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A oleaginosa que veio do frio

materia canolaVinda de regiões de clima frio, a canola está se adaptando bem em diversas regiões do Brasil. Tudo graças a pesquisadores que vêm se desdobrando para tropicalizar a espécie
Edição de Mar / Abr 2015 10 min de leitura
materia canolaVinda de regiões de clima frio, a canola está se adaptando bem em diversas regiões do Brasil. Tudo graças a pesquisadores que vêm se desdobrando para tropicalizar a espécie


materia canolaVinda de regiões de clima frio, a canola está se adaptando bem em diversas regiões do Brasil. Tudo graças a pesquisadores que vêm se desdobrando para tropicalizar a espécie

Marcelo Pimentel, do Rio de Janeiro

Nativa do Canadá, durante anos a cultura da canola esteve restrita às porções mais gélidas do globo. Por conta própria, a planta só cresce entre os 35° e 55° de latitude, o que significa que, no hemisfério sul, só seria possível plantá-la de Montevidéu para baixo. Contudo, graças ao trabalho paciente da comunidade científica brasileira, a terceira oleaginosa mais cultivada do mundo – foram 71,1 milhões de toneladas na safra 2013/14 – está, aos poucos, deixando para trás os limites que constringiam seu cultivo em nosso território.

Não significa que ela esteja pronta para crescer nas condições tórridas do Nordeste do país – pelo menos não ainda –, mas já é possível obter bons resultados a 24º de latitude, o que coloca terras ao sul da cidade de São Paulo entre as possíveis. E estão avançando trabalhos que levam a oleaginosa até os 17º (que passa pouco ao sul de Goiânia) e já houve testes na Paraíba, a 7º. Isso abre novas possibilidades para o agronegócio nacional nos mercados de óleo vegetal.

Hoje, o mercado nacional disputa cada grão de canola disponível, uma vez que seu óleo vem sendo cada vez mais valorizado pelo mercado alimentar e a produção brasileira é insuficiente para atender a demanda, conforme explica Gilberto Tomm, pesquisador da Embrapa Trigo. Além disso, segundo ele, as indústrias de biodiesel também possuem grande interesse na cultura por apresentarem necessidade de diversificar suas fontes de matérias-primas. Dessa forma, a tropicalização da canola cria para o país uma oportunidade bastante real de mudar seu status, de grande importador para um dos principais players do negócio.

Atualmente, a área semeada com canola no Brasil é bastante reduzida. Segundo dados da Embrapa Trigo, tivemos, no ano passado, cerca de 49,7 mil hectares plantados. A distribuição se dá entre os estados do RS (80,5%), PR (17,1%), MS (1,1%), e MG (1,3%). No entanto, o potencial seria de 8 milhões de hectares apenas na área mais favorável da região Sul.

E essa área poderia ser mais que dobrada com a expansão na direção de terras do Cerrado – em especial em estados como MT, GO, MS e MG. Entusiasta da tropicalização da canola, o agrônomo e empresário Gilberto Grando, da IBSS Agronomy, explica que a canola tropical pode ocupar territórios antes reservados apenas às safrinhas de milho e sorgo ou mesmo que permanecem ociosos depois da colheita da safra de verão. “A adaptação dos novos materiais para essas áreas pode representar uma disponibilidade de mais 18 milhões de hectares para a cultura”, diz o entrevistado. É pouco mais da metade da área ocupada pela soja, que na safra 2014/15 chegará a 31,6 milhões de hectares.

Produtividade

O biodiesel produzido com óleo de canola atende as especificações europeias e possui características superiores às do biodiesel de soja, especialmente para emprego sob baixas temperaturas. Nesse sentido, Tomm revela que são frequentes as solicitações provenientes da Europa, evidenciando a enorme oportunidade de produzir canola em grão para exportação.

A respeito dos aspectos produtivos, Grando observa que as primeiras cultivares mostram produtividade acima de 2.000 kg/ha em anos normais de chuva. Em áreas experimentais, sem irrigação, pode-se chegar a pouco mais de 3.000 kg/ha. Considerando a produtividade mais baixa, de 2.000 kg/ha, o potencial produtivo ultrapassaria os 36 milhões de toneladas por ano.

“No que diz respeito ao ciclo vegetativo, há dois grupos de materiais. O primeiro, exclusivamente destinado à produção de biodiesel, varia de 85 a 100 dias, sujeito a poucas pragas ou doenças e tem como principal característica a não debulha a campo. Já os materiais de dupla aptidão [alimentar e biodiesel] possuem ciclo de 115 a 130 dias, porém são mais sensíveis a pragas e apresentam índice de desgrane mediano”, detalha.

Janela

Na região do Cerrado, principalmente em Campo Novo do Parecis (MT), onde boa parte dos experimentos é conduzida, o cultivo de canola se encaixa perfeitamente em rotação com o cultivo de soja ou milho no período de safrinha. O pesquisador da Embrapa salienta que, idealmente, o plantio da canola em regiões tropicais deve ser feito imediatamente após a colheita da cultura de verão, de forma a aproveitar o fim do período de chuvas – entre a segunda quinzena de fevereiro e a primeira quinzena de março. Dessa forma, é possível diminuir o efeito do estresse hídrico sobre a cultura.

Mas, mesmo em condições mais secas, a canola se sai relativamente melhor do que opções mais consolidadas para a safrinha de inverno – como o milho e o trigo. “O desempenho da canola em lavouras do MS, GO e MG sob condições de deficiência de chuvas foi comprovadamente superior ao milho em função de ela ter raízes pivotantes capazes de absorver água e nutrientes em maiores profundidades que as gramíneas”, diz Tomm.

O bom desempenho da oleaginosa sob condições pouco amistosas também é destacado por Gilberto Grando. “Nesta nova região praticamente não há culturas que possam ser plantadas depois do dia 22 de fevereiro com segurança hídrica para boas colheitas. Os novos materiais demandam muito menos água para produzir, ampliando os horizontes para a cultura”, elogia.

Ainda segundo o empresário, enquanto uma lavoura de milho precisa de cerca de 700 mm de água para uma boa produção, a canola produz muito bem com um décimo disso. Como exemplo, ele cita uma área teste de 35 hectares onde a canola foi plantada em sequência à colheita da soja, sem qualquer fertilização adicional e recebendo apenas 70 mm de irrigação, que produziu mais de 1,4 tonelada por hectare.

Essa resiliência já é uma característica boa – especialmente num contexto de mudanças climáticas e crise hídrica –, mas a canola tem outro ás na manga. Seu custo de produção é relativamente baixo: em geral, cada hectare plantado fica ao redor de U$ 300 (pouco mais de R$ 812 pela cotação da primeira semana de fevereiro), “enquanto o milho custa até R$ 1.500/ha e o sorgo pode chegar a R$ 900/ha”, compara Grando.

Fora isso, a entrada da cultura no sistema produtivo permite uma melhor ocupação do solo, das máquinas e da mão de obra disponíveis nesta época nas propriedades. Também não compete com a produção de alimentos. Produz grande massa seca, o que beneficia o solo para o próximo cultivo.

Solução para todos?

Não quer dizer que a canola seja uma solução tamanho único que sirva para todos os agricultores das novas regiões às quais a planta está chegando. Tomm destaca que a relação entre a espécie e o calor ainda é problemática, o que leva o cultivo a ser indicado para áreas com altitudes superiores a 600 metros em relação ao nível do mar. Isso ameniza as temperaturas, especialmente as noturnas.

As experiências em Campo Novo do Parecis também indicaram a necessidade de dispor de tecnologia eficiente de controle de plantas daninhas. Este é o fator mais imprescindível para que a região possa iniciar o cultivo comercial de canola. Tomm destaca que já há variedades híbridas com resistência aos herbicidas usados no controle das plantas invasoras e há outros esforços no sentido de colocar no mercado variedades ainda mais resistentes.

Tudo isso reflete um esforço continuado para tornar essa uma opção mais interessante para os agricultores brasileiros. “O ajuste de outras práticas de manejo, como controle de insetos, redução do espaçamento entre fileiras de plantas na semeadura e controle de doenças, conjuntamente com a semeadura em época mais favorável, constituem esforços contínuos”, afirma o pesquisador.

Esmagamento

Se no campo as coisas ainda estão se ajeitando, no degrau posterior – o processamento do grão – não seria complicado incluir a canola no parque atual. Tomm explica que a adaptação das esmagadoras ao processamento da canola é um processo relativamente simples e barato. O grão tem aproximadamente 38% de óleo – valor bem maior que os cerca de 20% da soja – e pode ser processado em duas etapas: primeiro a prensagem num extrusor simples que remove mais ou menos metade do óleo; em seguida a extração por solvente. “Portanto, com um investimento relativamente pequeno, as mesmas indústrias que extraem óleo de soja podem processar os grãos de canola”, diz o pesquisador.

Dados da Associação Brasileira de Óleos Vegetais (Abiove) indicam que o setor de esmagamento fechou 2014 com capacidade de processar 59,5 milhões de toneladas de oleaginosas e um nível de atividade inferior a 62%. Ou seja, existe ociosidade nas indústrias e o aumento da disponibilidade de oleaginosas de inverno – justamente como a canola – constitui oportunidade de otimizar os investimentos existentes nessas indústrias.

Difusão

Com relação à transferência de tecnologia em canola, a Embrapa Trigo tem trabalhado na capacitação. De acordo com o pesquisador Paulo Ernani Ferreira, a preocupação é fazer com que os profissionais da assistência técnica e produtores rurais ligados à produção de canola no Brasil tenham acesso às mais novas tecnologias. “Assim, é extremamente importante que os atores que estão na cadeia produtiva de canola tenham as melhores informações técnicas”, opina.

Com o objetivo de multiplicar essas informações, a equipe de pesquisadores envolvida com a cultura da canola na Embrapa Trigo, juntamente com instituições parceiras, vem promovendo ações de difusão – desde 2011 já foram realizadas pelo menos 70 dessas atividades. Os cursos, eventos, palestras e dias de campo oferecidos contabilizaram 7.744 participantes e técnicos distribuídos em diversos municípios nas principais regiões produtoras. E isso já inclui áreas de cerrado.

Para o pesquisador, essa cultura oferece uma das melhores relações de liquidez para os agricultores. Apesar disso, mesmo com todos esses atrativos, o produtor do Centro-Oeste ainda sabe muito pouco sobre o cultivo da canola. Para os próximos anos, e como parte integrante do processo de difusão da cultura, um dos desafios é fazer com que os olhos do produtor se voltem para a canola e suas vantagens para o sistema produtivo. Para tanto, Ernani Ferreira considera positivo o clima de mutirão que se formou em torno dessa cultura. “É extremamente relevante e positiva a interação e a cooperação entre as diferentes instituições de pesquisa, unidades educacionais e órgãos de extensão rural envolvidos no sistema de produção de canola.”

Igual à soja

A adaptação da canola às condições tropicais assemelha-se ao processo vivido pela soja.

Gilberto Tomm, pesquisador da Embrapa Trigo, explica que no início do cultivo de soja no Brasil, no começo dos anos 70, as cultivares disponíveis no mercado estavam pouco adaptadas à quantidade de luz disponível em regiões tropicais. Por isso, elas floresceriam em poucos dias, tinham porte pequeno e baixa produtividade. Bem distante da realidade atual da sojicultura brasileira.

“O desenvolvimento de cultivares com baixa sensibilidade ao fotoperíodo, em pesquisas lideradas pela Embrapa, viabilizou a expansão do cultivo de soja para as regiões tropicais”, destaca.
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