

O texto a seguir faz parte de uma série de reportagens sobre as discussões do Congresso Agribio 2013. Os textos publicados até agora podem ser acessados aqui.

Último palestrante do terceiro painel do Agribio 2013, o superintende de Agricultura Familiar do governo da Bahia (SEAGRI/SUAF), Wilson José Vasconcelos Dias, centrou sua fala nos dilemas da cultura da mamona.
Embora bem respaldada por números e dados, a apresentação não trouxe muitas novidades, principalmente em relação aos desafios para se alavancar a produção da oleaginosa, que tem a Bahia como berço histórico.
Entre as principais questões que frearam a ascensão da cultura no cenário de agroenergia estão a baixa rentabilidade, o uso de semente não qualificada, a compactação do solo e a dificuldade para se obter crédito rural.
Segundo Vasconcelos, o agricultor consegue com o plantio da oleaginosa pouco mais de meio salário mínimo – cerca de R$ 392 – um valor que não o estimula a plantar.
Esse fator acaba refletindo numa postura de pouco comprometimento por parte do agricultor. “Como está desestimulado pelo preço, o produtor não confere a atenção necessária a certas questões como a do espaçamento médio. Ele planta a mamona na pior área de sua propriedade do ponto de vista da fertilidade, na beira de outras plantações. Essa forma de plantar não ajuda a atingir a produtividade adequada”, explicou.
Além disso, o agricultor, em geral, usa para o plantio a semente “crioula”, que não é qualificada. “Em todas as regiões é essencial ter semente depurada sanitariamente, qualificada. Mas no Nordeste torna-se ainda mais importante porque a presença de determinados fungos na semente faz com que a planta seja mais suscetível ao estresse hídrico”, expôs. “Como estamos numa região onde estresse hídrico define a produtividade da planta, esse aspecto merece muita atenção”, concluiu.
Crédito cerceado
Outro problema mencionado pelo superintendente da Agricultura Familiar da Bahia foi a compactação do solo, ocasionada pela exploração frequente e sem descanso da terra. “São solos que têm de 30 a 50 anos de cultivo ininterrupto”, ressaltou Vasconcelos, observando que esse fator compromete à produtividade da planta, podendo reduzi-la pela metade.
Segundo ele, a dificuldade em se fazer o tratamento adequado para a descompactação do solo — a técnica é conhecida como “subsolagem” — deve-se à limitação do crédito rural. “Se o agricultor faz uma subsolagem hoje, consegue realizar outra só daqui a quatro ou cinco ciclos”, informou, salientando que é difícil fazer os bancos entenderem que a medida não é ação de custeio, e sim investimento. “Se tomarmos por base a média de ganho do agricultor com o cultivo da mamona, que é de cerca de R$ 392, e o custo médio da subsolagem, em torno de R$ 300, como fica a equação?”, questionou Vasconcelos, emendando que é “por isso que lá no Nordeste os agricultores dizem que ‘plantar mamona é trabalhar para o banco’”.
Ações governamentais
Ainda que de forma tímida, o governo da Bahia tem se esforçado para impulsionar a cultura no mercado de agroenergia.
“Antes do lançamento do programa de biodiesel, a produção de mamona era destinada exclusivamente à indústria ricinoquímica. Com o PNPB, o mercado ampliou”, evidenciou o superintende.
Prova disso é que, de 2005 a 2010, o número de agricultores que se aventuraram no cultivo da espécie cresceu mais de oito vezes na região de Irecê, localidade baiana de tradicional cultivo da mamona. “Passou de quase 5 mil para 41,5 mil agricultores. Todo mundo embalado pela possibilidade do óleo entrar no posto de gasolina”, comentou Vasconcelos.
Passado o momento de euforia, o contingente de produtores interessados em plantar a mamona retrocedeu, permanecendo estabilizado nos últimos anos.
Mais do que arregimentar novos agricultores para a cultura, o governo da Bahia quer elevar a produtividade. “É perfeitamente factível 1.200 quilos de produção de mamona, aumentando a área plantada de três para quatro hectares, em consórcio com feijão, que também é uma cultura tradicional na região de Irecê”, afirmou o superintendente. “Com essa produção, o agricultor poderá tirar uma média de R$ 574 por mês, algo já mais próximo do salário mínimo.”
Além dessa meta, o executivo baiano está em vias de fechar o convênio com a PBio visando à distribuição de sementes de mamona e mudas de dendê de qualidade para cerca de 8.700 famílias de agricultores. A parceria prevê ainda a realização de técnicas de preparo do solo (inclusive subsolagem) e a criação de um processo sistemático e de qualidade de assistência técnica.
“O público atingido é pequeno ainda, mas tínhamos que começar por algum lugar”, disse Vasconcelos.
Começar é uma palavra que não soa muito bem para uma cultura tão tradicional como é a mamona no Estado da Bahia. Dado o largo histórico de plantio, era de se esperar que a espécie já estivesse consolidada, devidamente estruturada na região. Não é o que ocorre. O pouco que se fez, se tem feito – e até mesmo o que está previsto para se fazer – mostram-se insuficientes para garantir que a mamona prospere não só na Bahia como em todo o Nordeste.
Cátia Franco – BiodieselBR.com