Quando a Lei do Biodiesel foi promulgada pelo Governo Federal em janeiro de 2005, a expectativa era que Pernambuco figurasse como um dos grandes fornecedores de matéria-prima, em especial de mamona. Estimava-se que, em 2008, a área plantada no Estado atingisse 100 mil hectares. Porém, a realidade vista neste começo de 2007 é muito diferente. A área plantada é de apenas 4.232 hectares e a produção, em 2006, foi de 1,2 mil toneladas, segundo dados da Brasil Ecodiesel. Pior: os pequenos agricultores que acreditaram no cultivo da oleaginosa estão à deriva, sem assistência técnica, tecnologia, produtividade e, principalmente, retorno financeiro. A situação é mais grave no Agreste do Estado, que, diferentemente dos Sertões do Pajeú, Araripe e do São Francisco - regiões que ainda apresentam alguns casos de sucesso - padece cada vez mais de condições para uma produção sustentável. Nos assentamentos de Cristo Rei e Barra Nova, distantes 10 quilômetros do município de Águas Belas, não existem tratores suficientes para arar o solo. Os pequenos produtores que lá residem são atendidos pelo Projeto Reforma Agrária e Biodiesel da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que distribui sementes selecionadas da Embrapa Semi-Árido e fornecem R$ 70 para cada participante.
Entretanto, as 25 famílias que plantaram mamona dentro do programa, em 2006, tiveram colheitas ruins, pois a falta do equipamento atrasou o plantio em cerca de dois meses da data ideal - que deveria começar em fevereiro, época das primeiras “trovoadas” (chuvas), mas que só teve início em junho. A produtividade foi tão baixa que cem quilos das sementes fornecidas acumulam poeira no canto da sala da casa do presidente do assentamento de Barra Nova, José Ezito Pereira da Silva. Ele mesmo plantou cinco quilos em 1,5 hectare, gastando todo o recurso recebido, mas não colheu (nem recebeu) nada.
Alzira Alves da Silva, agricultora que reside próximo ao assentamento de Cristo Rei, plantou cinco hectares da oleaginosa e colheu apenas 40 quilos de grãos de qualidade irregular. “Faz até vergonha”, lamenta. Assim como a maioria dos assentados, ela desconhece o processo de obtenção de biodiesel ou sua utilidade e importância, além de não saber por quanto comercializar os grãos, mesmo sendo parceira da Usina Federal de Caetés, que compra toda a produção dos assentados, segundo consta nas propostas do Projeto da UFRPE.
Outro que se decepcionou com a mamona foi José Aparecido Cardozo da Silva, assentado de Barra Nova. “O trabalho é apertado e o retorno é muito pouco. É preciso limpar o terreno mais de uma vez e eu tenho que pagar alguém para fazer por R$ 10 o dia”, justifica. A falta de tecnologia no semi-árido pernambucano se configura como um dos principais empecilhos ao desenvolvimento da cultura da mamona. Enquanto na Bahia e na Paraíba são colhidos mil quilos por hectare, em Pernambuco, colhe-se, em média, 200 quilos, ressalta o chefe técnico de pesquisa da Embrapa Algodão, Napoleão Beltrão.
Em meio aos diversos motivos apontados por pesquisadores e técnicos para a mamona não ter deslanchado em Pernambuco, dois se sobressaem. O primeiro é a falta de um projeto estadual de suporte e incentivo ao cultivo da oleaginosa para produção de biodiesel, e o segundo, a precariedade na assistência aos produtores. O pouco apoio existente é fornecido pelas usinas privadas. “Mas é assistência para inglês ver. Os técnicos aparecem no dia de plantio e voltam apenas na colheita. Isso não é assistência”, diz o pesquisador da Embrapa Algodão Liv Soares Severino.
“Temos que ser realistas: o programa criou uma expectativa muito grande. Achava-se que a mamona era a planta perfeita e que só era preciso plantar, colher e vender por preços altos. Depois viram que não era tão simples assim. O grande problema é que o Governo Federal pensou que apenas criar a demanda por mamona resolveria os problemas sociais”, explica Severino.
O presidente da Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária (IPA), Júlio Zoé de Brito, lembra que uma das metas de sua gestão será dar sustentabilidade à mamona como matéria-prima energética. “Pretendemos treinar, primeiramente, nossos técnicos para que eles repassem os conhecimentos aos filhos dos agricultores, que exercerão o papel de agentes de desenvolvimento”, promete. Mas nada saiu do papel ainda.
Já quanto a um projeto por parte do governo estadual, sequer as conversações com os agentes do setor foram marcadas. Em um primeiro momento, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (Sectma) seria a responsável natural pela coordenação do programa. No entanto, a secretária executiva de Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Sectma, Eliane Veras, afirma que não haverá uma centralização da tarefa, e sim uma articulação por parte da secretaria.
CATARINA CRISTO e FELIPE LIMA
Entretanto, as 25 famílias que plantaram mamona dentro do programa, em 2006, tiveram colheitas ruins, pois a falta do equipamento atrasou o plantio em cerca de dois meses da data ideal - que deveria começar em fevereiro, época das primeiras “trovoadas” (chuvas), mas que só teve início em junho. A produtividade foi tão baixa que cem quilos das sementes fornecidas acumulam poeira no canto da sala da casa do presidente do assentamento de Barra Nova, José Ezito Pereira da Silva. Ele mesmo plantou cinco quilos em 1,5 hectare, gastando todo o recurso recebido, mas não colheu (nem recebeu) nada.
Alzira Alves da Silva, agricultora que reside próximo ao assentamento de Cristo Rei, plantou cinco hectares da oleaginosa e colheu apenas 40 quilos de grãos de qualidade irregular. “Faz até vergonha”, lamenta. Assim como a maioria dos assentados, ela desconhece o processo de obtenção de biodiesel ou sua utilidade e importância, além de não saber por quanto comercializar os grãos, mesmo sendo parceira da Usina Federal de Caetés, que compra toda a produção dos assentados, segundo consta nas propostas do Projeto da UFRPE.
Outro que se decepcionou com a mamona foi José Aparecido Cardozo da Silva, assentado de Barra Nova. “O trabalho é apertado e o retorno é muito pouco. É preciso limpar o terreno mais de uma vez e eu tenho que pagar alguém para fazer por R$ 10 o dia”, justifica. A falta de tecnologia no semi-árido pernambucano se configura como um dos principais empecilhos ao desenvolvimento da cultura da mamona. Enquanto na Bahia e na Paraíba são colhidos mil quilos por hectare, em Pernambuco, colhe-se, em média, 200 quilos, ressalta o chefe técnico de pesquisa da Embrapa Algodão, Napoleão Beltrão.
Falta de suporte afeta cultivo
BRITO: repasse de conhecimento a filhos de agricultoresEm meio aos diversos motivos apontados por pesquisadores e técnicos para a mamona não ter deslanchado em Pernambuco, dois se sobressaem. O primeiro é a falta de um projeto estadual de suporte e incentivo ao cultivo da oleaginosa para produção de biodiesel, e o segundo, a precariedade na assistência aos produtores. O pouco apoio existente é fornecido pelas usinas privadas. “Mas é assistência para inglês ver. Os técnicos aparecem no dia de plantio e voltam apenas na colheita. Isso não é assistência”, diz o pesquisador da Embrapa Algodão Liv Soares Severino.
“Temos que ser realistas: o programa criou uma expectativa muito grande. Achava-se que a mamona era a planta perfeita e que só era preciso plantar, colher e vender por preços altos. Depois viram que não era tão simples assim. O grande problema é que o Governo Federal pensou que apenas criar a demanda por mamona resolveria os problemas sociais”, explica Severino.
O presidente da Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária (IPA), Júlio Zoé de Brito, lembra que uma das metas de sua gestão será dar sustentabilidade à mamona como matéria-prima energética. “Pretendemos treinar, primeiramente, nossos técnicos para que eles repassem os conhecimentos aos filhos dos agricultores, que exercerão o papel de agentes de desenvolvimento”, promete. Mas nada saiu do papel ainda.
Já quanto a um projeto por parte do governo estadual, sequer as conversações com os agentes do setor foram marcadas. Em um primeiro momento, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (Sectma) seria a responsável natural pela coordenação do programa. No entanto, a secretária executiva de Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Sectma, Eliane Veras, afirma que não haverá uma centralização da tarefa, e sim uma articulação por parte da secretaria.
CATARINA CRISTO e FELIPE LIMA