Biodiesel: Produção é estratégica para o futuro do País
Além da mamona, vista como solução para a produção de biodiesel no semi-árido do Nordeste do País, o Rio Grande do Sul, tradicional produtor de soja, projeta o uso dessa cultura para extração do combustível renovável que passa a ser adicionado ao óleo diesel na proporção de 2% até 2008 e de 5% até 2013.
A mistura vai reduzir a necessidade de importação de óleo diesel e também vai contribuir para a melhoria da qualidade do ambiente.
A lei que determina a adição de 2% de biodiesel ao óleo diesel consumido no País até 2008, aumentando para 5% até 2013 assegura mercado para 900 mil toneladas de óleo vegetal por ano na primeira fase - cifra que sobe para 2,7 milhões de toneladas a partir de 2013. Projetado pelo governo, inicialmente, como um programa de inclusão social para as famílias de agricultores de baixa renda do Nordeste, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou, em 4 de agosto, a primeira usina de biodiesel do País.
Localizada em Floriano, a 240 quilômetros ao sul de Teresina (PI), a usina tem capacidade para produzir 90 mil litros de biodiesel por dia. A demanda mundial por energia e a perspectiva de esgotamento das reservas de petróleo fazem, no entanto, que a produção de biodiesel se transforme não só numa atividade econômica, mas principalmente numa questão estratégica para o País.
O Rio Grande do Sul, tradicional produtor agrícola e que tem na soja sua principal cultura também se prepara para a produção do combustível - utilizando mamona, mas pensando na disponibilidade de soja e de outras culturas como girassol. A própria Brasil Ecodiesel, que teve a usina inaugurada no Piauí pelo presidente Lula manifestou interesse em implantar uma usina de refino na Metade Sul do Estado, como a direção da indústria informou ao governador Germano Rigotto no início de agosto.
Nessa ocasião, o diretor da Brasil Ecodiesel Nélson José Côrtes da Silveira calculou que o investimento chegaria a R$ 50 milhões. O prefeito de Passo Fundo, Airton Dipp, também pensa em ter uma usina de biodiesel em seu município e já assinou um protocolo de intenções com a BSBIO Indústria e Comércio de Biodiesel Sul Brasil para a instalação de um complexo do combustível com capacidade de produzir 69 milhões de litros de combustível por ano. Outra que pensa em investir na alternativa é a Granol.
A empresa vai reativar a planta da Centralsul que foi desativada há mais de 20 anos em Cachoeira do Sul, que iria recomeçar a processar soja para produzir óleo e farelo a partir do ano que vem e biodiesel a partir de 2009. A capacidade de processamento diário desta planta é de 1 mil toneladas de soja, 60 mil toneladas de óleo bruto e 240 mil toneladas de farelo.
Numa segunda fase de investimentos, até 2008, a capacidade de esmagamento subiria para 450 mil toneladas ano e a partir de 2009 poderia atingir 500 mil toneladas ano. A prefeitura de Rio Grande escolheu um caminho diferente para conquistar uma refinaria de biodiesel. Implantou uma lavoura piloto com 310 hectares de mamona cultivada por sete produtores.
A seca retardou o cultivo, que deveria ter sido feito nos meses de setembro e outubro, para o mês de janeiro e as plantas de áreas baixas acabaram sofrendo com o excesso de umidade. As plantas de áreas altas, mais arenosas, produziram normalmente. O secretário de agricultura do município, Adinelson Troca, diz que a intenção é incentivar cada produtor a plantar mamona em 10 a 20 hectares, utilizando áreas que em geral ficam ociosas.
Soja pode suprir as necessidades brasileiras
As possibilidades do Estado na produção de biodiesel foram discutidas nessa mesa-redonda promovida pelo JC Logística pelo diretor da Brasoja, Antônio Sartori, e pelo engenheiro agrônomo Alencar Paulo Rugeri, da Emater.
Jornal do Comércio - O biodiesel é um projeto que começou valorizando a agricultura familiar do nordeste, mas aqui no Estado já há um projeto piloto de plantio de mamona em Rio Grande. Há também projetos de usina em Passo Fundo e em Cachoeira do Sul. O Rio Grande do Sul tem potencial para explorar o biocombustível?
Antônio Sartori - Eu não tenho dúvida que sim, e acho que a gente deveria começar analisando qual a importância do biodiesel. Em 1971, as reservas internacionais comprovadas de petróleo eram 612 bilhões de barris. De lá para cá, o mundo consumiu 767 bilhões de barris. Hoje, a reserva comprovada é de 1,28 trilhão de barris. Da maneira como o mundo está consumindo e da maneira como se está projetando, é petróleo suficiente apenas para os próximos 25 anos. Então, sem dúvida temos que buscar outras fontes alternativas de energia renovável. Os Estados Unidos estão usando etanol a partir de milho. Nesse ano, os Estados Unidos devem consumir ao redor de 45 milhões de toneladas de milho para produzir etanol, porque eles não têm condições de produzir o combustível, como nós temos, a partir da cana-de-açúcar, que é de ciclo longo. Nos EUA, em função da definição de inverno, primavera, outono e verão, não tem como plantar cana-de-açúcar, a única opção, para os EUA, é fazer a partir do milho.
Isso nos afeta diretamente porque existe projeções de que nos EUA, como eles não têm opção dois, eles precisam continuar insistindo em uma opção alternativa. Eles vão aumentar a produção de milho em detrimento da produção de soja, o que vai beneficiar e trazer reflexos ao sojicultor brasileiro, numa previsão de médio e longo prazo. O que é importante é que para produzir uma energia de álcool, você gasta 0,3% em outras energias, ao passo que, para produzir uma energia de milho, você precisa de 1,3% de outras energias. Só com apoio do governo, com subsídio, para tornar exeqüível a produção com essa alternativa.
JC - Não é questão econômica, é questão política.
Sartori - Exatamente. Política estratégica. O Brasil tem um fantástico potencial de aumento da sua produção via produtividade e via fronteira agrícola. Nós somos um país que não planta, em termos de grãos, 50 milhões de hectares, plantamos 48 milhões de hectares, e só no cerrado nós podemos aumentar a fronteira agrícola em mais 90 milhões de hectares. Então nós temos o potencial de aumento de produção via fronteira agrícola, além do potencial de aumento de produção via produtividade. Tome-se o exemplo do milho: enquanto nós, no Brasil, temos uma produtividade média de 56 sacos por hectare, os argentinos têm 120 sacos por hectare, e os americanos, 168 sacos por hectare. Então o potencial que tem o Brasil é fantástico, não apenas de álcool, a partir de cana: em um futuro, quem sabe, a opção a partir do milho, como estão fazendo os americanos.
Mas, no curto prazo, usando o diesel B2 - a legislação brasileira diz que a partir de 2005 é obrigatório no mínimo 2% de adição de biodiesel no óleo diesel - nós teríamos um consumo extra de óleos vegetais de 900 mil toneladas. É um novo consumo, a partir de 2005. E uma projeção de 2,7 milhões de toneladas de óleos vegetais para compor o B5 a partir de 2013. O que nós temos que analisar é que o Brasil tem disponibilidade de óleos vegetais excedentes. Pegando o caso da soja, com uma produção de 50 milhões de toneladas, o Brasil exporta e processa perto de 30 milhões de toneladas, tem uma produção de óleo de soja de 5,5 milhões de toneladas, dos quais o consumo é ao redor de 3 milhões de toneladas e exporta 2,5 milhões de toneladas.
Então nós não precisaríamos de outras oleaginosas ou de outros óleos vegetais para ter a disponibilidade física de óleos vegetais para agregar ao B2 ou mesmo ao B5. Mas o governo entende, inclusive eu fiz uma palestra para a Fetag e para a Contag, com a presença do ministro Miguel Rossetto, e nós colocamos claramente o nosso entendimento da decisão política do governo de incentivar a produção de mamona, até porque a soja tem 19% de óleo vegetal, ao passo que a mamona tem 37%.
Isso é um programa social do governo, principalmente em áreas mais áridas, mais ao norte, que não teria condições de produzir outras oleaginosas, e é um programa que tem que ser apoiado.
JC - Então o Rio Grande do Sul não precisaria produzir mamona, na sua visão? O que diz a Emater?
Sartori - Ele não precisaria, mas poderia e deveria, e tem a opção.
Alencar Paulo Rugeri - Eu acho que nesse cenário que se apresenta, visto que o Brasil tem quase 60% do consumo da matriz energética de óleo diesel, e nós temos essa importação de cerca de 6 bilhões litros de óleo diesel, eu acho que o biodiesel vem suprir uma bela parcela, e esses óleos poderão ser obtidos de diversas fontes, dentre as quais a mamona, que está sendo bastante discutida inicialmente. A gente, como Emater, tem tido uma demanda muito forte nessas áreas consideradas marginais para a produção de soja. Acho que é uma alternativa.
Sartori - É uma opção, mas não é a solução.
Rugeri - Exatamente. As produtividades médias obtidas no País hoje são muito baixas. A mamona no Brasil tem uma área de 160 mil hectares, considerando os dados do IBGE, com uma produtividade em torno de 882 quilos por hectare. São dados muito restritos em termos de produtividade, sabendo que em trabalhos que a Embrapa tem realizado no Rio Grande do Sul, em Pelotas, há dados muito interessantes, com um modelo de cultivo diferente do que se realiza no resto do País, numa safra só. Mas aí nós entramos numa questão que acho que é de maior relevância, que é a pesquisa.
JC - Nós temos tecnologia para a soja mas não temos para a mamona.
Rugeri - Discutir a tecnologia da soja, para nós da extensão, é muito fácil. Todo mundo tem conhecimento, pequeno ou médio produtor, o pessoal sabe a semente que vai plantar, o herbicida que vai utilizar, o fungicida, tudo. E nessas outras culturas, o próprio girassol, que é outra alternativa em que podemos ter um aproveitamento maior, que é utilizar o que nós temos de culturas de inverno, para fechar esse ciclo. São alternativas interessantíssimas, complementares. Como principal, nós temos a soja, está bem claro. Mas para essas regiões consideradas marginais, como a Metade Sul, a mamona surge como uma nova alternativa, não como solução. Isso que o Sartori coloca eu acho que é de muita propriedade. Ela é uma opção, mas não a solução.
Sartori - Quando se fala em produtividade da soja, nós temos um posicionamento claro de não concordância com a tentativa do governo de modificar os índices de produtividade para efeito de desapropriação, querendo permitir que se desaproprie terras em que a produtividade de soja seja menor do que 2,1 mil quilos por hectare. O trabalho que nós temos da Brasoja, nos últimos cinco anos, dez anos, 15 anos, mostra que a produtividade média no Brasil é de 2,7 mil quilos por hectare. No Estado é 1,75 mil quilos por hectare, porque o Rio Grande do Sul tem um risco climatológico fantástico. Nos últimos 20 anos, o Estado teve nove problemas climatológicos, sendo que nos primeiros dez anos desse período, de 1985 a 1995, houve três problemas climatológicos e de 1995 até 2005, tivemos sete problemas climatológicos. Então tem que ficar claro que o Rio Grande do Sul tem o risco climatológico crescente. Você pode discutir efeito estufa, aquecimento do planeta, buraco de ozônio, o que você quiser. O Estado não tem opção dois, tem que partir para irrigação. Mas o sistema que nós precisamos adotar não é o do pivô central, em que, a cada 100 litros d’água tirados do solo, voltam para a raiz apenas 20 litros. Existe hoje tecnologias por gotejamento, em que a cada 100 litros que você tira voltam 80, 90 litros. Então nós precisamos investir em pesquisa, de novo a palavra pesquisa.
E de novo o equívoco estratégico do governo brasileiro de não disponibilizar recursos para a Embrapa, para fazer pesquisa, na velocidade e na abrangência que deveria fazer. O governo brasileiro tem menos recursos do que muitas empresas particulares ao redor do mundo disponibilizam para fazer pesquisa. A Monsanto gasta, por exemplo, US$ 1 milhão por dia em pesquisa. E olha qual é o orçamento da Embrapa? Qual é o da Fepagro, da própria Emater? É absolutamente ridículo, incipiente.
JC - No Estado, vocês acham que a produção deve se orientar como? No nordeste é uma alternativa de renda, mas não uma alternativa econômica. Aqui a produção deve ocupar espaços marginais ou áreas mais extensas e com tecnologia?
Sartori - Eu entendo que naquelas áreas que hoje ocupamos, como, por exemplo, no caso da soja, que é ao redor de 4 milhões, 4,1 milhões de hectares, esse ano infelizmente vão ser menores. O produtor vai plantar menos soja e mais milho, e vai plantar uma lavoura com muito menos tecnologia. No ano passado, o consumo de fertilizantes no Rio Grande do Sul chegou a 2,7 milhões de toneladas, e esse ano não deve chegar a 1,7 milhão de toneladas. É 1 milhão de toneladas de fertilizantes a menos.
Conseqüentemente, nós vamos ter uma lavoura com menos tecnologia, e com uma projeção de produtividade menor do que o potencial. Além de um exponencial risco climatológico, porque o raciocínio é simples: se você está bem de saúde, está saudável, está forte, uma gripe lhe incomoda. Se você está debilitado, a gripe lhe põe de cama. A nossa lavoura estará debilitada, e ficará mais exposta às conseqüências de um risco climatológico que tem acontecido em 70% dos casos nos últimos anos. É um fato incontestável, infelizmente.
Rugeri - Mas o milho, que é a lavoura que está sendo implantada no momento, para minha surpresa, o que nós temos acompanhado, os levantamentos preliminares, não é nada absoluto, mas há uma tecnificação considerável. As pessoas, como o Sartori colocou, saíram da soja, até pelas próprias previsões climáticas desse ano, e introduziram o milho. Em uma época anterior à que normalmente se faz, e com uma condição tecnológica surpreendente na questão de adubação. E eu acho isso muito interessante. Com a soja, eu tenho absoluta certeza, haverá prejuízos nessa área, mas no milho me parece que os agricultores estão investindo consideravelmente pelos levantamentos preliminares que a gente tem acompanhado. É claro que isso não vai suprir a demanda que deveria ocorrer, porque no ano passado as pessoas investiram em função do que vinha ocorrendo com a soja, mas eu acho que o cenário está muito obscuro.
Sartori - Infelizmente o nosso produtor não tem uma estratégia de comercialização definida. Ele não faz, como faz o americano, a rotação de culturas, milho e soja, soja e milho. O que se faz? Se faltou milho no Brasil, consumo 41, produção 37, vai faltar milho, o preço vai subir, vai todo mundo para o milho e diminui a soja. No ano seguinte, o milho cai e sobe a soja. Aí faz de novo ao contrário. O que realmente é um equívoco cultural de procedimento. O produtor deveria, inclusive por motivos agronômicos, fazer uma rotação de culturas, e também por motivos mercadológicos. Porque se vai todo mundo milho, é como se todo mundo fosse para o mesmo lado do barco: o barco vira. E é o que está parecendo que vai ocorrer esse ano.
JC - Cultura de verão nós não temos problema: tem a soja, o milho. Mas na cultura de inverno nós temos um problema, que é o trigo, com pouca área e ociosidade de áreas não cultivadas. Não seria mais racional procurar uma cultura que produzisse combustível de inverno? Existe essa cultura?
Rugeri- Existe. Essa é uma alternativa que deve fechar o ciclo das próprias indústrias, que daí já foge da minha alçada de conhecimento, da questão industrial, da transformação desses produtos, a mesma planta industrial transformar óleo de mamona, de soja, para beneficiar esse produto. Em termos de produtores, seria o cenário mais importante essa complementação inverno e verão, você conseguir ter essa possibilidade de mercado. Porque o mercado existe hoje em termos de culturas de inverno mas de uma forma um pouco restrita, fora trigo e cevada, que já tem um mercado mais estabelecido. Essas outras alternativas, como girassol ou canola, são restritas. A própria linhaça, que poderia ser utilizada também. Nós temos uma disponibilidade de área muito interessante para as culturas de inverno que estão sendo subutilizadas.
Nós estamos tendo menos riscos climáticos no inverno do que no verão. Esse é um cenário que, se aparece essa questão do biodiesel, com esse enfoque, eu acho que deverá se abrir esse leque até pela tradição do agricultor. Voltando à soja. A pessoa que tem tradição em plantar soja, dificilmente vai desembarcar daquela cultura se não tem um atrativo econômico muito interessante porque ele está acostumado. Ele é conservador na produção, em função de máquinas, de tradição, é uma questão cultural de ter essa metodologia. É a estrutura.
Sartori - Eu acho que é interessante analisar a cultura de inverno. Por enquanto a principal cultura que nós temos é trigo, e ali cabe um comentário também do ridículo que acontece no Brasil. Se você vai no exterior, como eu estive, três meses atrás, fazendo uma conferência em Londres para a comunidade européia, eu comentei que existe no Brasil um preço mínimo do trigo, de R$ 400,00 por tonelada, e quando o produtor colhe e quer entregar para o governo, o governo diz: ‘tem a lei, mas não tem o recurso’. Eles perguntam: ‘estás brincando, isso não existe’. Eu digo: ‘no Brasil, existe’. Mas não tem uma lei? Sim, tem uma lei. Mas o governo não tem o dinheiro.
Mas então não pode. No Brasil, pode. Esse é um fato. Além de o produtor ter, na cultura do trigo, um alto risco climatológico, ele planta acreditando que o governo diz que tem o preço mínimo de R$ 400,00, e hoje ele vai vender o trigo abaixo de R$ 20,00 o saco. Então o trigo desagrada. E como a área plantada com canola são nove mil hectares, o girassol são cinco mil hectares, no Rio Grande do Sul, à medida em que temos o petróleo acima de US$ 70, como nós temos hoje, passa a ser mais valorizada a opção de outros óleos vegetais. Em janeiro de 1999, o preço do petróleo era US$ 9,50. Os 11 países da Opep se reuniram e decidiram que o preço estava abaixo do valor. Vamos reduzir um pouco a oferta para que o preço venha em linha com o valor, que eles imaginaram US$ 15. Em janeiro de 2000, estava em US$ 29,50. Hoje nós estamos no mercado a US$ 70. O que nós temos que desprender desse entendimento? Hoje as mudanças de mercado ao redor do mundo são dramáticas.
Volatilidade é o nome do jogo. Alto risco, grande volatilidade, grandes mudanças. E em uma projeção de cenário de curto, médio e longo prazo, existe um consenso das limitações de produção de petróleo ao redor do mundo. Veja o exemplo da Arábia Saudita. Hoje produz 9,5 milhões de barris por dia. É 11% da produção mundial de 86,4 milhões de barris por dia. Os dois maiores campos petrolíferos da Arábia Saudita são de 1940. E o terceiro maior poço petrolífero é de 1950. Eles têm queda de pressão, já tem água misturada, o que mostra um esgotamento, e estão usando cada vez mais tecnologia, mais custo e mais dificuldade de extração. O preço do petróleo não é só conseqüência de uma demanda maior que a oferta. É que o custo é muito maior do que já foi há cinco, dez, 20 anos.
JC - Quando o senhor fala em curto, médio, longo prazo está falando de quantos anos?
Sartori - Eu gosto muito de uma projeção de uma conferência que foi apresentada em março desse ano no Agricultural Outlook Forum, em Washington, o maior fórum agrícola mundial, onde eu tive o orgulho de fazer uma conferência a convite do governo americano, há três anos. Quem fez a conferência em março desse ano foi Norman Borlaug, um homem fantástico, de 91 anos, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1970. Ele disse que nós temos que dobrar a produção de alimentos do mundo até 2050, e 85% desse aumento de produção será nas mesmas fronteiras agrícolas.
A FAO, no dia mundial da água, em abril desse ano, disse que nós temos que reduzir o consumo de água da agricultura até 2030 em 14%. Ora, se temos que dobrar a produção de alimento nas mesmas fronteiras agrícolas, e reduzir o consumo de água sabendo que o consumo de água, hoje, no mundo, 70% vai para agricultura, o que nos resta investir? Conhecimento, informação, pesquisa, tecnologia. Biotecnologia. Quer queira, quer não queira, é irreversível.
JC - O governo falou na criação de um mercado compulsório para acelerar o consumo de biodiesel. Isso pode ser uma medida que ajude a implantação?
Sartori - O que o governo definiu foi uma modificação da legislação já existente, e seria obrigatório o consumo a partir de 2005. Acontece que o governo está preocupado com a Brasil Ecodiesel, que tem uma disponibilidade de 20 mil toneladas de grãos armazenados de mamona, e isso daria apenas 7,2 mil toneladas. Isso aqui é ridículo, é folclórico. Mas é um começo, é uma preocupação social.
Como o ministro Miguel Rossetto colocou, bem claro, antes de ser um programa econômico é um programa de inclusão social. Nós temos que entender e respeitar essa visão do governo, para regiões menos favorecidas onde a cultura da mamona familiar vai ter um suporte do governo.
Rugeri - Até porque há isenções conforme a origem da aquisição, conforme a própria lei do governo federal, que eu acho que ela vem em um início para fomentar o desenvolvimento dessas novas alternativas, vem de uma forma muito interessante. Essa questão do desenvolvimento das alternativas ambientais, do Protocolo de Kyoto, são possibilidades também para essas novas alternativas da mamona.
De novo nós vamos cair na questão tecnológica que haverá de acontecer desenvolvimento e as próprias empresas privadas estão, como a Petrobras, desenvolvendo tecnologias para o desenvolvimento da produção, tendo em vista que nós temos a produção de álcool etílico com certeza com o melhor conhecimento em nível mundial. Nessa alternativa de desenvolvimento ambiental também vem com muita força.
Sartori - Eu quero aproveitar o gancho, porque você falou do Protocolo de Kyoto, e os Estados Unidos não assinaram, por que isso acontece? Porque eles fazem o que nós ainda não fizemos. Nós ainda precisamos fazer lobby do lobby. Nós ainda precisamos fazer lobby para mostrar para as pessoas que lobby não é tráfico de influências. Lobby não é sacanagem.
Lobby é uma profissão que é exercida em Bruxelas, Washington, Brasília, ao redor do mundo, de maneira profissional. E as empresas poluentes americanas fazem lobby, fazem pressão, porque os governos ao redor do mundo só funcionam sob pressão, até porque a carga de reivindicações que a sociedade exige dos governos é maior do que aquela que eles podem atender. E essas camadas menos favorecidas da sociedade, através das suas entidades organizadas, através da Fetag, Contag, estão pressionando o governo, em um lobby organizado, transparente, de que o governo dê mais apoio, mais recursos para a agricultura familiar.
E basta ver o orçamento do Mapa, do Roberto Rodrigues, e o MDA do Rosseto, o que estão ganhando. Então não adianta o grande produtor chorar e reclamar. O grande produtor precisa aprender com o produtor americano de leite. Quando termina Indianápolis, o vencedor toma um litro de leite. Ganha US$ 100 mil para tomar um litro de leite. É marketing.
JC - Muita mão do governo no biodiesel não pode acabar produzindo um novo Proálcool? Primeiro, produzindo praticamente só carro a álcool, e de repente ninguém mais usava.
Sartori - Sempre que o governo se envolve e define uma política social, ela fica desconectada do mercado. Só que eu não acredito que, mesmo que se aumente a produção de mamona, principalmente, em áreas marginais, de pouco potencial de produção para outras culturas, vá desbalancear ou vá afetar, porque me parece claro e transparente uma projeção de cenários em que existe uma limitação de disponibilidade de óleo cru, de óleo bruto. Podemos discutir o ano. Pode ser 2025, 2030, 2035. É tudo que podemos discutir.
Mas que a disponibilidade é finita é. E existe uma projeção de preços mais altos, o que vai tornar economicamente mais viável a produção de oleaginosas em todo o Brasil, principalmente no Centro-Oeste, onde falta infra-estrutura, que é um tremendo gargalo que nós temos no Brasil. Os fundamentos do cenário são otimistas numa projeção de curto prazo, médio prazo, longo prazo. Se entende longo prazo 2050. Médio prazo os próximos dez, 15 anos. E curto prazo a sobrevivência que nós temos no dia-a-dia.
JC - E o produtor, começa a discutir isso, está fazendo planos?
Rugeri - A demanda que nós temos sobre as novas alternativas em função desses cenários que vêm se formando nos últimos anos de estiagem, o produtor está sedento de novas alternativas para que as influências climáticas tenham uma influência menor na cadeia produtiva. Eu cito como exemplo a cana-de-açúcar, que também é uma alternativa de biocombustível...
JC - Que área o Estado tem com possibilidade de plantar cana-de-açúcar?
Rugeri - O que nós temos hoje no Rio Grande do Sul é em torno de 35 mil hectares plantados, sendo que desses em torno de dez mil hectares são utilizados de forma industrial. Desses dez mil, há dois mil hectares para produção de álcool. Então é muito restrito.
Nós temos uma área considerável, não como solução, mas como alternativa para algumas regiões. Em Porto Xavier nós temos uma usina que, depois de ene percalços de logística, de planejamento de instalações de lavouras em áreas acidentadas se vê que isso hoje ela não permite....
Sartori - Qual é a produtividade da cana no Rio Grande do Sul?
Rugeri - Hoje nos temos em torno de 40 toneladas por hectare.
Sartori - E a média nacional é 87.
Rugeri - É 87 toneladas por hectare, e até com possibilidades maiores. Aí nós temos que considerar dois fatores: a área industrial e a área de consumo próprio. Essa alternativa da cana, nós temos produtividades médias industriais em torno de 80 toneladas por hectare. Quando chega a 60, elas não são mais consideradas lucrativas.
Nós temos trabalhos ocorridos aqui em levantamentos experimentais com mais de 200 toneladas por hectare. Mas isso são em áreas experimentais e o nosso agricultor, voltando à sua pergunta, ele pensa sempre em áreas marginais para essas culturas. A grande dificuldade é trabalhar como uma cultura que seja a principal, ou uma das principais dentro daquele esquema de rotação que é uma questão que não tem doenças, a pressão que ocorre com você sempre na mesma cultura, você tem uma pressão de seleção para ocorrência de doenças.
JC - A partir desses dados de áreas, de cultivares alternativos, o Estado seria capaz de ser auto-suficiente ou ainda teria que buscar combustível fora?
Sartori - Esse ano, infelizmente o Rio Grande do Sul vive o maior problema climatológico, que não foi uma estiagem, foi uma seca dramática, e nós colhemos uma safra de soja de 2,5 milhões de toneladas, em uma área plantada de 4,1 milhões de hectares. No ano passado, praticamente na mesma área, a produção foi de 6,3 milhões de toneladas. E no ano retrasado, 9,8 milhões de toneladas. Então é uma condição normal de safra. O Estado tem esmagado nos últimos anos 4 milhões de toneladas, mas o parque industrial tem condições de esmagamento de 6 milhões de toneladas.
Se usarmos toda a nossa potencialidade e esmagarmos 6 milhões de toneladas de soja, se produziria 1,2 milhão de toneladas de óleos vegetais. Então, o Rio Grande do Sul tem, sim, óleos vegetais disponíveis no curto prazo para agregar ao B2 com sobra. O excedente exportado poderia perfeitamente ser canalizado como B2.
JC - Exportado como grão?
Sartori - Como grão. Nós exportamos esse ano o recorde histórico de baixa exportação, 200 mil toneladas, no ano passado foi 2,2 milhões, e no ano retrasado 4 milhões. Então, nós poderíamos aumentar nosso parque industrial, não exportar, além do que, aquilo que hoje é processado é mais do que suficiente para atender ao mercado interno e a demanda de B2 no curto prazo.
JC - E as esmagadoras seriam as mesmas, as que processam óleo comestível e óleo combustível?
Sartori - O óleo é o mesmo, o óleo bruto degomado, é o mesmo. Só que o destino dele, em vez de ser direcionado para o refino, para o consumo humano, ele seria direcionado em um processamento diferente.
Rugeri - Nós teríamos, só na mamona, precisaríamos em torno de 60 mil hectares de mamona, é uma pequena área, para ser atingida.
Sartori - No curto prazo, nós temos disponibilidade de óleos. Isso não significa o nosso posicionamento contra a mamona. É que nós somos a favor da soja.
JC - Falando em preço, 900 ml de óleo de soja comestível custa mais ou menos R$ 2,00. O óleo diesel vai de R$ 1,60 a R$ 1,82. Se sou produtor, vou fazer óleo de soja comestível e não combustível. Como se adequa isso? Com incentivo?
Sartori - Não, não é esse o cálculo. A sua pergunta é coerente. Só que na prática, na realidade, o biodiesel hoje, ao redor do mundo, só funciona com apoio de governo. Com incentivos, ou com isenção. Na Alemanha, por exemplo, existe bombas de óleo biodiesel que é mais barato do que o diesel porque a incidência de impostos é zero.
Só por esse motivo, não tem carga tributária. E é um posicionamento estratégico do governo alemão de ter uma fonte alternativa e não ter dependência. Aí entra estratégia. Essa é a palavra chave. No caso de outra alternativa de energia renovável, não é só o cálculo econômico, porque com o preço do petróleo a US$ 70 facilita a viabilização econômica. Mas é uma postura estratégica de governo entender que é mais importante, mesmo que custe mais caro.
Rugeri - O custo estimado que se tem de produção de óleo, cerca de 70% a 80% do valor do produto, falando-se em grão, para transformar em óleo, me parece que nesse desenho que está hoje e deverá continuar, já parece viável. A própria soja, se nós estimarmos a R$ 0,50 o quilo da soja, nós temos cerca de 18% de óleo, então ela... Eu acho que o grande problema da soja é o volume de óleo, mas nós temos um volume muito grande de produção que vai atender de forma integral essa produção de óleo. E em outros óleos como o da mamona, o do girassol, que tem um valor agregado muito interessante, que é um óleo mais nobre, aí é uma questão de mercado que deverá ser adaptado.
JC - Nós somos um dos poucos países do mundo que tem ainda uma grande fronteira agrícola. Podemos ser os países árabes do combustível vegetal?
Sartori - Energia. É um pouco mais do que combustível. Combustível como fonte de energia. Nenhum país do planeta terra tem um potencial que tem o planeta Brasil. Em termos de produção de energia eólica, solar, através do uso das águas, termo e através da biomassa. Portanto, se o futuro do mundo depende de energia, o futuro está no Brasil.


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