![]() |
![]() |
![]() |
Tatiane Matheus – de São Paulo
A produção de biodiesel nos estados das regiões Norte e Nordeste está entre as metas do PNPB que nunca foram adequadamente concretizadas. Nem tanto por falta de interesse das empresas do ramo – o mais recente Mapa das Usinas de Biodiesel aponta que essas duas regiões contam com 17 usinas, construídas ou projetadas, somando 966 milhões de litros em capacidade –, mas porque a maior parte dessas iniciativas dependia de projetos de cultivo de oleaginosas alternativas que nunca foram para frente.
Acontece que nos últimos anos a soja vem ganhando força por lá, especialmente na região das divisas entre os estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia – uma área que, dependendo de para quem se pergunte, pode ser chamada Matopiba, Bamapito ou Mapitoba, por conta das siglas dos estados que a formam. O que ninguém coloca em dúvida é que em seus mais de 414 mil km² de superfície está se consolidando uma das mais pujantes fronteiras do agronegócio do país.
Soja em alta
Segundo os dados do 8º Levantamento da Safra de Grãos, realizado pela Conab, esses quatro estados estão colhendo mais de 9,2 milhões de toneladas da oleaginosa, cerca de 10,7% da produção total do país, que deverá superar a marca de 86 milhões de toneladas nesta temporada. Contudo, a região ainda guarda grande potencial para o aumento da produção, como aponta o assessor de agronegócios da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Luiz Spahlke. Ele ressalta que os bons preços da soja no mercado internacional têm incentivado mais produtores do Mapitoba a apostarem na cultura. “A soja vem com preço bom e toma espaço de outras culturas”, explica. O espaço ganho vem das lavouras de milho, algodão e café na região, devido ao potencial econômico e à demanda aquecida pelo grão no mercado mundial.De acordo com o secretário executivo da Secretaria da Agricultura e Pecuária de Tocantins (Seagro), Ruiter Padua, esta safra de soja deverá render aos agricultores dos quatro estados algo em torno R$ 8,7 bilhões. “É uma área em franca expansão, com um potencial de chegarmos a 4 milhões de hectares”, anima-se.
Dados das últimas cinco safras (2009/10 a 2013/14) da série histórica da Conab mostram que a área plantada e a produção de soja no Mapitoba avançaram, respectivamente, 8,1% e 7,7% ao ano, enquanto que no Brasil o crescimento ficou em 5% e 4,6%.
De acordo com o pesquisador da Embrapa Leonardo José Motta Campos, isso faz da região a principal área para expansão da soja nos próximos anos. O pesquisador aponta que as projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) indicam que a soja chegará a 34,4 milhões de hectares em 2023. “Neste cenário, pode-se considerar que a maioria dos 4,4 milhões de hectares a serem incorporados no período será de terras no Mapitoba”, prossegue.
Mas o crescimento na área plantada é apenas um detalhe. Os sojicultores da área já produzem como os veteranos do Sul e Centro-Oeste. “Apesar de ser uma região em expansão, seu rendimento médio neste ano [na produção de soja] foi igual ao do Brasil, ou seja, 47,8 sacas por hectare”, elogia o líder do comitê técnico e científico do Comitê Estratégico de Soja (Cesb), Plinio Itamar de Mello de Souza.
Campos, da Embrapa, também elogia esse ponto, apontando que entre a safra 2012/13 e a atual a produção no Mapitoba deu um salto de 35,5% – no Brasil o aumento foi de 5,6%. “A característica que mais se destacou na região de Mapitoba foi a produção”, afirma, explicando que os incrementos têm ocorrido devido ao uso de tecnologias mais avançadas.
Vanir Kölln, vice-presidente da Aprosoja Brasil e presidente da Aprosoja Bahia, ressalta que a expansão da soja no Mapitoba tem vantagens sobre a que vem acontecendo em outros cantos do país: é realizada sob as regras do código florestal. “A região é o único lugar com 90% de plantio direto de soja”, diz.
Há ainda vantagens no relevo plano da região e no clima favorável, com alta luminosidade e estabilidade das chuvas. Porém, com as alte-rações climáticas, pode haver alta na temperatura e alterações no regime de chuvas, prejudicando a produtividade. Por isso, Campos analisa que é importante utilizar práticas de cultivo que propiciem a infiltração e retenção de água no solo, a cobertura da terra e o aprofundamento do sistema radicular. “Com a adoção de tecnologia de adubação e correção do solo, uso de cultivares de soja mais adaptados à região, implantação de sistemas integrados de produção e recuperação de áreas degradadas poderíamos elevar, com sustentabilidade, a produção e a produtividade de soja nas áreas do Mapitoba”, elenca o pesquisador.
Portanto, mantido o cenário atual de preços remuneradores para a produção de soja associados a melhorias na logística da região e investimentos em tecnologia dos produtores, é mais do que provável que o cultivo de soja na região de Mapitoba continue a crescer de forma sustentada pelos próximos anos.
Carência
A infraestrutura e a logística ainda são apontadas como pontos a serem melhorados para o desenvolvimento da produção na região. “Ainda é muito deficiente, porém, com alguns sinais de melhora, principalmente na questão de pavimentação das principais vias de escoamento”, analisa o diretor da Aprosoja do Piauí, Rafael Maschio. Há produtores, inclusive, que desistiram de esperar a boa vontade dos governos estaduais e federal e tomaram o assunto em suas mãos, fazendo a conservação das estradas que passam por suas propriedades.Antes o único problema do Mapitoba fosse a precariedade das estradas, mas o caso é que a situação é mais grave. O presidente da Aprosoja do Maranhão, Isaias Soldatelli, informa que muitas fazendas sequer possuem energia elétrica.
Mesmo assim, os produtores veem avanços. Soldatelli, por exemplo, está animado com o avanço de obras como a do Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram) e as melhorias no Porto de Itaqui. “Logo, logo vai nos favorecer na exportação de soja, pois estamos mais perto [dos países exportadores do que os agricultores que exportam via] Santos e Paranaguá”, comemora.
Biodiesel
Esse crescimento todo foi suficiente para que dois dos maiores fabricantes de biodiesel do país, a Oleoplan e a Granol, voltassem a se animar com as perspectivas de produzir por lá – movimento que já vem animando os sojicultores da região. “Eu diria que é um marco fundamental para o desenvolvimento sustentável da região”, acredita o presidente da Aprosoja do Tocantins, Rubem Ritter.O crescimento da soja no Mapitoba traz a peça que falta para que a capacidade produtiva no Norte e Nordeste decole. “Acreditamos no potencial da região, assim como outras empresas do setor também acreditam. A expectativa da Oleoplan é aumentar sua produção de biodiesel para otimizar sua planta atual e buscar uma maior participação no suprimento do consumo de biodiesel do Nordeste”, declara o diretor executivo da Oleoplan, Marcos Merlin Boff. Desde o final de 2011 o Grupo Oleoplan controla a usina de biodiesel de Iraquara (BA), que já pertenceu à Brasil Ecodiesel. A empresa usa matéria-prima cultivada na região de Mapitoba, especificamente a soja produzida no oeste da Bahia, para rodar a usina e garantir que ela se mantenha rentável. “A soja é a opção mais disponível na região e sua produção tem sido crescente desde o início do programa de biodiesel. Por já possuir uma cadeia produtiva mais desenvolvida e mecanizada do que outras culturas, a soja é a melhor opção para as usinas de biodiesel”, explica o executivo. Contudo, ele não descarta a ideia de diversificar suas matérias- -primas incorporando óleo do caroço de algodão e da mamona advindos da agricultura familiar.
Instalada em Porto Nacional (TO) – em outra usina construída originalmente pela Brasil Ecodiesel –, a Granol é outro grupo do setor que está apostando no Mapitoba. O gerente corporativo responsável pela aquisição de matérias-primas para biodiesel da Granol, Osvaldo Morichita, informa que a soja do Tocantins vem “surpreendendo positivamente”. “As áreas iniciaisde plantio normalmente têm baixa produção. No Tocantins, essas áreas têm produção igual às áreas tradicionais de Mato Grosso, o que mostra que a região tem potencial para se tornar um importante polo de fornecimento de soja para a demanda de biodiesel”, comenta.
Com a soja se expandido de forma acelerada pela região, também aumenta o espaço para que as usinas voltem a trabalhar com os pequenos produtores familiares como uma estratégia para o cumprimento de metas do Selo Combustível Social. “Para a próxima safra teremos a inclusão de agricultores familiares que plantam soja, que somados aos que plantam mamona deverão chegar a pelo menos 200 produtores”, explica Boff. Segundo ele, este número poderia ser bem maior se houvesse melhores mecanismos de financiamento ao produtor. “Estamos buscando, com o Banco do Brasil, viabilizar o financiamento das instalações dos projetos de irrigação. A prefeitura de Iraquara está mapeando os poços para viabilizar a emissão das outorgas d´água para os agricultores interessados”, completa o diretor da Oleoplan.
Morichita acrescenta que o incremento do PNPB no estado já garante a compra da produção, a assistência técnica e o pagamento de bônus para os produtores. Os números já são vistosos. “Em Tocantins, trabalhamos no entorno de nossos armazéns, Figueirópolis e Porto Nacional, pois o frete é um custo relevante para o sistema produtivo. Contratamos aproximadamente 5 mil toneladas, o que totaliza 1,8 mil hectares na região”, explica.
O futuro desse movimento ainda esbarra nas carências para que o biodiesel fabricado na região se mantenha competitivo e, portanto, sustentável. “Há muito pouca disponibilidade de assistência técnica, por isso a dificuldade em um maior desenvolvimento da agricultura familiar. Também é necessária a ampliação da infraestrutura, aumento do investimento nos cuidados com o solo”, aponta Boff, que também acredita que seriam necessários mais incentivos para que as usinas de biodiesel aumentassem seus esforços para produzir na região, gerando mais inclusão da agricultura familiar. “Nestas áreas a articulação dos arranjos produtivos é muito mais complexa e onerosa do que em regiões cuja atividade agrícola já é mais madura”, analisa.
Apesar da dificuldade antiga e ainda não resolvida pelo governo de diminuir as desigualdades regionais através do programa do Selo Combustível Social, a região do Mapitoba vai aumentando sua produção de soja com agricultores de grande escala. E o desenvolvimento esperado pode acabar vindo de uma maneira diferente da planejada pelo governo.
![]() |

