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Comida ou combustível? Há o suficiente para ambos

Não existe escassez de óleos comestíveis no momento, mas os preços subiram com as conversas sobre biocombustíveis
Reuters 4 min de leitura
A crescente demanda pelos óleos vegetais e grãos impulsionada pelo emergente setor de biocombustíveis não deve causar escassez para a indústria alimentícia, mas poderia provocar uma alta de preços das principais matérias-primas.

Especialista da indústria afirmaram ainda que a forte alta de preços dos óleos vegetais, em meio a um cenário de queda nas cotações do petróleo, poderia reduzir a competitividade e a expansão da indústria de biocombustíveis, deixando mais óleos comestíveis disponíveis para o setor alimentício.

"Não existe escassez de óleos comestíveis no momento, mas os preços subiram com as conversas sobre biocombustíveis", disse M.R. Chandran, um analista industrial independente e ex-chefe da Associação de Óleo de Palma da Malásia.

"Isso já tornou o óleo de palma inacessível para muitas pessoas na Índia e na China, onde o poder de compra é menor", disse Chandran ao Reuters Global Biofuels Summit.

Georges Mercadal, diretor da CMS Resources, com sede em Cingapura, afirmou: "Eu vejo potencial para um impulso inflacionário porque a demanda por combustíveis fósseis está crescendo."

O óleo de palma não-refinado, principal matéria-prima do biodiesel, está cotado atualmente a 554 dólares a tonelada, após subir 40 por cento em 2006. Já o petróleo bruto custa aproximadamente 361 dólares a tonelada, 34 por cento menos do que o valor máximo de 551 dólares, atingido em julho do ano passado.

A Malásia e a Indonésia, os dois maiores produtores de óleo de palma do mundo, devem destinar seis milhões de toneladas cada um de sua produção anual para a fabricação do biocombustível.

No entanto, autoridades da indústria disseram que levaria um longo tempo para que tal quantidade fosse consumida devido à falta de capacidade de processamento.

"Eu acredito que há óleo de palma suficiente no mundo para ser utilizado em biocombustíveis e também bastante para a indústria alimentícia", disse um grande trader de commodities ao Reuters Summit em Cingapura.

No mercado de grãos, o crescente apetite pelo milho para a fabricação de etanol nos EUA já elevou os preços na bolsa de Chicago aos maiores níveis em uma década.

Monte Shaw, presidente da Associação de Combustíveis Renováveis de Iowa, previu no Summit que a demanda por combustível oriundo do milho, como o etanol, pode aumentar ainda mais os preços do grão, mas que não haveria impacto para o consumidor.

"Uma caixa de 12 onças (aproximadamente 375 gramas) de flocos de milho custa 2,79 dólares, mas há menos de um centavo de milho ali. Digamos, então, que caso preço do milho varie de 2 para 4 dólares, o preço dos flocos de milho irá de 2,79 para 2,80 dólares. Grande coisa", disse Shaw.

Autoridades da indústria presentes no Summit disseram que os Estados Unidos poderiam produzir milho suficiente nos próximos anos para atender à demanda interna de alimentos e etanol, além de cumprir com as obrigações de exportação.

META DE BIOCOMBUSTíVEL

A Comissão Européia, que instaurou uma meta compulsória de biocombustíveis de 10 por cento para todos os combustíveis veiculares até 2020, disse que o uso está num patamar que não impedirá os produtores do bloco de cultivarem safras para os alimentos.

"Eu rejeitaria qualquer idéia de que não estamos nos preocupando seriamente com a produção de alimentos. A agricultura deve se manter diversificada, estamos muito conscientes das necessidades de determinados níveis de segurança alimentar na Europa", disse Michael Mann, porta-voz da comissária de agricultura da União Européia, Mariann Fischer Boel.

Autoridades da indústria européia disseram que havia espaço para ambos.

"A União Européia (UE) poderia produzir entre 10 e 11 milhões de toneladas de óleo de colza, das quais três toneladas, no mínimo, seriam destinadas à alimentação, deixando oito milhões para o combustível", disse o secretário-geral do Conselho Europeu de Biodiesel, Raffaello Garofalo.

Apesar disso, analistas da indústria na Malásia disseram já perceber uma redução na demanda por óleo de palma do setor alimentício.

"Já está ocorrendo um impacto nas exportações, se olharmos os dados dos últimos dois meses", disse uma autoridade industrial baseada em Cingapura.

As exportações de produtos de óleo de palma da Malásia em dezembro caíram quase 13 por cento, para 1.183.780 toneladas embarcadas em novembro, de acordo com a Societe Generale de Surveillance.

A Malásia aprovou 75 projetos de fabricação de biodiesel até agora. Os planos da Indonésia são igualmente altistas, com grandes players da indústria, como a Wilmar International Holdings e a gigante chinesa de petróleo CNOOC examinando instalações.

(1 tonelada de petróleo bruto = 7 barris)

Por Naveen Thukral e Sambit Mohanty
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