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[Conferência 2011] O ser humano não pode ser esquecido no debate sobre o biodiesel


BiodieselBR.com - 31 out 2011 - 21:55 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:18

Com uma palestra que foi interrompida cinco vezes por aplausos do público, o Dr. Paulo Saldiva, professor do curso de medicina da Universidade de São Paulo e um dos maiores especialistas do mundo nos impactos que a poluição atmosférica urbana produz sobre a saúde humana, apresentou os resultados de sua pesquisa para os participantes da Conferência BiodieselBR 2011. Seu tema “O impacto do biodiesel na saúde da população” foi apresentado no segundo dia do evento, recebendo muitos elogios da platéia.

Segundo ele, participar de um evento como a Conferência BiodieselBR foi uma chance única de falar com pessoas do setor produtivo que podem contribuir para reduzir o problema da poluição urbana nas cidades brasileiras. Segundo ele, dados coletados nas imediações da Av. Dr. Arnaldo – uma das mais importantes e movimentadas ligações urbanas da cidade de São Paulo – mostram uma média de 120 microgramas de material particulado por metro cúbico de ar, quando o limite é de 25 microgramas. “A gente perde 1,2 anos de expectativa de vida para cada 10 mg por metro cúbico e a concentração média de São Paulo no ano passado foi 42 mg!”, alertou com preocupação.

Segundo o médico, a exposição crônica a esse tipo de contaminação leva os paulistanos a viverem sob constante estado de inflamação pulmonar, o que, por sua vez, aumenta o risco de doenças cardiovasculares. Como 40% da poluição paulistana vem de veículos pesados, para Saldiva, adotar soluções que diminuíssem as emissões de poluentes desses veículos seria a medida mais eficaz para melhorar a saúde dos moradores da maior cidade do país. “É nesse contexto que eu coloco o biodiesel”, comentou.

O médico diz que enquanto a legislação ambiental brasileira avançou no campo e na floresta, na cidade ela se manteve indiferente aos avanços do conhecimento científico. “Para fazer um túnel novo do metrô ou um corredor de ônibus eu preciso apresentar um baita estudo de impacto ambiental da obra, mas para licenciar mil carros por dia não preciso de absolutamente nada”, indignou-se.

Segundo pesquisas publicadas pelo New England Journal of Medicine – uma das mais respeitadas publicações científicas da área médica –, cerca de um terço dos anos acrescentados à expectativa dos norte-americanos entre os anos 1980 e 2000 está diretamente relacionado com a redução da poluição atmosférica nas cidades norte-americanas. “São Paulo tem hoje a qualidade do ar que Los Angeles tinha nos anos 80. Nem precisaria de tanto. Se eu pudesse pegar o ar de São Paulo e trocar com o de Curitiba os paulistanos viveriam 3 anos e meio a mais”, criticou. Ele apontou também que, em termos de saúde pública, os ganhos de um ar mais limpo seriam maiores do que se o tabagismo fosse erradicado da população brasileira.

Saldiva foi um dos 12 autores de um estudo mostrando que as políticas de combate às mudanças climáticas produzem um efeito colateral muito benéfico em termos de saúde humana.  “Ou seja, ser sustentável também é saudável”, brincou. Mesmo assim, boa parte das iniciativas necessárias para que tenhamos um ar mais limpo nas cidades acaba patinando na questão financeira. “Todo mundo calcula quanto custa para mudar algo, mas pouquíssima gente percebe que também pagamos um preço para manter do jeito que está. Custa trocar o diesel pelo biodiesel? Certamente mais caro. Mas quanto isso produz de economia indireta na área de saúde?”, questionou, lembrando que durante a última temporada de estiagem em São Paulo, quando a umidade do ar caiu, o risco de morte por doença cardíaca na cidade multiplicou-se por inacreditáveis 11 vezes.

“A indústria do biodiesel deveria valorizar esse argumento. Porque se a gente calcular o ciclo do combustível só da usina até a bomba, estamos contando a história pela metade”, pontificou Saldiva, defendendo que passemos a incorporar no debate a questão da saúde urbana tanto quanto a produtividade das usinas ou o número de empregos gerados e lembrando que 87% da população brasileira já vive em cidades. “O biodiesel é uma enorme vacina contra os riscos da poluição, precisamos temperar essa discussão com a questão da saúde”, completou.

A saúde da população não é única vítima do processo. O ciclo de chuvas paulistano também mudou brutalmente por causa da poluição do ar. Segundo o professor, as ilhas de calor somadas com a maior quantidade de material particulado foi o que levou a cidade de São Paulo a trocar sua tradicional garoa por enxurradas torrenciais.

Após assistir a palestra, os presentes lamentavam entre si que a apresentação não tenha sido a primeira do evento. A sugestão mais recebida pela organização do evento foi para dar um destaque maior ao tema abordado por Saldiva.

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Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com

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