Bioquerosene

Projeto testa pinhão-manso para biodiesel e querosene


Gazeta do Povo - 28 fev 2012 - 10:06 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53

Com alto rendimento de óleo e ciclo perene, o pinhão-manso é hoje uma das mais promissoras oleaginosas para a produção de biocombustíveis e ganha espaço nas terras vermelhas do Nor­­te paranaense. Para a indústria de biodiesel e querosene de avia­­ção, pequenos agricultores cultivam 90 hectares com a ár­­vore de amêndoas.

A cultura ainda é mais uma promessa do que uma alternativa concreta na produção de biocombustíveis. Para que esse cenário mude, uma série de pesquisas está em andamento nas universidades e institutos agrícolas do Brasil.

Enquanto a soja, principal matéria-prima da indústria de biodiesel no país, oferece cerca de 500 quilos de óleo por hectare, o pinhão-manso tem po­­tencial para produzir 1,5 mil quilos na mesma área. A comparação é do engenheiro agrônomo da Embrapa Bruno La­­viola, que coordena um projeto nacional de domesticação do pinhão-manso.

“Estamos trabalhando no melhoramento genético para desenvolver variedades mais produtivas e sistemas de produção que possam ser recomendados ao produtor”, explica. As pesquisas estão focadas na determinação de melhores estratégias para poda, densidade de plantio, nutrição mineral, controle de pragas e doenças, reguladores de crescimento e colheitas.

Além do rendimento maior, o pinhão-manso tem a vantagem de não concorrer com o mercado alimentício, como a soja. A planta, segundo Laviola, é de fácil manejo, mas é pouco tolerante a geadas e não se de­­senvolve bem em regiões muito frias. Por isso, no Paraná, a região Norte é a mais indicada.

Para impulsionar a entrada do Paraná na era da produção de biodiesel em escala, a cadeia produtiva do pinhão-manso na região criou parcerias. Um viveiro fornece as mudas a pequenos agricultores, uma empresa oferece assistência técnica e duas usinas da região compram o óleo para processamento pelo valor de R$ 0,80 a R$ 1,00 o quilo.

“Já temos 100 mil mudas plantadas em Rolândia, Cambé e Londrina. São 70 famílias cultivando 90 hectares”, conta o engenheiro agrônomo Gu­­mercindo Fernandes, da usina Biopar. A proposta, segundo ele, é chegar a mil hectares até 2015.

Tradicionalmente, o pi­­nhão-manso era utilizado na produção de sabão e como purgativo para o gado. Hoje, além de biodiesel e bioquerosene, o óleo extraído da semente segue para a fabricação de tintas e vernizes.

A seiva é matéria-prima para a produção de medicamentos, como o de combate à malária. A torta resultante da extração do óleo constitui excelente adubo orgânico e é também uma potencial fonte de proteína para suplemento de animais.

Mecanização da colheita começa com derriçadeira
As pesquisas têm buscado adequar o cultivo do pinhão-manso às diferentes características ambientais. Estudos estão testando sistemas de plantio, espaçamento para cultivo solteiro e consorciado, curvas de acúmulo de nutrientes e o estabelecimento de manejo integrado. Para a colheita, a busca é por alternativas que concentrem e uniformizem o trabalho, além de adaptar derriçadeiras e colheitadeiras usadas em outras culturas, visando aumentar o rendimento e diminuir custos.

O equipamento já disponível no mercado para a colheita do pinhão-manso é parecido com a colheitadeira de café. A Associação de Produtores Rurais de Pinhão Manso (APPM) pretende adquirir a máquina, que custa em torno de R$ 450 mil, para locar aos produtores, até que possam comprar suas próprias. “Por enquanto, as alternativas que temos são a colheita manual e com derriçadeiras”, explica o presidente da entidade, Aguimario Alves.

A utilização da colheitadeira faz toda a diferença. En­­quanto um trabalhador apanha manualmente três sacos por dia, a colheita mecanizada alcança três toneladas por ho­­ra. Com a derriçadeira, são co­­lhidos 50 sacos por dia.

O início da produção do pinhão-manso se dá com 15 meses, alcançando até 600 quilos por hectare, dependendo de condições locais, de clima e de solo. No segundo ano, a produtividade aumenta para cerca de 1,5 mil quilos por hectare, passando para três toneladas no terceiro ano. A partir do quarto ano, a produção sobe para cerca de cinco mil toneladas. Além de crescer rápido, o pinhão-manso floresce de três a cinco vezes ao ano e tem, em média, 50 anos de vida.

Pequenos exploram potencial
A revolução que o pinhão-manso pode representar na produção de biodiesel, por enquanto, vem sendo explorada por pequenos agricultores, que consorciam a oleaginosa com plantações de milho, mandioca e feijão. “Também é possível plantá-lo no pasto em que se cria o gado”, afirma o produtor Aguimario Alves, presidente da Associação de Produtores Rurais de Pinhão Manso (APPM). Grandes investimentos só devem ocorrer quando houver mais avanço nas pesquisas de laboratório e no manejo da cultura.

O investimento necessário na produção, entre os produtores familiares, fica por conta das mudas, do adubo e a mão de obra. “Fica em torno de R$ 1,5 mil por hectare. Com as duas primeiras colheitas, esse investimento pode ser recuperado”, garante Alves. O produtor precisa esperar quase um ano e meio até a primeira colheita.

Como têm contrato de 20 anos com a Biopar, os produtores da região de Londrina têm a venda da safra garantida. Ao preço de R$ 1 o quilo, a renda bruta anual gira em torno de R$ 5 mil por hectare. O valor é mais de 50% maior que o da soja. A expectativa dos investidores é que a rentabilidade se mantenha nos próximos anos.

JULIANA GONÇALVES