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Fábio Rodrigues, de São Paulo
Em 2007, a empresária gaúcha Márcia Werle já pensava em fazer algo mais do que simplesmente lucrar vendendo equipamentos industriais e tecnologias para a nascente indústria de biodiesel: queria que sua empresa ajudasse a viabilizar projetos locais de agregação de valor e geração de bioenergia em comunidades rurais. Não foi bem o que aconteceu. Mas, embora não tenha ido na direção que ela esperava, o projeto jamais chegou a perder seu rumo. A Biotechnos acabaria descobrindo sua vocação no desenvolvimento de projetos de produção de biodiesel a partir de óleos e gorduras residuais (OGRs) por meio do projeto Bioplanet, que pretende elevar os benefícios ambientais do biodiesel a um novo patamar.
Foi sobre isso que BiodieselBR conversou com a empresária.
BiodieselBR – Qual a história da empresa e o que ela faz?
Márcia Werle – Ela foi fundada em 2007. Eu tenho mais de 20 anos de experiência trabalhando em empresas do ramo de metalmecânica aqui do Rio Grande do Sul, tendo participado de todo o processo de evolução pelo qual esse setor passou desde os anos 90. Ajudei na implantação de programas de gestão de qualidade, melhoria contínua, processos de certificação junto à ISO. Mas, por volta de 2004 ou 2005, comecei a pensar em atuar num negócio próprio onde eu pudesse aproveitar um pouco desse potencial que existe localmente. Bem nesse período estava começando essa questão dos biocombustíveis, e me interessei. Acabei fundando a empresa para desenvolver máquinas e projetos na área de produção de bioenergia, tanto na área de biodiesel como de etanol, sempre com esse foco nas pequenas plantas.
BiodieselBR – A forma como vocês trabalham vai contra o mantra do “maior é melhor”. Por que vocês resolveram atuar com essa ênfase nas pequenas e médias usinas?
Márcia Werle – Porque, se você pensar no biocombustível como um produto que deve gerar benefícios socioambientais, você percebe que os benefícios são maiores se você trabalhar em arranjos produtivos locais (APLs). Nos grandes projetos não é incomum você ter que transportar a biomassa por centenas de quilômetros para ser processada na usina, e então ter que transportar o biocombustível por outras centenas de quilômetros até o consumidor. No fim, quando você faz o balanço ambiental, percebe que grande parte dos benefícios acabou se perdendo.
BiodieselBR – Quando a empresa foi fundada ela já tinha esse interesse em projetos relacionados a OGRs e reciclagem de óleo?
Márcia Werle – Hoje a questão dos OGRs é a parte mais visível, mas quando estávamos começando, pensávamos mais no sentido da autoprodução em fazendas ou cooperativas rurais. Aqui no Rio Grande temos essa característica de muitos pequenos produtores agrícolas que plantam soja. O que acaba acontecendo é que eles vendem a soja in natura, mas depois eles precisam gastar boa parte dessa renda comprando produtos industrializados – como farelo e combustíveis. Se os produtores, ou suas cooperativas, pudessem beneficiar por conta própria, ficariam com um rendimento muito maior.
BiodieselBR – E como foi que os projetos com OGRs acabaram se tornando a parte mais visível do negócio?
Márcia Werle – Quando você tem uma planta muito grande, nem sempre produzir com oleaginosas alternativas é viável. Em plantas pequenas é mais fácil. Por isso, precisávamos testar nossos protótipos com diferentes matérias-primas para ver se o biodiesel estava dentro da especificação. Estávamos testando o biodiesel feito com girassol, crambe e outros óleos, quando ficamos sabendo que tinha gente fazendo biodiesel com óleos e gorduras residuais. Já que estávamos mesmo naquele processo, achamos que seria um desafio interessante. Firmamos uma parceria com restaurantes aqui em Santa Rosa para recolher o óleo usado deles e começamos a testar. Foi nesse momento que percebemos que havia uma oportunidade aí.
BiodieselBR – Vocês também têm um aspecto de educação ambiental. Como isso surgiu?
Márcia Werle – Enquanto pesquisava a questão dos OGRs vi que todo mundo que trabalhava com isso dizia que era muito difícil montar a logística reversa para coletar óleo usado. Mas eu tive uma experiência pessoal com minhas filhas que acabou ajudando bastante. Na época que a escola delas implantou um projeto de coleta seletiva, elas ficaram tão enlouquecidas com isso que envolveram a família toda. Todo mundo entrou na onda e começou a separar o lixo. Foi lembrando dessa experiência que percebi que o melhor caminho seria através das escolas e formatei essa iniciativa como um projeto de educação ambiental.
BiodieselBR – A ideia, então, era trabalhar a educação ambiental como uma estratégia para desenvolver essa cadeia de logística reversa?
Márcia Werle – Não só isso, mas também para atingir outras finalidades que vão além da questão dos óleos em si. Por conta da relação com as escolas, passamos a receber visitas dos estudantes que vinham aqui para conhecer a produção de biodiesel e eu fiquei positivamente surpresa com a resposta deles. Foi aí que vimos o quanto esse projeto era rico e que dava para fazer algo muito mais amplo. E inserir a comunidade dessa forma e mostrar que tem um trabalho ambiental sério por trás disso tudo também ajuda a fidelizar nossos maiores fornecedores. Quando o dono de um bar ou de um restaurante percebe que o óleo usado que ele doa gera um benefício maior, dificilmente vai parar de doar.
BiodieselBR – Falando em bares e restaurantes, muitos dos projetos de reciclagem de óleo adotam essa estratégia de “formiguinha”, tentando coletar o óleo de pequenos consumidores domésticos. Não seria mais fácil ir atrás dos grandes consumidores?
Márcia Werle – Também trabalhamos com esses stakeholders. Sempre que fazemos a análise de viabilidade de qualquer projeto, procuramosidentificar os grandes geradores de óleo da região porque são eles que vão dar segurança para o projeto. O que acontece é que, hoje, os grandes geradores de OGRs já não descartam seu óleo indevidamente, seja porque têm a obrigação legal de fazer o descarte adequado, seja porque já se conscientizaram do mal que isso causa. Logo, o trabalho de formiguinha serve para chegar no público que ainda descarta o óleo de forma inadequada.
BiodieselBR – E qual o tamanho do “prêmio”? Quanto óleo de cozinha ainda é desperdiçado país afora?
Márcia Werle – Em média, o brasileiro consome 8 litros de óleo por ano. Então, é bastante coisa. Tem um estudo de 2009 da Casa Civil que identificou que, no país todo, 1,5 bilhão de litros de óleo são descartados irregularmente todos os anos. Se você conseguisse coletar esse óleo e convertê-lo em biodiesel você teria o suficiente para um B2. BiodieselBR – Um dos objetivos é gerar renda para catadores, mas de quanta renda adicional estamos falando? Márcia Werle – Estamos estruturando uma proposta com uma cooperativa de Guarulhos (SP). Nossa projeção é que a reciclagem de óleo vai levar a um aumento de 35% na renda desses catadores, e essa nem é uma estimativa otimista. Hoje eles ganham entre R$ 800 e R$ 900 por mês. Com o projeto de processamento de óleo devidamente estruturado a renda deve chegar a praticamente R$ 1.300 por mês.
BiodieselBR – Isso é um resultado substancial. Essas cooperativas se dedicam exclusivamente à reciclagem de óleo ou reciclam outros tipos de materiais?
Márcia Werle – Eles reciclam vários materiais e também OGRs. O que acontece é que muitas dessas cooperativas atuam dentro de uma lógica de rede. Eles coletam todo tipo de reciclável, mas se especializam no processamento de apenas alguns. Então, a nossa proposta é capacitar uma das cooperativas dentro de cada rede dessas para fabricar biodiesel a partir de OGRs.
BiodieselBR – Os catadores são um público notoriamente carente de recursos e conhecimentos. É muito difícil trabalhar com eles?
Márcia Werle – O maior desafio é financiar projetos. Quando um projeto com catadores aparece, já sabemos que vamos ter uma dificuldade maior para conseguir os recursos. A outra questão é que precisa ter um acompanhamento, não basta instalar a tecnologia e sair fora, você tem que ter um acompanhamento durante um período mais prolongado para que eles consigam dar andamento depois.
BiodieselBR – E como é que vocês ganham dinheiro com esse tipo de projeto?
Márcia Werle – O negócio não é a produção de biodiesel, mas o fornecimento de tecnologia para a produção de biodiesel. Então, ganhamos dinheiro vendendo equipamento para esses produtores e levando nosso know-how na implementação de arranjos locais.
BiodieselBR – Então existe uma remuneração para esse trabalho que vocês fazem?
Márcia Werle – Sim. Claro que se trata de uma remuneração que não é tanto para ganhar dinheiro, mas para cobrir custos e fazer um trabalho bem feito.
BiodieselBR – Dos arranjos locais que vocês desenvolveram até agora, qual o maior caso de sucesso?
Márcia Werle – Acho que o nosso projeto que tem se mostrado mais dinâmico é um que começamos com a Afubra [Associação dos Fumicultores do Brasil] em 2008. Eles compraram uma usina nossa em 2009 para implementar um projeto de reciclagem de óleo cuja meta era processar 50 mil litros por ano. A proposta deles nem era ter lucro com essa iniciativa, eles tinham em mente um enfoque mais ambiental. Aí, em 2012, já estavam recolhendo mais de 100 mil litros de óleo e, no ano passado, passaram de 130 mil litros. E eles nem chegaram a fazer grande investimento em divulgação. Foi mais entre os próprios cooperados e o projeto foi se retroalimentando. Esse é um projeto do qual eu gosto muito.
BiodieselBR – Como vocês se relacionam com os governos?
Márcia Werle – Dificilmente as prefeituras dão algum tipo de apoio financeiro. É sempre a mesma coisa: “Achamos interessante, mas não temos como apoiar projetos dessa natureza”. Mas é claro que você precisa ter um diálogo com o governo local porque não teria como sair batendo nas portas das escolas uma por uma. Tem que ser através da secretaria de educação de cada município e, como se trata de um trabalho de conscientização ambiental, também temos que envolver as secretarias de meio ambiente. Normalmente, são essas duas secretarias.
BiodieselBR – E as empresas de água – afinal, o trabalho de vocês tira das mãos deles um material que daria muita dor de cabeça?
Márcia Werle – Nesse aspecto estamos conseguindo avançar de forma muito positiva. Na última semana [antes desta entrevista ser feita] tivemos um retorno da Agência Nacional das Águas, que se tornou uma apoiadora na implementação de projetos de reciclagem de óleo.Não se trata de apoio financeiro, mas institucional, ao mostrar que esses projetos podem ser uma solução. Algumas companhias de distribuição de água também conhecem a real dimensão do problema. A Sabesp, por exemplo, começou a trabalhar a questão da coleta do óleo em 2007 realizando uma ação inicial na região da Avenida Paulista. Quando elas foram ver os gastos com a manutenção da rede de esgoto nas regiões onde haviam intensificado as ações, constataram uma queda de 13% já no primeiro ano. No segundo ano o número aumentou para 26%. Daí já dá para perceber o quanto isso beneficia as companhias.
BiodieselBR – E as outras companhias de água e esgoto têm esse grau de maturidade?
Márcia Werle – A companhia do Distrito Federal, a Caesb, lançou há pouco tempo o Projeto Biofrito, junto com a Embrapa. Eles já vêm trabalhando essa questão há um bom tempo, tanto que apresentaram esse projeto para a Finep, que foi quem financiou tudo, em 2009. Fomos a fornecedora da tecnologia da planta que eles montaram com a Embrapa para processar esse óleo.
BiodieselBR – Quem é o cliente que entra em contato com vocês querendo implantar um projeto?
Márcia Werle – Cooperativas e ONGs nos procuram bastante, mas a maior demanda hoje são empreendedores locais que veem esses projetos como uma oportunidade de negócios para sua cidade ou região.
BiodieselBR – Estamos falando de um empreendedor capitalista típico ou de alguém que está mais de olho em gerar externalidades positivas do que lucros?
Márcia Werle – Os dois. Temos gente cuja visão é prioritariamente capitalista e vê a reciclagem do óleo como uma oportunidade de negócios. Eles não têm muito interesse em se envolver com essa questão da educação ambiental, querem é comprar o óleo no mercado para produzir e comercializar seus produtos. É um negócio interessante e que está dando resultados para eles. Mas também temos outro perfil de empreendedor que quer um negócio viável, mas que tem uma preocupação maior com o meio ambiente.
BiodieselBR – Vocês têm, ou já tiveram, alguma parceria com alguma usina de biodiesel?
Márcia Werle – Já tivemos vários diálogos com grandes fabricantes de biodiesel e de óleo de soja. Trocamos muitas experiências com eles, mas não temos nenhuma parceria formalizada. Nosso contato se dá muito mais no sentido de troca de ideias e de informações.
BiodieselBR – Essas conversas nunca evoluíram para uma relação mais próxima?
Márcia Werle – Eu acho que as empresas nem sempre entendem nosso negócio. Algumas até que acharam que somos concorrentes. Mas, na verdade, acho que foi um pouco por falta de ir atrás e dialogar um pouco mais nesse sentido. Temos bons contatos dentro do setor com quem temos um diálogo bastante positivo.
BiodieselBR – O governo federal estimula as usinas comerciais a adquirirem oleaginosas da agricultura familiar para gerar emprego no campo. Por que não estender o benefício para a reciclagem de óleo?
Márcia Werle – Já apresentamos essa ideia de o biodiesel feito com OGRs ter acesso ao Selo Social tanto para o [Ministério do] Meio Ambiente como para a Comissão Interministerial do Biodiesel. Mas o que eu percebo é que há uma dificuldade de diálogo entre os diferentes ministérios. Às vezes eles estão desenvolvendo coisas parecidas e não se conversam e interagem como deveriam. No Selo Social, temos um pouco essa dificuldade de comunicação.
BiodieselBR – Vocês são um dos projetos selecionados pelo Plano de Promoção do Brasil na Copa do Mundo. Isso está ajudando vocês?
Márcia Werle – É mais uma carta de apresentação. A seleção desses projetos foi muito criteriosa, você tinha que comprovar projetos implementados há mais de dez anos e que tivessem resultados, e também seus orçamentos. Mas não teve nenhum apoio financeiro. Nem é tanto a questão de dar ou não dinheiro, mas eles poderiam ter, por exemplo, organizado um evento onde os projetos selecionados fossem apresentados aos investidores para ver se algum deles tinha interesse. Mas nada disso aconteceu. Confesso que fiquei decepcionada.
BiodieselBR – Vamos imaginar que tudo deu certo e o projeto foi para frente. Onde vocês querem chegar?
Márcia Werle – Temos várias demandas sendo criadas, com projetos sendo solicitados de uma forma mais estruturada para que a tecnologia de reciclagem do óleo possa ser uma solução para problemas ambientais e sociais de uma determinada cidade. Estamos em negociação no Rio de Janeiro para implantar projetos em comunidades que foram pacificadas recentemente nos complexos da Maré e do Alemão. São comunidades que produzem um volume grande de óleo, onde estamos fomentando o empreendedorismo local. Queremos ter quatro APLs na Grande Rio a tempo das Olimpíadas de 2016.
