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Alimento sobe de preço com pressão dos biocombustíveis

A disputa por matéria-prima entre energia e alimentos, a despeito de toda a polêmica envolvida, está elevando o preço dos produtos agrícolas.
DCI 4 min de leitura
A disputa por matéria-prima entre energia e alimentos, a despeito de toda a polêmica envolvida, está elevando o preço dos produtos agrícolas que servem tanto para a nutrição animal e humana quanto para a fabricação de etanol e biodiesel.

Segundo dados compilados pela Bloomberg, a cotação do milho na Bolsa de Chicago fechou a semana passada 57% acima do preço de um ano antes, mesmo tendo caído já cerca de 20% desde que alcançou recordes históricos no mês de fevereiro. No caso da soja, a alta na mesma comparação chega a 35%. No mercado interno, os números da consultoria Safras & Mercado mostram que a soja e o milho estavam respectivamente 20% e 28% mais caros no Porto de Paranaguá (PR) na semana passada na comparação com os valores de um ano antes.

A disputa entre bioenergia e alimentos não traz risco de desabastecimento de comida, mas fará ela chegar mais cara no prato do consumidor final. Essa é a avaliação do especialista em biotecnologia Pearse Lyons, irlandês que fundou a empresa Alltech. Atuando no ramo há 27 anos e em 25 países com sua empresa, Lyons visitou o Brasil na semana passada e disse acreditar que o aumento da demanda, em destaque pela cana-de-açúcar e pelo milho, para a produção de biocombustíveis, terá um impacto maior no custo dos alimentos para o consumidor, mas a produção de alimentos não corre o risco de comprometimento.

Mas Lyons reconhece que está em curso uma disputa por matérias-primas que está dando o tom da biotecnologia, obrigada a buscar saídas para amenizar os efeitos de uma nova demanda por produtos antes voltados apenas para a alimentação.

Já o presidente da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Eduardo Pereira de Carvalho, o conceito de que haverá uma “guerra” por milho, cana e outros produtos, foi difundido pela indústria do petróleo, receosa com o aumento da utilização de biocombustíveis. “Ao incorporar esse ideário, estamos dormindo com o inimigo”, critica Carvalho.

Soluções em novas tecnologias
Entre as soluções que já estão sendo estudadas pela biotecnologia para responder à nova realidade do mercado agrícola mundial, Lyons destaca a melhoria da qualidade das rações, para aumentar a produtividade dos animais com a mesma quantidade de grãos. Outra linha com o mesmo objetivo são as pesquisas de melhoramento genético, com destaque para os suínos e as aves.

O gerente de negócios da Alltech no Brasil, Reginaldo Padovan, comenta que esses estudos são mais avançados nos paises da América Central e na Ásia . “Essas localidades exigem uma demanda maior nesse trabalho, pela sua dificuldade na produção de alimentos”, justifica ele.

Alem do melhoramento das rações e dos animais, as pesquisas se estendem para a área de enzimas, para desenvolver um processo viável de fabricação de etanol a partir das fibras e resíduos de celulose. Lyons dá o exemplo do milho: é necessária uma tonelada de milho para a produção de 379 litros de etanol puro, mas no processo são descartados 330 quilos de uma fibra que poderia ser transformada em mais etanol.

Padovan ressalta que essa demanda crescente não afeta apenas o mercado de milho, matéria-prima do biocombustível, mas também outros produtos que acabam perdendo área plantada para o grão com preços em alta. Nos EUA, a área plantada de soja deve cair 11% com os produtores migrando para o milho.

Na avaliação do especialista, os EUA poderão adotar um teto para o processamento de produtos agrícolas em biocombustíveis, a exemplo do que já fez a China. “O setor de carnes está se voltando para a ação política para tentar evitar um aumento no preço das rações”, alerta ele.

Ricardo Carvalho e Priscila Machado
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