Negócio

Desconfiança com política da Petrobras é 'exagerada', diz integrante do Conselho


Valor Econômico - 09 fev 2021 - 09:17

A desconfiança do mercado em relação à política de preços da Petrobras é "exagerada" e os resultados da empresa ao longo de 2020 – com geração de caixa e redução de dívida – comprovam a autonomia da gestão da estatal. No entanto, os ruídos vindos de Brasília em torno dos preços de combustíveis, na esteira de preocupações sobre interferências políticas, pioram a percepção de risco do mercado, o que se reflete na desvalorização das ações.

Essa é a avaliação de Marcelo Mesquita, sócio-fundador da Leblon Equities e conselheiro eleito pelos minoritários na Petrobras. "Todas as vezes que o presidente da República manifesta um desconforto ou fala que está preocupado com preço de gasolina ou diesel, a ação sofre. Então, começam boatos, fofoca, todo esse mise-en-scene", afirma Mesquita, em entrevista, ao Valor.

Ele ressalta que, hoje, existem uma série de medidas e órgãos reguladores que evitam intromissão na política da Petrobras, como o TCU, ANP, CVM, CADE e Ministério Público. "Essa é uma grande proteção que existe hoje. Existem várias instituições de controle que tornam muito difícil ocorrer uma ingerência", diz o profissional.

"Do ponto de vista da gestão da empresa, a Petrobras tem total autonomia. Tem feito a paridade internacional com certo prêmio. Em 2020, vivemos a pior crise dos últimos 100 anos. Teve até preço negativo de petróleo. Não faria sentido ajustar a toda hora os preços de combustíveis com tanta volatilidade no câmbio e nos preços de petróleo no mundo. Foi um ano totalmente atípico. Mesmo assim, a empresa gerou caixa em 2020, e não aumentou o endividamento", explica.

Para ele, a preocupação com política de preços é "uma tempestade no copo d'água", mas "faz parte do jogo". "Não tem razão para desespero, é uma tempestade no copo d'água, mas faz parte do jogo. O presidente da República, em vez de focar em grandes reformas ou em privatizações, olhou para combustíveis e pegou o mercado em um momento ruim", explica.

Ele destaca que não é possível dissociar a desvalorização das ações da Petrobras de episódios recentes de ruídos em Brasília. "Tivemos mudança na presidência da Eletrobras, a saída de Salim Mattar, a discussão sobre os planos do Banco do Brasil. A Petrobras está em um nível diferente, mas fica o receio no mercado se o governo vai interferir", explica.

"Por mais que, olhando para trás, não tenha ocorrido nada, e os fatos comprovem que a preocupação é um exagero, a percepção de risco piora", diz Mesquita.

Para o gestor, essa desconfiança deve passar com o tempo conforme a empresa continue exercendo sua liberdade - como ocorreu hoje com ajuste de preços de combustíveis. "A Petrobras precisa fazer o que tem feito, de atuar em preços de tempos em tempos conforme as referências internacionais", diz. "É algo que vai acontecer no dia a dia. Precisamos de tempo para mostrar o exercício de liberdade da empresa e para o presidente mostrar que aprendeu com esse caso, sobre como lidar com sensibilidade ao risco percebido no mercado", diz.

Para ele, a grande questão da Petrobras não está em política de preços, mas sim na reestruturação de negócios. "Está saindo de negócios que não dão lucro e está reduzindo a dívida. Isso vai ter um impacto gigante no futuro e a empresa vai ser mais lucrativa. Isso é o mais importante. A política de preços é detalhe, não era para ser tão grande", diz.

Lucas Hirata – Valor Econômico