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Como é de conhecimento de todos, a presidente Dilma Rousseff autorizou recentemente um aumento no teor do biodiesel, iniciando pelo B6 em julho e chegando ao B7 em novembro de 2014. Aliás, eu já havia escrito aqui que acreditava que essa medida seria tomada este ano. Com ela, o Ministério de Minas e Energia estima uma diminuição na importação de diesel, já neste ano, da ordem de mais de 1 bilhão de litros. Embora aquém do desejado pelo setor, que solicita há tempos um aumento para B10, a notícia é tida como muito importante, inclusive pela presidente, pois significará uma importante redução de importações e será responsável pelo aumento de emprego e renda. Para o mercado, a medida significa ainda uma diminuição considerável na capacidade instalada ociosa. Recentemente, discuti em minhas colunas diversos aspectos que considero importantes para entender essa tomada de decisão pela presidente Dilma.
Por um lado, precisamos lembrar que a nossa balança comercial tem se deteriorado muito nos últimos anos e que, neste em particular, as contas externas têm apresentado indicadores alarmantes. A nossa conhecida falta de investimentos em capacidade de refino faz com que a importação de derivados de petróleo seja cada vez maior, pois há muito não conseguimos produzir o suficiente para atender ao mercado interno. Se não fosse a substituição parcial de diesel por biodiesel, a nossa balança comercial no ano passado teria sido negativa, e tal situação parece estar ainda mais grave este ano.
Por outro lado, existe a questão levantada por muitos, inclusive por mim, sobre o impacto inflacionário do biodiesel. O principal argumento nesse sentido é o fato de o biodiesel, mesmo após 10 anos de produção industrial, ainda não ter conseguido se tornar competitivo em preço com o diesel. No entanto, a diferença tem caído significativamente nos últimos anos, reduzindo de mais de 40% para cerca de 20%. Outro argumento que alguns colocam é o fato de o nosso biodiesel ser produzido majoritariamente usando óleo de soja (aproximadamente 75% do total de biocombustível produzido). Como existe uma aparente competição entre a indústria alimentícia e a de biodiesel, o maior consumo do óleo de soja com fins energéticos poderia pressionar o preço do óleo de soja nas gôndolas do supermercado. No entanto, diversos estudos têm demonstrado que este impacto será muito pequeno – ou praticamente nulo – na inflação, o que é fácil de se entender, levando-se em conta que o principal produto da soja não é o óleo e sim a proteína, e que ainda é grande a quantidade de soja exportada in natura.
Este ano, no que diz respeito às contas externas, a economia brasileira tem se deteriorado ainda mais em relação ao ano passado, não só na balança comercial, mas principalmente com gastos realizados no exterior. O crescimento do PIB no ano passado e neste ano, mesmo que fraco, implica um aumento significativo no consumo de combustíveis, o que iria levar a um novo recorde histórico de importação, aumentando ainda mais o peso negativo do setor nas contas externas.
Ou seja, fica cada vez mais evidente que a equipe do governo federal tenta melhorar as contas externas pela substituição de derivados de petróleo por biocombustíveis. Aliás, não só de biodiesel, pois está sendo discutido também um possível aumento no teor de álcool na gasolina. Eu não ficaria surpreso se tivéssemos no curto prazo um aumento ainda maior: talvez possamos receber em alguns meses a notícia do tão esperado B10.
* Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
