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Vinicius Boreki, de Curitiba
À medida que a indústria do biodiesel vai caminhando rumo à maturidade de seu modelo de negócios, os coprodutos vão aumentando sua importância como fonte de renda alternativa para os atores envolvidos na cadeia produtiva. Contudo, nem sempre o setor tem olhado para todo o seu portfólio de coprodutos com o mesmo cuidado.
Pergunte a qualquer empresário do setor sobre coprodutos do biodiesel e, certamente, a primeira palavra que lhe virá à mente será glicerina. Raciocínio justo, afinal ela corresponde a cerca de 10% do volume total fabricado pelas usinas e conta com mercados importantes e bem estabelecidos tanto em escala nacional como mundial. De acordo com a consultoria norte-americana Grand View Research, o mercado mundial de glicerina deve movimentar aproximadamente US$ 2,5 bilhões por ano até 2020.
Mas num mercado competitivo no qual as margens tendem a ser magras, os players podem buscar oportunidades pouco exploradas pela maior parte das usinas dentro do universo dos subprodutos do setor produtivo. É o caso dos ácidos graxos. A substância apresenta um mercado que pode chegar a R$ 1,5 mil por tonelada, dependendo da qualidade, segundo dados da Aboissa Óleos Vegetais, corretora paulistana que trabalha com esse material.
Não são valores nada maus, considerando que no mês de março a tonelada da glicerina brasileira foi exportada por uma cotação média de US$ 226,00 (bruta) e US$ 416,24 (refinada) – de acordo com a base de dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Essa é outra característica que o ácido graxo compartilha com o coproduto mais famoso do biodiesel: quanto maior o grau de pureza, melhores serão valores obtidos nas negociações.
Outro fato importante sobre os ácidos graxos: toda usina de biodiesel precisa lidar com eles de uma forma ou de outra. Afinal, eles estão presentes nas próprias matérias-primas mais usadas para a produção no país – os óleos vegetais (soja, em especial) e o sebo bovino. Estima-se que a substância represente em torno 5% das fontes de origem vegetal e 3,5% do sebo bovino. No ano passado, a soja representou 74,6% do biodiesel fabricado no país, cerca de 2,5 bilhões de litros ou 2,3 milhões de toneladas de óleo de soja.
Na ponta do lápis, estamos falando, portanto, de aproximadamente 115 mil de toneladas de ácidos graxos.
Embora não seja um passo obrigatório, normalmente os ácidos graxos são separados antes da fabricação do biodiesel – para evitar reações paralelas, que consomem mais catalisadores e diminuem o rendimento das usinas –, e, portanto, é possível aproveitá-los em diversos segmentos, o que pode auxiliar no processo de rentabilização das companhias.
O mercado pode absorver a substância conforme ela sai das usinas. No mercado nacional, são exemplos as indústrias químicas (em especial, a de tintas), de aditivos para lubrificantes, de alimentos e também a de sabões embora, neste caso, também se aceite o produto com menor qualidade. “O ácido graxo é um produto muito versátil, capaz de substituir inúmeros produtos de maior valor em diversos setores, como de fertilizantes, nutrição animal, produtos oleoquímicos e no próprio biodiesel”, explica Felipe Camargo, gerente da unidade de negócios Oleochemicals da Aboissa. Dois fatores influenciam nos valores obtidos na venda do produto. “A oferta e a demanda acabam sendo o principal fator que influencia seu preço, mas as cotações do óleo de soja também interferem em seu valor”, ressalta Camargo.
Qualidade
Um aspecto precisa ser superado pela indústria para tornar esse coproduto mais rentável: a qualidade. “As principais soluções para resolver o problema da aplicação do ácido graxo consistem no pré-tratamento da matéria-prima, com a neutralização, lavagem e secagem do óleo. Os mais puros e de melhor qualidade, como é o caso do óleo de soja, requerem menor pré-tratamento e garantem processos de purificação mais simples”, explica André Bellin Mariano, doutor em bioquímica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e gerente do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Energia Autossustentável da instituição.Uma das grandes batalhas na questão da qualidade é evitar a formação dos ácidos graxos livres no processo, que aumentam a incidência de reações paralelas, reduzindo a produtividade. “A decomposição dos óleos vegetais forma os ácidos graxos livres, expressos em acidez. É possível usar um paralelo do cotidiano como comparação, que se trata do azeite de oliva: a baixa acidez se torna uma característica da qualidade do azeite”, exemplifica Julio Cesar Minelli, diretor-superintendente da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio). Ou seja, da mesma forma que o azeite de oliva, quanto mais baixa a acidez, maior a qualidade de um óleo.
De acordo com Minelli, de maneira geral, mesmo quando não aproveitado pelo setor, o ácido graxo é vendido in natura, não havendo necessidade de se investir em infraestrutura adicional de processamento. “Nesses casos, os processos de purificação, se necessários, serão realizados pelo próprio comprador”, diz.
Em outras palavras, as usinas precisam avaliar se o investimento em tecnologias que permitam a comercialização do ácido graxo de maior qualidade é vantajoso do ponto de vista financeiro. Isso requer estudos e planejamento mais cuidadosos.
Adequações
O fato de os tratamentos para purificação do ácido graxo vendido serem realizados fora das usinas de biodiesel indica que o setor ainda não se estruturou para aproveitar esse material. “Existe necessidade de adaptação de processos e adequação e desenvolvimento de colunas para purificação. Essas alterações vão depender da natureza da aplicação dos ácidos graxos e características da matéria-prima utilizada: sebo ou óleos vegetais”, explica Mariano, da UFPR.Felipe Camargo analisa que muitas indústrias de biodiesel estão interpretando a geração dos ácidos graxos como perda. “Levando em consideração a tendência do setor produtivo de buscar melhorar cada vez mais seus processos, que já evita a produção de glicerina bruta com alto teor de metanol e ácidos graxos, acredito que esse tipo de substância, também conhecida como ‘oleína’, está com os dias contados”, avalia.
Conforme Minelli, da Aprobio, a geração de ácidos graxos de alta qualidade ainda é restrita, restando a substância decorrente do processo de produção tradicional, por meio da transesterificação. “Trata-se de uma questão técnica e econômica a ser tratada por cada usina, em função das suas condições de processo, como origem das matérias-primas e estruturas existentes para o pré-tratamento dos óleos, distâncias de consumidores potenciais”, diz.
Reaproveitamento
O processo tradicional de produção de biodiesel gera uma borra como subproduto, composta basicamente de água, sais de sódio de ácidos graxos e demais elementos. Nesse momento, a substância pode ser aproveitada para outros setores, em especial a indústria do sabão, mas também pode ser transformada novamente em biodiesel. Em 2014, os ácidos graxos foram responsáveis por menos de 1% do total de biodiesel produzido no país – ou seja, aproximadamente 35 milhões de m³. Em 2013, o índice foi um pouco superior: 1,6% dos mais de 2,9 bilhões de m³ produzidos em escala nacional.Nesse caso específico, o ácido graxo precisa passar por um processo químico distinto, conhecido como esterificação ácida – na rota tradicional, o método usado é o de transesterificação.
Marcelo Cantele, diretor de tecnologia da Transfertech – empresa especializada em gestão da inovação, com direcionamento para a área de biodiesel – afirma que as próprias usinas passaram a implantar esse processo para aproveitar a matéria-prima oriunda do processo de fabricação tradicional. “Não se desperdiça esse material, porque o próprio setor de biodiesel acaba absorvendo, especialmente as usinas com o processo de esterificação”, diz.
Um dos problemas a serem superados nesse caso é em relação à coloração mais escura do biodiesel feito a partir de ácidos graxos, que o tornava incompatível no critério “aspecto” presente na especificação da ANP. Em parte, esse problema foi superado em agosto de 2014, com a aprovação da Resolução ANP 45/2014. A partir dela, o aspecto deixou de ser critério para a rejeição do biodiesel e foi adotado como um indicativo da necessidade de mais testes – caso os exames indiquem problemas, o biodiesel poderá ser recusado.
Uma das usinas que realiza esse tipo de processo é a Fiagril, localizada no Mato Grosso. “O ácido graxo gerado pela nossa usina é esterificado e usado novamente para produzir biodiesel. Nós geramos cerca de 7 toneladas/ dia da substância”, diz Luiz Gury, representante da empresa, sem, no entanto, se aprofundar no assunto.
Há inclusive usinas de biodiesel que negociam ácidos graxos entre si. Na reportagem “Questão ácida”, publicada em sua edição de número 37, BiodieselBR apurou que a Biofuga, por exemplo, já vendia o produto para a Oleoplan, que o esterificava para a produção de biodiesel.
Apesar da baixa qualidade dessa borra, esse tipo de ácido graxo encontra compradores dentro do mercado de sabões, que não exige os mesmos patamares de qualidade de outros ramos da indústria química. Eles também podem ser comercializados com tradings, que se tornam responsáveis pela exportação do material. “Os processos necessários para o tratamento da chamada ‘borra acidulada’, por ter aplicação grande em diferentes finalidades da indústria, dependem muito da sua aplicação final”, analisa Mariano, professor da UFPR.
De acordo com Camargo, trata-se de um mercado ainda pouco explorado no Brasil em função da grande produção de soja no país, ao contrário do que acontece na Europa. “Não justifica para o Brasil produzir biodiesel a partir de óleos e gorduras de alta acidez”, afirma. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2014/15 da soja deve crescer 9,5% em relação à safra anterior chegando a 94,2 milhões de toneladas. “Na Europa, essa estratégia funciona em função das tentativas de diminuir o uso de óleos comestíveis na produção de biocombustíveis, com apoios governamentais. No Brasil, a realidade é distinta”, opina.
Rota enzimática
Um dos caminhos possíveis para agregar mais valor aos ácidos graxos produzidos pelas próprias usinas é o investimento em enzimas. O uso desse tipo de tecnologia permite reduzir custos com matérias-primas, entre as quais é possível se incluir os ácidos graxos, permitindo o uso de óleos de menor qualidade a preços mais baixos, o que reduz os gastos com tratamentos. “A esterificação com enzimas é um caminho bastante possível”, afirma Cantele, da Transfertech.Cogita-se a inauguração da primeira unidade comercial de catálise enzimática do país nos próximos meses, com o envolvimento da Transfertech. Questionado sobre o tema, Cantele optou por não comentar o assunto até o fechamento desta edição.
Seja como um novo front de negócios para as usinas ou na própria fabricação de biodiesel, o aproveitamento de ácidos graxos aponta na direção de novos investimentos da cadeia produtiva. A principal dúvida é compreender quando as empresas do setor vão conseguir tornar essa conta viável.
