canadá, EUA, México, Guatemala, um programa muito efetivo na Colômbia, e projetos na Argentina e no Caribe.
Mas, por enquanto, o primeiro do campeonato continua sendo o Brasil.
Luís Nassif - Agência Brasil