

Mais profissional, o setor de gordura animal ainda preciasa incorporar mais tecnologia a seus processos industriais para assegurar competitividade

Mais profissional, o setor de gordura animal ainda precisa incorporar tecnologia a seus processos industriais para assegurar competitividade
Cátia Franco, de São Paulo
Se a história do sebo bovino no Brasil fosse adaptada ao universo dos contos de fadas, a indústria do biodiesel certamente desempenharia o papel da fada-madrinha. Antes do biodiesel entrar em cena, a gordura animal era a gata borralheira da indústria de reciclagem animal, tendo os setores de higiene e limpeza como seus únicos mercados. Isso mudou depois da chegada do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB).
“Antes do biodiesel, o sebo era comercializado com preços em torno de R$ 0,50 a R$ 0,60 o quilo”, lembra Cleuton André Ferreira, gerente comercial da Patense, empresa há 45 anos no setor de sebo. Ferreira relata que, naquele tempo, qualquer oscilação no mercado – de um aumento nos abates à redução nas vendas de sabões e sabonetes – fazia os preços da gordura animal despencarem. “Nós já comercializamos sebo a R$ 0,20 o quilo”, recorda-se. “Hoje, o mercado está estabilizado, com preços em torno de R$ 2 a R$ 2,10 o quilo”, comemora.
Esse novo e promissor contexto permitiu que as empresas de reciclagem animal – ou rendimento, como também são conhecidas comercialmente – aprimorassem a qualidade do seu produto. “Quando começamos, exigia-se uma acidez máxima de 10%, que caiu para 7% e depois para 5%. Hoje, os melhores mercados limitam a 3,5%, além de exigirem baixas contaminação, umidade e impurezas”, exemplifica Adriano Sales, sócio da Indústria e Beneficiamento de Subprodutos de Origem Animal (Inbesp), empresa que atua há mais de duas décadas no ramo.
A reestruturação da indústria de carnes também teve muito a ver com isso. “Nos últimos anos, tivemos a profissionalização do setor frigorífico e, com isso, de seus derivados”, contextualiza Hyberville Neto, da Scot Consultoria. “Agora nós temos grandes players vendendo sebo”, completa.
Segundo o coordenador técnico da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), Lucas Cypriano, hoje os animais que morrem de causas naturais no campo são simplesmente descartados. Se eles pudessem ser coletados e processados, seria possível criar uma nova cadeia de valor que não só reduziria o prejuízo dos criadores, como daria destino adequado a um material que gera riscos ambientais sérios.
O potencial é grande. Segundo Sales, anualmente os criado-res perdem quase 2 milhões de toneladas de animais em granjas e fazendas do Brasil. Numa estimativa conservadora, a Abra calcula que, a cada ano, jogamos fora cerca de 370 mil toneladas de gordura que poderiam ser extraídas dessas carcaças desprezadas.
Se há quem seja favorável ao processamento dessas carcaças a ponto de estar disposto a colocar dinheiro na empreitada, há também os que contestam sua viabilidade. “Abrir esse animal no meio da pastagem, sem um diagnóstico – porque é o que acontece, já que muitas vezes o animal morre e não se tem um diagnóstico conclusivo –, você acaba tendo um risco epidemiológico”, alerta Hylberville, que por formação é médico veterinário.
O coordenador técnico da Abra explica que a proposta não é que o produtor faça – ele mesmo ou contratando alguém – a desossa dos animais diretamente no campo. A ideia é implementar um sistema profissional de coleta de carcaças, não muito diferente de outros serviços especializados em recolher materiais perigosos, como, por exemplo, lixo hospitalar. “A coletora vai lá [no campo] e o produtor não precisa mais se preocupar com isso”, diz Cypriano. Se feito de forma apropriada, a reciclagem ajudaria a controlar muitos patógenos. “Por isso, na Europa a coleta de carcaças é obrigatória”, ressalta.
Para Gelson Luís Dias Feijó, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, no entanto, não basta só montar um serviço do gênero e colocá-lo no mercado. “Será preciso modificar a legislação vigente, o que exige a resolução de outros tantos questionamentos, sendo que o primeiro é se o aumento na produção de gordura compensaria o risco sanitário”, problematiza o pesquisador.
O problema nem chega a ser de volume absoluto, mas a forma como ele se encontra pulverizado. Feijó pondera que, embora exista viabilidade técnica para o aproveitamento de animais mortos visando à produção de sebo e outros derivados para uso não alimentar, fatores econômicos e principalmente operacionais podem inviabilizar a prática. “A morte de animais é algo inesperado no sistema produtivo, ocorrendo de forma esporádica e errática. Sendo assim, a primeira definição a ser feita é como seria a relação entre a oferta e o processamento destas [carcaças]”, pontua.
Segundo Hyberville Neto, da Scot, uma propriedade com mil cabeças de gado tem um índice de mortandade em torno de 2% ao ano, o que daria 20 animais por ano – menos de dois ao mês. Com cada animal gerando entre 18 e 20 quilos de sebo, o resultado final por fazenda não chega a encher os olhos. “Fazer a desossa desses animais para aproveitamento de alguns produtos teria um custo que não tornaria essa prática interessante para o pecuarista”, avalia o consultor, sem considerar que a proposta da Abra não prevê a desossa pelo pecuarista.
Na opinião da Abra, a conta fecha. Cypriano diz que a associação desenvolveu um projeto piloto com uma coletora numa cultura de suínos. A empresa de reciclagem instalou uma câmara fria no local e os animais que morriam eram congelados, sendo recolhidos semanalmente. “O negócio foi tão bom que a coletora já queria oferecer câmaras frias em regime de comodato aos produtores da região”, relata.
A Biofuga – usina de biodiesel oriunda de um grupo empresarial de couros que já trabalha com rendição – conhece bem a complexidade da questão. Paulo José Fuga, gerente da unidade de biodiesel da empresa, conta que já ocorreram diversas tratativas junto às secretarias competentes no Rio Grande do Sul, onde está sediada a empresa, para discutir a questão da coleta e reciclagem de carcaças no campo, mas sem grandes resultados. “[A reciclagem de animais mortos] ainda não é permitida”, afirma o gerente da usina, onde metade da matéria-prima utilizada para produzir o biodiesel provém do sebo bovino.
Além da ausência de normas para disciplinar a atividade, impera também o desconhecimento sobre como funcionaria o sistema. “Eles ficam imaginando que, uma vez por semana, o cara vai com um tratorzinho coletar o animal que morreu há cinco dias. Não é assim em nenhum lugar do mundo”, afirma Cypriano. E nem seria interessante trabalhar dessa maneira porque os produtos teriam um valor mais baixo. Por exemplo, o sebo resultante do processamento de animais mortos há muito tempo ficaria mais ácido. “E quem vai querer comprar uma gordura desse tipo?”, questiona. De acordo com o coordenador da Abra, o procedimento seria ou coletar com rapidez ou congelar os animais numa câmara frigorífica segregada.
Não que essas gorduras não possam aumentar sua participação. Nos meses de maio e de julho passado, a utilização da gordura de frango na fabricação de biodiesel registrou desempenhos bastante surpreendentes – de, respectivamente, 4% e 2,07%.
E há interesse entre os renderizadores. A Patense – que tem várias usinas na sua carteira de clientes, destinando em torno de 70% de sua produção de sebo para o segmento de biodiesel – já vislumbra essa possibilidade. “Acreditamos que, em breve, esses dois produtos também terão uma aplicação maior nas indústrias de biodiesel”, diz o gerente. Ele revela ainda que a empresa tem feito investimentos em linhas de processamentos de subprodutossuínos e de aves, visando a um aumento nos volumes de produção e, consequentemente, novos mercados. “O de biodiesel é um deles”, entrega.
Embora toda gordura animal seja, potencialmente, matéria- -prima para a produção de biodiesel, há variáveis econômicas em jogo que tornam essa uma opção menos interessante para a destinação das gorduras de aves e porcos.
Além disso, muitas vezes as próprias empresas que geram a gordura preferem aproveitar o material domesticamente. “As gorduras oriundas de aves e suínos são destinadas às fábricas de rações e utilizadas internamente. Não é economicamente viável vender esses produtos e, depois, ter de comprar óleo vegetal para fabricar rações”, esclarece Adriano Sales. “A agroindústria, que abate os animais e produz a gordura a partir deles, pode usar o sebo dentro do próprio sistema sem pagar frete, imposto”, complementa Cypriano.
Sem contar que a gordura bovina é a única que realmente se encontra concentrada na escala necessária num único lugar. Feijó, da Embrapa, lembra ainda que, por se tratar de animais de grande porte, com 500 quilos ou mais, os bovinos geram um volume relativamente grande de gorduras.
Some a isso a dificuldade das fábricas brasileiras de ração em lidar com gorduras sólidas como o sebo bovino. “Elas só estão preparadas para manusear gorduras líquidas como o óleo de soja ou as que se liquefazem a baixa temperatura, como a gordura de frango e até mesmo a gordura suína”, diz Cypriano.
Eis a confluência de motivos que tornaram o biodiesel um destino tão atraente para os fabricantes de sebo bovino.
O problema nem chega a ser o negócio de gorduras, mas o fato de a queda nas cotações internacionais do milho e da soja afetar outro dos produtos das empresas de reciclagem: as farinhas. “Mais de 98% das farinhas fabricadas pelas empresas de reciclagem vão para nutrição animal. Se o milho e a soja estão baratos, ou o preço da farinha abaixa ou o nosso produto é substituído”, expõe Cypriano. “Mas está bom. O costumeiro, antes do programa de biodiesel, era ter um ou dois anos de crise e um ano bom”, conforma-se.
Para Cypriano, o próximo passo a ser dado pelas empresas do setor é a automação na produção. As renderizadoras produzem sebo de duas formas: utilizando o sistema de batelada, que é altamente dependente de mão de obra, ou o sistema contínuo, que reduz de 20% a 30% a necessidade de pessoal. “A maioria das empresas está optando pelo sistema contínuo”, diz.
A diferença não diz respeito só à força de trabalho, mas à otimização dos processos produtivos. “Com a automação, tem-se controle total do processo de produção”, destaca o coordenador da Abra. Ainda segundo o entrevistado, se as empresas de reciclagem animal investissem em novas tecnologias para otimizar a separação dos produtos gerados pelo processamento das carcaças, poderia haver um ganho razoável na oferta do sebo.
Usando as tecnologias de hoje, as farinhas saem do maquinário com um índice de gordura entre 12% e 13%. Com uma prensagem mais eficiente, esse percentual cairia para 8% a 9%. “Isso significa 4 pontos percentuais de redução do teor de gordura nas farinhas, que seriam adicionados ao total de sebo produzido”, explica Cypriano.
Com esse simples upgrade tecnológico, a oferta de sebo seria incrementada em pouco mais de 100 mil toneladas, ou cerca de 5% do total de produção de óleos e gorduras animais no país em 2013. Um volume nada desprezível. O Brasil precisa avançar muito no campo legislativo para chegar ao nível de sanitização do campo visto na Europa. Mas ao que tudo indica, a falta de informações sobre como o processo de reciclagem animal realmente acontece é o maior empecilho para o progresso.
“Antes do biodiesel, o sebo era comercializado com preços em torno de R$ 0,50 a R$ 0,60 o quilo”, lembra Cleuton André Ferreira, gerente comercial da Patense, empresa há 45 anos no setor de sebo. Ferreira relata que, naquele tempo, qualquer oscilação no mercado – de um aumento nos abates à redução nas vendas de sabões e sabonetes – fazia os preços da gordura animal despencarem. “Nós já comercializamos sebo a R$ 0,20 o quilo”, recorda-se. “Hoje, o mercado está estabilizado, com preços em torno de R$ 2 a R$ 2,10 o quilo”, comemora.
Esse novo e promissor contexto permitiu que as empresas de reciclagem animal – ou rendimento, como também são conhecidas comercialmente – aprimorassem a qualidade do seu produto. “Quando começamos, exigia-se uma acidez máxima de 10%, que caiu para 7% e depois para 5%. Hoje, os melhores mercados limitam a 3,5%, além de exigirem baixas contaminação, umidade e impurezas”, exemplifica Adriano Sales, sócio da Indústria e Beneficiamento de Subprodutos de Origem Animal (Inbesp), empresa que atua há mais de duas décadas no ramo.
A reestruturação da indústria de carnes também teve muito a ver com isso. “Nos últimos anos, tivemos a profissionalização do setor frigorífico e, com isso, de seus derivados”, contextualiza Hyberville Neto, da Scot Consultoria. “Agora nós temos grandes players vendendo sebo”, completa.
Aproveitamento
Embora o setor esteja mais estruturado e profissional, há oportunidades despontando no horizonte que, se perseguidas, poderiam ampliar de forma substancial o potencial desse mercado.Segundo o coordenador técnico da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), Lucas Cypriano, hoje os animais que morrem de causas naturais no campo são simplesmente descartados. Se eles pudessem ser coletados e processados, seria possível criar uma nova cadeia de valor que não só reduziria o prejuízo dos criadores, como daria destino adequado a um material que gera riscos ambientais sérios.
O potencial é grande. Segundo Sales, anualmente os criado-res perdem quase 2 milhões de toneladas de animais em granjas e fazendas do Brasil. Numa estimativa conservadora, a Abra calcula que, a cada ano, jogamos fora cerca de 370 mil toneladas de gordura que poderiam ser extraídas dessas carcaças desprezadas.
Polêmica
A Patense é uma das empresas que apostam no processamento desse material como forma de incrementar a oferta de gordura animal para o mercado consumidor. “Consideramos de grande importância o processamento desses animais, que estariam gerando produtos de ótima qualidade e contribuindo com o meio ambiente”, aponta o gerente, revelando que a empresa já tem planos concretos para esse segmento, sem adiantar mais detalhes.Se há quem seja favorável ao processamento dessas carcaças a ponto de estar disposto a colocar dinheiro na empreitada, há também os que contestam sua viabilidade. “Abrir esse animal no meio da pastagem, sem um diagnóstico – porque é o que acontece, já que muitas vezes o animal morre e não se tem um diagnóstico conclusivo –, você acaba tendo um risco epidemiológico”, alerta Hylberville, que por formação é médico veterinário.
O coordenador técnico da Abra explica que a proposta não é que o produtor faça – ele mesmo ou contratando alguém – a desossa dos animais diretamente no campo. A ideia é implementar um sistema profissional de coleta de carcaças, não muito diferente de outros serviços especializados em recolher materiais perigosos, como, por exemplo, lixo hospitalar. “A coletora vai lá [no campo] e o produtor não precisa mais se preocupar com isso”, diz Cypriano. Se feito de forma apropriada, a reciclagem ajudaria a controlar muitos patógenos. “Por isso, na Europa a coleta de carcaças é obrigatória”, ressalta.
Para Gelson Luís Dias Feijó, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, no entanto, não basta só montar um serviço do gênero e colocá-lo no mercado. “Será preciso modificar a legislação vigente, o que exige a resolução de outros tantos questionamentos, sendo que o primeiro é se o aumento na produção de gordura compensaria o risco sanitário”, problematiza o pesquisador.
O problema nem chega a ser de volume absoluto, mas a forma como ele se encontra pulverizado. Feijó pondera que, embora exista viabilidade técnica para o aproveitamento de animais mortos visando à produção de sebo e outros derivados para uso não alimentar, fatores econômicos e principalmente operacionais podem inviabilizar a prática. “A morte de animais é algo inesperado no sistema produtivo, ocorrendo de forma esporádica e errática. Sendo assim, a primeira definição a ser feita é como seria a relação entre a oferta e o processamento destas [carcaças]”, pontua.
Segundo Hyberville Neto, da Scot, uma propriedade com mil cabeças de gado tem um índice de mortandade em torno de 2% ao ano, o que daria 20 animais por ano – menos de dois ao mês. Com cada animal gerando entre 18 e 20 quilos de sebo, o resultado final por fazenda não chega a encher os olhos. “Fazer a desossa desses animais para aproveitamento de alguns produtos teria um custo que não tornaria essa prática interessante para o pecuarista”, avalia o consultor, sem considerar que a proposta da Abra não prevê a desossa pelo pecuarista.
Na opinião da Abra, a conta fecha. Cypriano diz que a associação desenvolveu um projeto piloto com uma coletora numa cultura de suínos. A empresa de reciclagem instalou uma câmara fria no local e os animais que morriam eram congelados, sendo recolhidos semanalmente. “O negócio foi tão bom que a coletora já queria oferecer câmaras frias em regime de comodato aos produtores da região”, relata.
Travas
Fontes ouvidas nesta reportagem apontam a falta de legislação para regular a questão como principal obstáculo para a implementação do processamento de carcaças de animais mortos no Brasil. “A legislação não é uniforme quanto à destinação final destes animais. Nas mais atuais, existem orientações sobre o enterro e cuidados para não contaminar nascentes e o lençol freático”, informa Rodiney Mauro, pesquisador da Embrapa Gado de Corte. Segundo ele, em grandes mortandades, o procedimento dos serviços de vigilância sanitária é construir grandes valas, jogar cal virgem, podendo-se incinerar ou não os animais antes de enterrá-los.A Biofuga – usina de biodiesel oriunda de um grupo empresarial de couros que já trabalha com rendição – conhece bem a complexidade da questão. Paulo José Fuga, gerente da unidade de biodiesel da empresa, conta que já ocorreram diversas tratativas junto às secretarias competentes no Rio Grande do Sul, onde está sediada a empresa, para discutir a questão da coleta e reciclagem de carcaças no campo, mas sem grandes resultados. “[A reciclagem de animais mortos] ainda não é permitida”, afirma o gerente da usina, onde metade da matéria-prima utilizada para produzir o biodiesel provém do sebo bovino.
Além da ausência de normas para disciplinar a atividade, impera também o desconhecimento sobre como funcionaria o sistema. “Eles ficam imaginando que, uma vez por semana, o cara vai com um tratorzinho coletar o animal que morreu há cinco dias. Não é assim em nenhum lugar do mundo”, afirma Cypriano. E nem seria interessante trabalhar dessa maneira porque os produtos teriam um valor mais baixo. Por exemplo, o sebo resultante do processamento de animais mortos há muito tempo ficaria mais ácido. “E quem vai querer comprar uma gordura desse tipo?”, questiona. De acordo com o coordenador da Abra, o procedimento seria ou coletar com rapidez ou congelar os animais numa câmara frigorífica segregada.
Além do boi
Impulsionada pelo sebo bovino – que já corresponde, em média, a 20% da matéria-prima que é empregada pelas usinas –, a participação da gordura animal na produção de biodiesel vem crescendo nos últimos anos. Contudo, no caso de outras fontes de gordura animal como frangos ou suínos, a aplicação raramente ultrapassa a segunda casa decimal.Não que essas gorduras não possam aumentar sua participação. Nos meses de maio e de julho passado, a utilização da gordura de frango na fabricação de biodiesel registrou desempenhos bastante surpreendentes – de, respectivamente, 4% e 2,07%.
E há interesse entre os renderizadores. A Patense – que tem várias usinas na sua carteira de clientes, destinando em torno de 70% de sua produção de sebo para o segmento de biodiesel – já vislumbra essa possibilidade. “Acreditamos que, em breve, esses dois produtos também terão uma aplicação maior nas indústrias de biodiesel”, diz o gerente. Ele revela ainda que a empresa tem feito investimentos em linhas de processamentos de subprodutossuínos e de aves, visando a um aumento nos volumes de produção e, consequentemente, novos mercados. “O de biodiesel é um deles”, entrega.
Embora toda gordura animal seja, potencialmente, matéria- -prima para a produção de biodiesel, há variáveis econômicas em jogo que tornam essa uma opção menos interessante para a destinação das gorduras de aves e porcos.
Além disso, muitas vezes as próprias empresas que geram a gordura preferem aproveitar o material domesticamente. “As gorduras oriundas de aves e suínos são destinadas às fábricas de rações e utilizadas internamente. Não é economicamente viável vender esses produtos e, depois, ter de comprar óleo vegetal para fabricar rações”, esclarece Adriano Sales. “A agroindústria, que abate os animais e produz a gordura a partir deles, pode usar o sebo dentro do próprio sistema sem pagar frete, imposto”, complementa Cypriano.
Sem contar que a gordura bovina é a única que realmente se encontra concentrada na escala necessária num único lugar. Feijó, da Embrapa, lembra ainda que, por se tratar de animais de grande porte, com 500 quilos ou mais, os bovinos geram um volume relativamente grande de gorduras.
Some a isso a dificuldade das fábricas brasileiras de ração em lidar com gorduras sólidas como o sebo bovino. “Elas só estão preparadas para manusear gorduras líquidas como o óleo de soja ou as que se liquefazem a baixa temperatura, como a gordura de frango e até mesmo a gordura suína”, diz Cypriano.
Eis a confluência de motivos que tornaram o biodiesel um destino tão atraente para os fabricantes de sebo bovino.
High tech
A perspectiva de um ano ser desafiador do ponto de vista econômico não assusta essa indústria, que parece pronta para iniciar um novo ciclo de investimentos. “Teve um período de três, quatro anos positivo para a indústria. Ela conseguiu ter lucro e investir. Este ano vai ser difícil”, prevê o coordenador da Abra.O problema nem chega a ser o negócio de gorduras, mas o fato de a queda nas cotações internacionais do milho e da soja afetar outro dos produtos das empresas de reciclagem: as farinhas. “Mais de 98% das farinhas fabricadas pelas empresas de reciclagem vão para nutrição animal. Se o milho e a soja estão baratos, ou o preço da farinha abaixa ou o nosso produto é substituído”, expõe Cypriano. “Mas está bom. O costumeiro, antes do programa de biodiesel, era ter um ou dois anos de crise e um ano bom”, conforma-se.
Para Cypriano, o próximo passo a ser dado pelas empresas do setor é a automação na produção. As renderizadoras produzem sebo de duas formas: utilizando o sistema de batelada, que é altamente dependente de mão de obra, ou o sistema contínuo, que reduz de 20% a 30% a necessidade de pessoal. “A maioria das empresas está optando pelo sistema contínuo”, diz.
A diferença não diz respeito só à força de trabalho, mas à otimização dos processos produtivos. “Com a automação, tem-se controle total do processo de produção”, destaca o coordenador da Abra. Ainda segundo o entrevistado, se as empresas de reciclagem animal investissem em novas tecnologias para otimizar a separação dos produtos gerados pelo processamento das carcaças, poderia haver um ganho razoável na oferta do sebo.
Usando as tecnologias de hoje, as farinhas saem do maquinário com um índice de gordura entre 12% e 13%. Com uma prensagem mais eficiente, esse percentual cairia para 8% a 9%. “Isso significa 4 pontos percentuais de redução do teor de gordura nas farinhas, que seriam adicionados ao total de sebo produzido”, explica Cypriano.
Com esse simples upgrade tecnológico, a oferta de sebo seria incrementada em pouco mais de 100 mil toneladas, ou cerca de 5% do total de produção de óleos e gorduras animais no país em 2013. Um volume nada desprezível. O Brasil precisa avançar muito no campo legislativo para chegar ao nível de sanitização do campo visto na Europa. Mas ao que tudo indica, a falta de informações sobre como o processo de reciclagem animal realmente acontece é o maior empecilho para o progresso.